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SUTRA ESOTÉRICO RISHUKYŌ E FLUXO DA MISSA

Elaboramos um texto sobre o Rishukyō, um sutra esotérico secreto da tradição Shingon, que é um texto fundamental dessa escola e cuja recitação requer qualificação ritual. O objetivo é permitir que brasileiros possam ler, estudar e compreender os ensinamentos do Rishukyō.


Embora seja chamado aqui de “texto”, sua estrutura e seu desenvolvimento seguem o texto original do sutra. No entanto, ao apresentar o conteúdo do sutra em forma de explicação, ele se torna muito mais acessível à compreensão, ao mesmo tempo em que preserva o caráter de transmissão secreta próprio desse ensinamento.


Neste templo, o Rishukyō é recitado em praticamente todas as missas budistas, exceto nas missas com Goma (Missa do Fogo). Por isso, juntamente com o Rishukyō, apresentamos também um fluxo para compreender o conteúdo das missas realizadas neste templo.

Sumário do Fluxo da Missa

Fluxo da Missa

Observação: todos os mantras são recitados três vezes.


① Mantra de Reverência — Saudação de Abertura e Encerramento

“On saraba-tatagyata-hanna-mannano kyaromi.”

O monge fica diante do Buda, recita este mantra três vezes, faz a reverência e depois se senta.


“Óṃ. Presto reverência aos pés de todos os Tathāgatas.”


Oṃ é o som sagrado colocado no início dos mantras.

sarva significa “todos”.

tathāgata significa “Tathāgata”, isto é, “Assim-Vindo”, um dos títulos do Buda.

pāda significa “pé”.

vandanaṃ significa “reverência”, “saudação” ou “homenagem”.

karomi significa “eu faço”.


Portanto, o centro deste mantra não está em pedir ao Buda a realização de algum

desejo concreto, mas em, antes de tudo, prestar reverência humilde a todos os

Tathāgatas.


Aqui, o ponto importante é a expressão “prestar reverência aos pés”. Isso não significa simplesmente venerar uma parte física do corpo do Buda (seus pés). Desde o Budismo indiano, curvar-se aos pés de um mestre ou de um Buda significa abaixar o orgulho do ego e abrir corpo e mente diante da sabedoria e da compaixão do Buda.


Em outras palavras, este mantra conduz o praticante a suspender por um momento o apego às próprias ideias, interesses e desejos, levando-o a uma atitude adequada

diante do Buda.


Este é um mantra de saudação que pode ser recitado diante de todos os Budas,

Bodhisattvas, divindades e seres sagrados. Seja qual for o ser diante do qual se reza, o fundamento dessa oração está no respeito à sabedoria e à compaixão de

Mahāvairocana (Dainichi Nyorai), que se manifestam através da individualidade própria de cada ser.


Essa teoria se assemelha à oração de intercessão¹ no Catolicismo. No Catolicismo,

também se dirigem orações à Virgem Maria e aos santos. Contudo, na

teologia católica, a adoração é oferecida somente a Deus; Maria e os santos não são

adorados como se fossem Deus.


Quando se reza a Maria ou aos santos, o conteúdo essencial dessa oração é: “Rogai a Deus por nós.” Portanto, o destino final da oração é sempre Deus, e Jesus Cristo.


No Budismo Esotérico, esse destino final é justamente a sabedoria e a compaixão de

Mahāvairocana.


Essa forma de pensar não significa, de modo algum, desprezar os seres que não são

Mahāvairocana. Cada um deles é precioso. Porém, o fundamento dessa preciosidade está no fato de carregarem em si a sabedoria e a compaixão de Mahāvairocana.


Por isso mesmo, o Budismo Esotérico Shingon está completamente aberto a todas as

religiões, pensamentos e filosofias. É possível reconhecer e respeitar profundamente santos, sacerdotes e ensinamentos presentes em diferentes religiões.


No entanto, se uma fé ou pensamento é realmente bom ou não, isso deve ser julgado

pelo fato de haver ou não sabedoria e compaixão em seu nível mais profundo.

Não importa em que forma ou cultura isso esteja expresso.


Na verdade, na dimensão última da fé do Budismo Esotérico, é preciso ultrapassar até mesmo as palavras e formas chamadas “Mahāvairocana” e “Budismo”.


②Purificação do corpo e realização do empoderamento

Purificação do corpo com incenso em pó e realização do empoderamento pelas três atividades secretas por meio de mudrā, mantra e meditação no Buda.


Empoderamento pelas três atividades secretas é a prática esotérica pela qual os três mistérios do Buda — o mistério do corpo, o mistério da palavra e o mistério da mente — são sintonizados com o corpo, a fala e a mente do sacerdote, fazendo com que o Buda se manifeste naquele espaço ritual.


Mistérios — No Budismo Esotérico, não significa "segredos" ocultos, mas as dimensões profundas e sagradas da atividade do Buda, difíceis de serem plenamente compreendidas pela mente comum.


③ Consagração da água sagrada com o vajra e aspersão sobre todo o recinto e sobre os espíritos

O vajra, em japonês kongōsho, é originalmente a arma de trovão empunhada pelo deus Indra na antiga Índia.


No Budismo Esotérico, ele se tornou um instrumento ritual que simboliza a força espiritual mais poderosa da sabedoria do Buda.


Vajra possui dois significados no Budismo Esotérico: um como conceito doutrinário e outro como instrumento ritual utilizado pelos monges.


④ Ekoumon ou Goeika

廻向文 Ekoumon (no caso de uma missa particular)

廻向文 Ekoumon é oração pela paz espiritual do falecido e pela proteção compassiva do Buda.


御詠歌 Goeika (no caso de uma missa pública)

御詠歌 Goeika é um canto religioso budista japonês, desenvolvido na era moderna, composto por poemas e melodias próprios do Japão, que expressam devoção, fé e gratidão ao Buda e aos mestres fundadores.


⑤ 声明 Shōmyō

声明 Shōmyō é a recitação melódica de sutras e mantras. Sua origem remonta à antiga Índia; por isso, muitos de seus textos são em sânscrito. Também existem formas de shōmyō em japonês.


⑥ 理趣経 Rishu-kyō - (em breve, texto em produção)


⑦ 廻向文 Ekoumon (somente no caso de missa particular)


⑧ 声明 Shōmyō


⑨ 懺悔随喜 Sangaizuiki

Texto Shingon de arrependimento, alegria meritória, súplica aos Budas e dedicação sincera do mérito


Ⅰ 懺悔随喜勧請福

San Gai Zui Ki Guen Sei Fuku


Ⅱ 願我不失菩提心

Guen Ga Fu Shin Ho Tei Shin


Ⅲ 諸仏菩薩妙衆中

Sho Fu Ho Sa Byo Shu Chu

常為善友不厭捨

Sho I Sen Nyu Fu En Sha


Ⅳ 離於八難生無難

Li Yo Hatsu Nan Se Bu Nan


Ⅴ 宿命住智荘厳身

Shuku Be Chu Chi So Gen Shin


Ⅵ 遠離愚迷具悲智

En Li Ku Be Ku Hi Ti


Ⅶ 悉能満足波羅蜜

Shitsu No Man Soku Ha La Bi


Ⅷ 富楽豊饒生勝族

Fu Raku Ho Jyo Se Shi Sho


Ⅸ 眷属広多恒熾盛

Ken Sho Ko Ta Ko Shi Se


Ⅹ 四無礙弁十自在

Shi Bu Kai Hen Shu Si Sai


Ⅺ 六通諸禅悉円満

Riku To Sho Sen Shi  Ten Man


Ⅻ 如金剛幢及普賢

Jyo Kin Ko To Kyu Ho Ken

願讃廻向亦如是

Gen Zan Kai Kyo Eki Jyo Shi


ⅩⅢ 帰命頂礼大悲毘盧遮那仏

Ki Be Tei Rei Taihi Hiro Sha Da Fu


Explicação

Ⅰ. O significado de "Confissão, Alegria Compartilhada, Convite aos Budas e Dedicação dos Méritos"

San Gai Zui Ki Guen Sei Fuku (懺悔・随喜・勧請・福)

A expressão "mérito gerado pela confissão, pela alegria compartilhada e pelo convite aos Budas" constitui o núcleo de todo este texto.


O termo "mérito" (福) não significa simplesmente sorte, prosperidade material ou felicidade mundana. No Budismo, refere-se ao mérito espiritual , isto é, aos benefícios espirituais que surgem das boas ações, da pureza da mente, da devoção ao Buda e da benevolência para com todos os seres.


Entretanto, esse mérito não é acumulado para a felicidade exclusiva de quem pratica. Ele é dedicado para que jamais se perca a Bodhicitta , para que se possa continuar caminhando pela Via do Buda e, sobretudo, para beneficiar todos os seres sencientes. É precisamente aí que reside o profundo significado deste texto.


Confissão

A confissão e o arrependimento (懺悔) constituem uma das práticas mais importantes do Budismo.


Confessar não significa apenas lamentar erros passados. Significa reconhecer sinceramente as próprias faltas, inclusive aquelas das quais muitas vezes nem sequer temos consciência. Significa recordar quantas pessoas, quantas causas e condições sustentaram nossa existência até este momento.


Quando essa compreensão amadurece, surge naturalmente um profundo sentimento de gratidão.


Existe uma realidade que somente pode ser percebida através dessa humildade. Somente quando abandonamos a ilusão de sermos autossuficientes podemos enxergar com clareza a interdependência que sustenta toda a nossa vida.


Alegria Compartilhada

Em seguida vem a prática chamada Alegria Compartilhada (随喜), que consiste em alegrar-se sinceramente com as boas ações realizadas pelos outros e com os méritos dos Budas e dos Bodhisattvas.


Essa prática possui enorme importância.


Em primeiro lugar, ela nos permite superar a inveja, a comparação constante e o sentimento de inferioridade. Em vez de cultivar um coração estreito, aprendemos a celebrar o bem realizado pelos outros.


Em segundo lugar, ao admirarmos as atitudes virtuosas daqueles que são dignos de respeito e ao harmonizarmos nosso coração com elas, nossa própria mente é naturalmente elevada. Pouco a pouco, começamos a compartilhar da mesma direção espiritual e do mesmo ideal.


Convite aos Budas

Convidar (勧請) significa suplicar aos Budas e aos Bodhisattvas que permaneçam neste mundo, continuem ensinando o Dharma e conduzam todos os seres ao despertar.


No Budismo, o Buda não pertence apenas ao passado distante.


Sempre que o Dharma é ensinado, recitado, estudado e colocado em prática, a atividade compassiva do Buda manifesta-se novamente neste mundo.


Assim, convidar os Budas significa acolher essa atuação viva da sabedoria e da compaixão no presente, permitindo que ela continue iluminando os seres.


Dedicação dos Méritos (廻向)

O centro de todo este texto encontra-se, porém, na prática da Dedicação dos Méritos (廻向).


Dedicar os méritos significa oferecer os frutos espirituais obtidos pelas boas ações e pela prática religiosa, em vez de conservá-los exclusivamente para benefício próprio.


Os méritos são dirigidos ao bem dos outros, à libertação de todos os seres e à realização plena do despertar.


Aqui se revela claramente o espírito do Budismo Mahāyāna.


Os méritos da prática não constituem uma propriedade individual.

Na Via do Buda, o mérito não existe para ser acumulado ou monopolizado. Sua verdadeira natureza consiste em abrir-se, compartilhar-se e beneficiar todos os seres, sem exceção.


Ⅱ. "Que eu jamais perca a Bodhicitta"

Guen Ga Fu Shin Ho Tei Shin (願我不失菩提心)

É extremamente significativo que este texto prossiga com a expressão "Que eu jamais perca a Bodhicitta" (願我不失菩提心).


Isso porque os méritos gerados pela confissão, pela alegria compartilhada e pelo convite aos Budas são, antes de tudo, dedicados para que a Bodhicitta jamais se perca.


A Bodhicitta (菩提心) é a mente que aspira alcançar o despertar do Buda. Ao mesmo tempo, é a determinação de percorrer o Caminho do Buda em benefício de todos os seres sencientes.


Por mais intensa que seja a prática espiritual, se a Bodhicitta for perdida, essa prática corre o risco de tornar-se centrada apenas em si mesmo.


Em contrapartida, a Bodhicitta, que desperta o desejo sincero de trabalhar pelo bem dos outros, traz benefícios imensuráveis também para quem a cultiva. Paradoxalmente, porém, essa disposição contraria o apego ao ego e às tendências egoístas da mente. Por isso, é fácil perder a Bodhicitta se ela não for continuamente renovada.


Assim, este verso reafirma a importância fundamental da Bodhicitta e expressa o profundo desejo de jamais abandoná-la.


Ⅲ. "Entre a nobre assembleia dos Budas e Bodhisattvas, que eu seja sempre guiado por bons amigos espirituais, sem jamais ser abandonado"

Sho Fu Ho Sa Byo Shu Chu (諸仏菩薩妙衆中)
Sho I Sen Nyu Fu En Sha (常為善友不厭捨)

Este verso expressa o desejo de permanecer na sublime assembleia dos Budas e dos Bodhisattvas, sendo constantemente guiado e amparado pelos bons amigos espirituais (善友).


Um bom amigo espiritual não é simplesmente alguém com quem mantemos uma amizade agradável.


No Budismo, trata-se de toda pessoa ou presença que nos conduz na direção correta, nos encoraja na prática e nos sustenta no Caminho do Buda.


A realização espiritual não é algo que se complete isoladamente.


A prática amadurece dentro da relação com os Budas, os Bodhisattvas, os mestres, os companheiros de prática e toda a comunidade do Dharma. É nesse conjunto de relações que a fé é preservada, a sabedoria se aprofunda e a prática continua viva.


Em sentido mais amplo, também podem ser considerados bons amigos espirituais os familiares, os grandes mestres do passado e todas as pessoas cuja vida, caráter ou exemplo elevam nosso coração e nos inspiram a viver de maneira mais nobre.


Ⅳ. "Que eu me afaste das oito condições desfavoráveis e renasça em circunstâncias propícias ao Dharma"

Li Yo Hatsu Nan Se Bu Nan (離於八難生無難)

Este verso expressa o desejo de afastar-se das Oito Condições Desfavoráveis (八難), isto é, das circunstâncias que impedem alguém de encontrar, ouvir, compreender e praticar o Dharma.


Segundo a tradição budista, existem situações em que o contato com o ensinamento do Buda se torna extremamente difícil ou praticamente impossível. Essas condições são chamadas de Oito Dificuldades porque privam o ser da oportunidade de trilhar o caminho da libertação.


Mais do que uma lista de lugares ou estados específicos, elas simbolizam todas as condições que obscurecem a sabedoria e afastam o ser da prática espiritual.


Por isso, o verso não expressa apenas o desejo de evitar sofrimentos externos. Ele manifesta a aspiração de nascer e viver em circunstâncias favoráveis, onde seja possível encontrar o Dharma, estudá-lo, praticá-lo e amadurecer espiritualmente.


Em outras palavras, trata-se de desejar as causas e as condições necessárias para que o Caminho do Buda possa florescer plenamente na própria vida.


Ⅴ. "Que este corpo seja adornado pela sabedoria que conhece as existências passadas"

Shuku Be Chu Chi So Gen Shin (宿命住智荘厳身)

Este verso expressa o desejo de que nosso ser seja adornado pela sabedoria que conhece as existências passadas (宿命智).


Essa sabedoria não deve ser entendida, antes de tudo, como a capacidade extraordinária de recordar literalmente vidas anteriores.


Ela começa por um profundo processo de introspecção.


Ao observarmos atentamente nossa própria mente, passamos a reconhecer as tendências, os hábitos e os condicionamentos profundamente enraizados que moldam nossos pensamentos, emoções e ações. Com uma contemplação ainda mais profunda, compreendemos que essas tendências não surgiram apenas nesta existência. Elas fazem parte de uma corrente contínua de causas e condições que se estende por um passado imensurável.


Assim, percebemos que o "eu" presente não é uma existência isolada nem independente. Nossa vida manifesta-se sobre uma rede infinita de relações, causas e condições acumuladas ao longo de incontáveis existências.


Essa compreensão constitui o significado essencial da sabedoria que conhece as existências passadas.


Quando essa sabedoria amadurece, nasce uma profunda serenidade interior. A ansiedade diminui, a mente encontra estabilidade e surge uma aceitação cada vez mais profunda da realidade tal como ela é.


Dessa forma, a mente torna-se pura, e a própria existência passa a refletir dignidade, nobreza e beleza espiritual.


É nesse sentido que o texto afirma que o corpo ou a existência é "adornada" (荘厳, shōgon).


Existem interpretações mais técnicas e especializadas desse verso dentro da tradição budista, especialmente no contexto da doutrina das seis faculdades sobrenaturais (ṣaḍ-abhijñā). Contudo, para a prática espiritual, essa compreensão fundamental é a mais importante.


Ⅵ. "Que eu me afaste da ignorância e da ilusão e seja plenamente dotado de compaixão e sabedoria"

En Li Ku Be Ku Hi Ti (遠離愚迷具悲智)

Este verso expressa o desejo de afastar-se da ignorância e da ilusão, cultivando plenamente tanto a compaixão (悲) quanto a sabedoria (智).


No Budismo, a ignorância (avidyā) constitui a raiz de todos os sofrimentos.


Quando deixamos de examinar continuamente nossa própria mente e perdemos de vista os ideais elevados da prática, é fácil sermos arrastados pelas distrações, pelos prazeres imediatos e pela busca incessante da satisfação dos desejos.


Por isso, este verso funciona como um constante lembrete.


Ele nos convida a não nos deixarmos conduzir por uma felicidade superficial e passageira, mas a orientar nossa vida para uma felicidade muito mais profunda, duradoura e autêntica: aquela que nasce da libertação da ignorância e do amadurecimento espiritual.


Além disso, o verso destaca que a compaixão e a sabedoria jamais devem ser separadas.

A compaixão sem sabedoria pode transformar-se em sentimentalismo ou apego.

A sabedoria sem compaixão pode tornar-se fria e distante.


Na tradição Mahāyāna e no Budismo Esotérico, ambas constituem duas expressões inseparáveis da atividade iluminada dos Budas.


Ⅶ. "Que eu realize plenamente todas as Pāramitās"

Shitsu No Man Soku Ha La Bi (悉能満足波羅蜜)

Este verso expressa o desejo de realizar plenamente todas as Pāramitās (波羅蜜), isto é, as práticas do Bodhisattva que conduzem ao despertar.


As Pāramitās incluem virtudes como a generosidade, a disciplina ética, a paciência, o esforço diligente, a meditação e a sabedoria.


A palavra Pāramitā significa literalmente "atravessar para a outra margem".


Ela simboliza a travessia da margem da ignorância e do sofrimento para a margem do despertar.


Segundo o Budismo, vivemos inicialmente na margem da ilusão (esta margem), dominados pelos apegos, pelos desejos e pela ignorância.


As Pāramitās representam o caminho gradual pelo qual superamos essas limitações e realizamos plenamente a sabedoria e a compaixão, alcançando a margem do despertar (a outra margem).


Tradicionalmente, destacam-se as Seis Pāramitās.

  • Generosidade (布施) consiste em oferecer bens materiais, tempo, energia, conhecimento e cuidado aos outros, sem apego nem expectativa de recompensa.


  • Disciplina ética (持戒) significa observar os preceitos e conduzir a própria vida com integridade, evitando ser dominado pelos desejos egoístas.


  • Paciência (忍辱) é a capacidade de acolher sofrimentos, dificuldades, críticas e ofensas sem permitir que a raiva, o ressentimento ou o ódio dominem a mente. Em vez disso, essas experiências tornam-se oportunidades de crescimento espiritual.


  • Esforço diligente (精進) consiste em perseverar continuamente na prática do bem e em avançar sem desânimo pelo Caminho do Buda.


  • Meditação (禅定) é o treinamento que aquieta a mente dispersa e desenvolve uma concentração profunda. Quando a mente se torna serena e estável, cria-se a base necessária para perceber a realidade tal como ela realmente é.


  • Sabedoria (智慧) ocupa uma posição central entre todas as Pāramitās. Trata-se da sabedoria que percebe corretamente as verdades da impermanência (無常), da

    originação dependente (縁起) e da não existência de um eu permanente (無我), eliminando a ignorância e o apego em sua própria raiz.


Entretanto, as Seis Pāramitās não são virtudes independentes umas das outras.

A generosidade, a disciplina, a paciência, o esforço e a meditação são corretamente orientados pela sabedoria.


Ao mesmo tempo, essa própria sabedoria amadurece precisamente por meio da prática concreta da compaixão expressa nas demais Pāramitās.


Assim, todas elas se sustentam mutuamente, formando um único caminho destinado ao aperfeiçoamento da personalidade do Bodhisattva.


Sob uma perspectiva mais profunda, especialmente no Budismo Mahāyāna e no Budismo Esotérico (Shingon), as Pāramitās não constituem simplesmente um conjunto de normas morais.


Elas representam a manifestação concreta da sabedoria e da grande compaixão do Buda através das três atividades (三業) — corpo, palavra e mente.


Por essa razão, as Pāramitās não existem apenas para tornar alguém uma "boa pessoa". Elas são a prática pela qual o praticante realiza, em sua própria existência, o estado iluminado do Buda.


Nesse sentido, as Pāramitās são, ao mesmo tempo, o caminho que conduz ao despertar e a própria manifestação do despertar expressa em cada ação cotidiana.


Ⅷ. "Que eu renasça em circunstâncias de abundância e prosperidade favoráveis ao Caminho do Buda"

Fu Raku Ho Jyo Se Shi Sho (富楽豊饒生勝族)

Este verso exige uma explicação cuidadosa para o leitor contemporâneo.


À primeira vista, pode parecer que ele expressa o desejo de nascer em uma família rica, próspera ou socialmente privilegiada. Contudo, essa não é a intenção do ensinamento budista.


O verdadeiro sentido deste verso é desejar as condições favoráveis para cultivar o Caminho do Buda.


Para ouvir o Dharma, estudá-lo e perseverar na prática, não basta apenas a determinação interior. Também são necessárias circunstâncias que ofereçam certa estabilidade e tranquilidade. Quando a vida é dominada pelo medo, pela insegurança, pela confusão ou pelo isolamento, torna-se muito mais difícil dedicar-se ao desenvolvimento espiritual.


Por isso, a prosperidade mencionada aqui não deve ser entendida como luxo, poder ou posição social elevada. Ela representa o conjunto de causas e condições que permitem sustentar a prática budista e fazer o bem aos outros.


Assim, este verso expressa o desejo de receber os méritos e as condições necessárias para continuar avançando no Caminho do Buda e beneficiar todos os seres.


Ⅸ. "Que a comunidade daqueles que caminham no Dharma floresça continuamente"

Ken Sho Ko Ta Ko Shi Se (眷属広多恒熾盛)

Este verso expressa o desejo de que a comunidade formada por todos aqueles que percorrem o Caminho do Buda continue crescendo e florescendo, transmitindo às futuras gerações a luz da sabedoria e da compaixão do Dharma.


A palavra "眷属" não se refere apenas à família ou aos amigos.


Ela designa todos aqueles que estão unidos pelo Dharma: mestres e discípulos, monges e leigos, companheiros de prática e todas as pessoas ligadas por um profundo vínculo espiritual.


O Budismo ensina que o despertar não é alcançado isoladamente.


Aprendemos o Dharma com nossos mestres, somos encorajados pelos companheiros de prática e, juntos, preservamos e transmitimos os ensinamentos às gerações seguintes.


Nesse sentido, toda pessoa que fortalece nossa caminhada espiritual pode ser considerada parte dessa grande família do Dharma.


Assim, este verso não deseja simplesmente que haja muitas pessoas reunidas, mas que a comunidade budista permaneça viva, forte e unida, para que a sabedoria e a compaixão do Buda continuem iluminando o mundo através das gerações.


Ⅹ. "Que eu adquira as Quatro Eloquências sem Obstáculos e as Dez Liberdades Espirituais"

Shi Bu Kai Hen Shu Si Sai (四無礙弁十自在)

Este verso expressa o desejo de desenvolver a sabedoria e a liberdade de ação que permitem ao Bodhisattva conduzir todos os seres ao Caminho do Buda.


As Quatro Eloquências sem Obstáculos (四無礙弁) representam a capacidade de ensinar o Dharma de maneira livre e perfeita, sem encontrar impedimentos.


Elas abrangem quatro aspectos.

  • A primeira é compreender corretamente o próprio Dharma, isto é, os ensinamentos do Buda.

  • A segunda é compreender profundamente o verdadeiro significado desses ensinamentos.

  • A terceira é saber expressá-los com palavras claras, apropriadas e compreensíveis.

  • A quarta é ser capaz de explicá-los de acordo com a capacidade, a situação e as necessidades de cada pessoa.


Portanto, este ensinamento não fala simplesmente da habilidade de falar bem.


Ele descreve uma sabedoria unida à compaixão, capaz de transmitir o Dharma de maneira que realmente beneficie quem o escuta.


Em seguida, o verso menciona as Dez Liberdades Espirituais (十自在).

Elas representam a liberdade que o Bodhisattva alcança quando sua sabedoria e sua compaixão amadurecem plenamente. Graças a essa realização, ele pode agir sem ser limitado pelo ego, pelos apegos ou pela ignorância, utilizando sempre o meio mais adequado para conduzir cada ser ao despertar.


No Budismo, liberdade  não significa fazer tudo o que se deseja.

Ela significa não estar mais preso aos desejos egoístas nem às limitações da própria mente. É a liberdade que nasce da sabedoria e permite agir sempre em benefício dos outros.


Segundo o Avataṃsaka Sūtra (Sutra da Guirlanda de Flores), essas Dez Liberdades são geralmente apresentadas da seguinte maneira.

  • Liberdade sobre a própria vida: poder permanecer neste mundo pelo tempo necessário para beneficiar os seres.


  • Liberdade da mente: manter a mente completamente livre da dominação das paixões e das ilusões.


  • Liberdade sobre os recursos materiais: utilizar bens e recursos de acordo com as necessidades dos seres, promovendo seu benefício.


  • Liberdade em relação ao karma: agir sem estar preso aos condicionamentos do passado, colocando todas as ações a serviço do bem.


  • Liberdade quanto ao renascimento: renascer voluntariamente nas circunstâncias mais adequadas para ajudar os seres.


  • Liberdade dos votos: realizar plenamente os votos e aspirações assumidos no Caminho do Bodhisattva.


  • Liberdade da compreensão: entender profundamente todos os ensinamentos do Buda e explicá-los corretamente.


  • Liberdade nos meios hábeis: empregar, conforme cada situação, os métodos mais apropriados para conduzir os seres ao despertar.


  • Liberdade na exposição do Dharma: ensinar o Dharma livremente, sem qualquer obstáculo.


  • Liberdade da sabedoria: conhecer a realidade tal como ela é, sem impedimentos nem ilusões.


Ao observar essa lista, percebemos que nenhuma dessas liberdades existe para benefício pessoal.


Por exemplo, a liberdade sobre a própria vida não significa possuir um corpo imortal. Ela expressa a disposição compassiva de permanecer neste mundo enquanto houver seres a serem guiados.


Da mesma forma, a liberdade quanto ao renascimento não significa escolher arbitrariamente onde nascer. Significa renascer, por livre compaixão, exatamente onde se possa beneficiar o maior número possível de seres.


Assim, todas as Dez Liberdades têm como fundamento o espírito de beneficiar os outros (利他).


Na tradição do Budismo Esotérico (Shingon), esse ensinamento adquire um significado ainda mais profundo.


Os Budas e os Bodhisattvas não são livres porque possuem um poder pessoal ilimitado.


Sua verdadeira liberdade nasce da perfeita união entre as três atividades do praticante — corpo, palavra e mente — e as Três Atividades (三密) de Mahāvairocana (大日如来).


Quando essa união se realiza, a sabedoria e a grande compaixão de Mahāvairocana manifestam-se naturalmente através do praticante.


Por isso, a verdadeira liberdade não consiste em fazer tudo o que se deseja.


Ela consiste em permitir que a sabedoria do Buda se manifeste sem obstáculos por meio da própria vida.


Nesse sentido, as Dez Liberdades não representam poderes sobrenaturais reservados apenas aos Budas.


Elas constituem um ideal elevado que orienta diariamente nossa prática e mostram a direção para a qual o praticante deve continuamente caminhar.


Ⅺ. "Que as Seis Faculdades Espirituais e todos os estados de meditação alcancem sua plena realização"

Riku To Sho Sen Shi  Ten Man (六通諸禅悉円満)

Este verso expressa o desejo de que as Seis Faculdades Espirituais (六通) e todos os estados de meditação (dhyāna) sejam plenamente realizados.


Aqui, a meditação não deve ser entendida apenas como um exercício para acalmar a mente.


No Budismo, a meditação é uma prática que conduz a mente da dispersão para a serenidade, desenvolvendo uma profunda estabilidade interior. Sobre essa base, torna-se possível contemplar a realidade tal como ela é e fazer amadurecer a verdadeira sabedoria.


O verso menciona também as Seis Faculdades Espirituais, tradicionalmente conhecidas como:

  • A faculdade de mover-se livremente (神足通): a liberdade de agir sem limitações, levando auxílio onde for necessário.


  • A visão divina (天眼通): a capacidade de perceber aquilo que normalmente escapa aos olhos comuns, compreendendo a realidade com maior profundidade.


  • A audição divina (天耳通): a capacidade de ouvir aquilo que normalmente não pode ser percebido pelos sentidos ordinários.


  • O conhecimento da mente alheia (他心通): compreender o estado interior e as intenções dos outros.


  • O conhecimento das existências passadas (宿命通): conhecer a continuidade das vidas anteriores e a sucessão de causas e condições que moldam a existência.


  • A completa extinção das impurezas (漏尽通): eliminar definitivamente todas as aflições mentais e alcançar a libertação perfeita.


Entretanto, o Budismo não ensina que essas faculdades devam ser buscadas como poderes extraordinários.


O próprio Buda jamais apresentou as faculdades sobrenaturais como o objetivo da prática.


Embora algumas delas possam surgir naturalmente como consequência de uma meditação muito profunda, elas, por si mesmas, não conduzem ao despertar.


Sem a verdadeira sabedoria, até mesmo essas capacidades podem tornar-se motivo de orgulho, apego ou ilusão.


Por essa razão, entre as Seis Faculdades Espirituais, a mais importante é a última: a completa extinção das impurezas (漏尽通).


Ela representa a eliminação definitiva dos Três Venenos — a cobiça, o ódio e a ignorância — de modo que as aflições jamais voltem a surgir.


Os cinco primeiros poderes, segundo os ensinamentos budistas, podem eventualmente ser alcançados até mesmo por praticantes de outras tradições espirituais. Somente a extinção completa das impurezas, porém, nasce da sabedoria perfeita ensinada pelo Buda e constitui a verdadeira realização da libertação.


Assim, este verso não expressa o desejo de adquirir poderes misteriosos.

Ele expressa a aspiração de cultivar uma meditação profunda, desenvolver uma sabedoria madura e fazer com que corpo, palavra e mente se tornem instrumentos para beneficiar corretamente a si mesmo e aos outros.


Em última análise, trata-se de uma oração para que o praticante alcance a libertação plena simbolizada pela completa extinção das impurezas.


Ⅻ. "Assim como Vajradhvaja e Samantabhadra, que meu louvor e minha dedicação dos méritos sejam também assim"

Jyo Kin Ko To Kyu Ho Ken (如金剛幢及普賢)
Gen Zan Kai Kyo Eki Jyo Shi (願讃廻向亦如是)

Este verso expressa o desejo de que nossas aspirações, nosso louvor ao Buda e nossa dedicação dos méritos se tornem semelhantes aos dos grandes Bodhisattvas Vajradhvaja (金剛幢菩薩) e Samantabhadra (普賢菩薩).


Vajradhvaja, cujo nome significa "Estandarte de Diamante", simboliza a firmeza inabalável da Bodhicitta e a manifestação da virtude do Buda no mundo.


Assim como um estandarte elevado pode ser visto à distância e servir de referência para todos, esse Bodhisattva representa a força da sabedoria e da compaixão que orientam os seres no Caminho do Buda.


Samantabhadra, por sua vez, representa a realização concreta da prática do Bodhisattva.


No Sutra Avataṃsaka, ele ensina os Dez Grandes Votos, mostrando que a verdadeira sabedoria sempre se manifesta por meio da prática, do serviço aos outros e da dedicação dos méritos a todos os seres.


Na tradição do Budismo Esotérico, Samantabhadra também simboliza a grande aspiração que se transforma continuamente em ação compassiva.


Por isso, este verso não expressa simplesmente o desejo de que nossos próprios pedidos sejam atendidos.


Ele pede que nossas aspirações sejam elevadas, tornando-se semelhantes às dos grandes Bodhisattvas.


Que nosso louvor ao Buda não seja apenas uma manifestação de devoção pessoal.


Que nossa dedicação dos méritos não permaneça limitada ao benefício individual.


Ao contrário, que tudo isso se transforme em uma prática voltada para o benefício de todos os seres, conduzindo-os juntos pelo Caminho do Buda.


Assim, nossas intenções deixam de ser centradas em nós mesmos e passam a participar do grande voto dos Bodhisattvas: trabalhar incansavelmente pela felicidade e pelo despertar de todos os seres.


ⅩⅢ. "Prostro-me com reverência e tomo refúgio em Mahāvairocana, o Buda da Grande Compaixão"

Ki Be Tei Rei Taihi Hiro Sha Da Fu (帰命頂礼大悲毘盧遮那仏)

Com estas palavras, toda a oração da Confissão, Alegria Compartilhada, Convite aos Budas e Dedicação dos Méritos encontra sua conclusão na tomada de refúgio em Mahāvairocana (大日如来).


Na tradição do Budismo Esotérico (Shingon), Mahāvairocana não é apenas um Buda entre muitos outros.


Ele é o Buda do Corpo do Dharma (Dharmakāya), a própria manifestação da Verdade que permeia todo o universo. É a fonte da qual procedem todos os Budas, todos os Bodhisattvas e todos os seres sencientes. Sua natureza é a união perfeita entre a sabedoria infinita e a grande compaixão.


À luz dessa compreensão, torna-se claro que tudo o que foi recitado até aqui — a confissão, a alegria compartilhada, o convite aos Budas e a dedicação dos méritos — não são práticas independentes umas das outras.


Todas convergem para a sabedoria e a compaixão de Mahāvairocana e, a partir delas, voltam a irradiar-se para o mundo como atividade destinada a beneficiar todos os seres.


Por isso, esta oração não é simplesmente um texto para reconhecer os próprios erros ou pedir perdão pelas faltas do passado.


Ela nos conduz a abandonar o apego ao ego por meio da confissão.


Ensina-nos a transformar as virtudes dos outros em motivo de alegria por meio da alegria compartilhada.


Convida-nos a desejar que o Dharma permaneça vivo neste mundo, para que continue iluminando incontáveis gerações.


Leva-nos a oferecer todos os méritos acumulados ao benefício de todos os seres, sem guardar nada exclusivamente para nós mesmos.


E, finalmente, conduz-nos a confiar inteiramente nossa vida a Mahāvairocana, permitindo que nossa prática se una à sua sabedoria e à sua grande compaixão.


Desse modo, nossa prática deixa de ser apenas um esforço individual e passa a participar da própria atividade iluminada do Buda.


Por essa razão, a oração da Confissão e Alegria Compartilhada não deve ser compreendida apenas como uma oração de arrependimento.


Ela é uma profunda profissão de compromisso com o Caminho do Bodhisattva.


É uma declaração pela qual abandonamos gradualmente o egoísmo, fortalecemos continuamente a Bodhicitta, unimos nossa prática à sabedoria e à grande compaixão do Buda e renovamos o voto de caminhar, juntamente com todos os seres, em direção ao despertar perfeito.


Nesse sentido, esta oração ocupa um lugar central na tradição do Budismo Esotérico (Shingon). Ela resume, em poucas palavras, o espírito do Caminho do Bodhisattva: purificar o próprio coração, alegrar-se com o bem realizado pelos outros, preservar o Dharma no mundo, dedicar todos os méritos ao benefício universal e confiar plenamente a própria vida à sabedoria e à grande compaixão de Mahāvairocana.

⑩ 般若心経 Hannya Shingyō / Sutra do Coração / Prajñāpāramitā-hṛdaya-sūtra

Bu Setsu Ma Ka Han Nya Ha Ra Mi Ta Shin Gyō

Kan Ji Zai Bo Sa Gyō Jin Han Nya Ha Ra Mi Ta Ji

Shō Ken Go Un Kai Kū Do I Sai Ku Yaku

Sha Ri Shi Shiki Fu I Kū Kū Fu I Shiki

Shiki Soku Ze Kū Kū Soku Ze Shiki

Ju Sō Gyō Shiki Yaku Bu Nyo Ze

Shari Shi Ze Shō Hō Sō Fu Shō Fu Metsu

Fu Ku Fu Jō Fu Zō Fu Gen

Ze Ko Kū Chū Mu Shiki Mu Ju Sō Gyō Shiki

Mu Gen Ni Bi Ze Shin Ni

Mu Shiki Shō Kō Mi Soku Hō

Mu Gen Kai Nai Shi Mu I Shiki Kai

Mu Mu Myō Yaku Mu Mu Myō Jin

Nai Shi Mu Rō Shi Yaku Mu Rō Shi Jin

Mu Ku Shū Metsu Dō

Mu Chi Yaku Mu Toku I Mu Sho To Ko

Bo Dai Sa Ta E Han Nya Ha Ra Mi Ta Ko

Shin Mu Ke Ge Mu Ke Ge Ko Mu U Ku Fu

On Ri I Sai Ten Dō Mu Sō Ku Gyō Ne Han

San Ze Sho Butsu E Han Nya Ha Ra Mi Ta Ko

Toku A Noku Ta Ra San Myaku San Bo Dai

Ko Chi Han Nya Ha Ra Mi Ta

Ze Dai Jin Shu Ze Dai Myō Shu

Ze Mu Jō Shu Ze Mu Tō Dō Shu

Nō Jo I Sai Ku Shin Jitsu Fu Ko

Ko Setsu Han Nya Ha Ra Mi Ta Shu

Soku Se Shu Watsu

Gya Tei Gya Tei Ha Ra Gya Tei

Ha Ra Sō Gya Tei Bo Ji So Wa Ka.

Han Nya Shin Gyō.


Explicação do Sutra do Coração

O Sutra do Coração é um dos sutras mais amplamente recitados no Budismo.

É um sutra curto, mas nele se revela o que é a sabedoria budista.


Esse ensinamento diz:

“Sofremos porque nos agarramos às coisas como se fossem fixas.”

Nós reunimos corpo, emoções, memórias, pensamentos e consciência e pensamos:

“Isto sou eu.” Meu corpo, minha mente, meu passado, minhas ansiedades, meus

desejos. Agarramo-nos fortemente a essas coisas e pensamos: “Isto eu não quero

perder”, “Isto eu não quero que mude jamais.”


Contudo, ao observarmos cuidadosamente, percebemos que corpo e mente, emoções

e pensamentos estão sempre mudando. E eles não existem isoladamente por si

mesmos; surgem por várias condições.


Tomemos como exemplo uma nuvem.

A nuvem aparece no céu e parece possuir forma. Contudo, essa nuvem não existe

isoladamente apenas como nuvem. Vapor de água, vento, temperatura, umidade,

pressão atmosférica, calor do sol e várias outras condições se reúnem, e por isso ela

aparece temporariamente como nuvem.


Aqui, vamos revisar as doutrinas fundamentais do Budismo apresentadas anteriormente: impermanência, originação dependente e não-eu.


Quando as condições mudam, a forma da nuvem também muda. Em seguida, ela se

torna chuva, neblina ou desaparece da visão. Ou seja, a nuvem continua mudando. Isto é impermanência.


Além disso, a nuvem é formada por muitas condições. Ela não existe independentemente, sozinha. Isto é originação dependente.


Além disso, dentro da nuvem não há algo que se possa chamar de “o corpo essencial e imutável da nuvem”. A nuvem certamente aparece, mas não existe como uma

substância fixa e independente. Isto é não-eu.


O mesmo ocorre com a nossa mente.

Às vezes, a ansiedade aparece. A tristeza também pode aparecer. A raiva também

pode aparecer. Contudo, elas não aparecem subitamente sem nenhuma razão. Elas

surgem por várias condições: cansaço físico, memórias do passado, relações humanas, ambiente, palavras, expectativas, medo, apego e assim por diante.


E a ansiedade, a tristeza e a raiva não continuam sempre da mesma forma. Ficam mais fortes, mais fracas, transformam-se em outras emoções ou, com o tempo,

desaparecem.


Além disso, essas emoções não são “a minha essência”. O fato de haver esses

sofrimentos não significa que eu mesmo seja sofrimento.


Elas são atividades da mente que surgem por condições, mudam por condições e

desaparecem por condições. Justamente por isso, quando reconhecemos corretamente, podemos nos libertar do sofrimento.


O “vazio” ensinado pelo Sutra do Coração é a sabedoria que compreende

profundamente essa impermanência, originação dependente e não-eu. Todas as coisas mudam, são formadas por relações e não possuem substância fixa.


A sabedoria budista é realmente compreender isso.

Nesse momento, abre-se um mundo verdadeiramente livre: um mundo livre do

sofrimento, do mal, do prazer ilusório e do apego. Só então podem aparecer a verdadeira alegria e a verdadeira benevolência.


No início do sutra, ensina-se que o Bodhisattva Avalokiteśvara, ao praticar profundamente a Prajñāpāramitā², viu que os cinco agregados são todos vazios.


Os cinco agregados são os cinco elementos que compõem aquilo que chamamos de

nós mesmos: corpo, sensações, imagens mentais, formações da mente e consciência.


Nós pensamos que eles são “o eu em si”. Contudo, Avalokiteśvara viu que eles não são substâncias fixas, mas realidades temporariamente formadas por várias condições.


Isto é “os cinco agregados são todos vazios”.


Aqui, o ponto importante é que Avalokiteśvara não compreendeu o vazio apenas com

a cabeça. Avalokiteśvara praticou profundamente a Prajñāpāramitā.


Prajñāpāramitā significa a profunda sabedoria levada à perfeição.


Portanto, essa sabedoria não é algo que se aprende apenas como conhecimento. É

uma prática: acalmar a mente, observar a si mesmo, contemplar os movimentos do

corpo, das emoções e dos pensamentos, e soltar o apego à substância que está por

trás deles.


O Sutra do Coração não é apenas uma explicação de doutrina; é também um sutra que transforma o coração por meio da prática da Prajñāpāramitā, isto é, da sabedoria. Ou seja, este sutra não apenas explica “o que é o vazio/sabedoria”, mas nos conduz

diretamente ao vazio/sabedoria.


O Sutra do Coração não é um sutra que nega a realidade. É um sutra que desfaz

silenciosamente o coração que se agarra à realidade como se ela fosse fixa.


Se nos colocamos sobre a verdade chamada “vazio”, tudo é “não”.

Por isso, este sutra é, em sentido muito profundo, um sutra da liberdade.


Neste mundo não há valor algum ao qual devamos nos apegar ou temer.

Somente nesse mundo livre podemos encontrar aquilo que possui verdadeiro valor.

Por isso, o Sutra do Coração repete tantas vezes a palavra “não”.


Na segunda metade do sutra, ensina-se “coração sem obstáculos”. Isso significa que

não há impedimentos no coração. Como não há impedimentos no coração, não há

medo. Como não há medo, a pessoa se afasta dos pensamentos ilusórios e caminha para a paz suprema.


E o Sutra do Coração chega, ao final, ao mantra:

Gate gate pāragate pārasaṃgate bodhi svāhā.


Este mantra, tradicionalmente, não é traduzido.


A principal razão é que um mantra não é uma frase cujo valor esteja apenas em “compreender o significado”. Ele é uma fórmula sagrada cujo valor está no próprio som e na tradição venerável que acompanha esse som.


Além disso, em gate gate pāragate pārasaṃgate bodhi svāhā, não é possível determinar academicamente, de forma definitiva, o sentido exato de cada palavra. Ainda assim, é possível oferecer uma explicação aproximada do significado.


gate = vai

pāragate = vai para a outra margem

pārasaṃgate = vai completamente para a outra margem 

bodhi = despertar, iluminação

svāhā = que se realize; que seja auspicioso; salve


Assim, uma tradução aproximada seria:

“Vai, vai, vai para a outra margem, vai completamente para a outra margem. Despertar, svāhā.”


No entanto, essa tradução deve ser entendida apenas como referência explicativa.


Os praticantes devem herdar essa tradição de respeito por esta fórmula sagrada, que não recebeu um significado como uma “ferramenta” para a vida cotidiana, como acontece com as palavras comuns.


E o próprio fato de seu sentido permanecer sempre livremente aberto expressa três ensinamentos fundamentais do Budismo: impermanência, originação dependente e não-eu, isto é, a sabedoria.


Esse próprio estado conduz à sabedoria.


Contudo, se for recebido profundamente do ponto de vista esotérico, esse mantra

final não é apenas uma frase de encerramento. Kōbō Daishi³ Kūkai ensinou que o Sutra do Coração é um sutra que se abre ao grande mantra da Bodhisattva Prajñā⁴.


Em outras palavras, o mantra final é também o centro para o qual todo o sutra se dirigia.


É um louvor à Prajñāpāramitā, isto é, à sabedoria plenamente compreendida, e uma

palavra de profunda fé.


No Budismo, quanto mais profundamente se compreende a palavra “sabedoria”, mais

se percebe seu verdadeiro valor. Por isso, a sabedoria plenamente compreendida é

chamada Prajñāpāramitā e foi venerada como a fonte que dá origem a todos os Budas, isto é, como a Mãe dos Budas.

Essa Mãe dos Budas é a Bodhisattva Prajñā.


Quando se vê tudo como vazio, quando se compreende tudo como “não” e se alcança

a liberdade, é então que pela primeira vez se manifesta a compaixão do Buda, a Bodhisattva Prajñā.


O verdadeiro perdão e a verdadeira empatia pelos outros, nascidos do vazio.

A coragem de não fugir do sofrimento, mas superá-lo por meio da sabedoria.

O milagre deste mundo e sua verdadeira beleza, vistos a partir do mundo livre.

O Sutra do Coração é o som de profunda devoção à Bodhisattva Prajñā.

É um louvor à Mãe da Sabedoria.

É uma oração à grande sabedoria, da qual nasce a verdadeira benevolência, para além dos apegos pessoais.


⑪ Mantras

※O conteúdo poderá ser ajustado conforme a situação.


不動明王 Acala Vidyārāja — Fudō Myōō

Nomaku sanmanda bazaradan senda makaroshada sowataya un tarata kanman

Forma em sânscrito:

“Namaḥ samanta-vajrāṇāṃ hāṃ.”


O sentido devocional deste mantra é: “Tomo refúgio em todos os seres vajra.”

As divindades da família vajra são seres sagrados ligados à força, à disciplina e à remoção de obstáculos.


Fudō Myōō é considerado mensageiro de Mahāvairocana. É representado como uma divindade irada de cor azul-escura ou negra, segurando uma espada na mão direita. Com essa espada, corta os maus desejos, a raiva, o orgulho e a descrença dos seres humanos. Na mão esquerda segura uma corda-laço, com a qual controla e subjuga nossa mente errante, conduzindo-a à verdadeira autocompreensão e ao despertar. As chamas ao redor de Fudō Myōō simbolizam seu voto de queimar e purificar as aflições humanas.


観音菩薩 Avalokiteśvara Bodhisattva — Kannon Bosatsu

On arorikya sowaka

Forma em sânscrito:

“Oṃ ārolik svāhā.”


Sentido devocional: “Óṃ. Ārolik é uma sílaba sagrada ligada à família do lótus e à compaixão de Avalokiteśvara Bodhisattva. Svāhā.”


Kannon Bosatsu, também chamado de Kanzeon Bosatsu. É uma das divindades mais amplamente amadas no Budismo. Na China e no Japão, às vezes assume uma forma feminina ou andrógina, e também é representado como símbolo do amor materno. Um dos sutras mais famosos relacionados a Kannon é o capítulo 25 do Sutra do Lótus, no qual se descreve a atividade compassiva de Kannon em benefício dos seres.


Com profunda compaixão por este mundo cheio de sofrimento, Kannon aparece em incontáveis formas: como Buda, como Bodhisattva, como monge, como rei, como autoridade pública, como mulher, como criança e em muitas outras formas, trabalhando incessantemente pela libertação de todos os seres.


地蔵菩薩 Kṣitigarbha Bodhisattva — Jizō Bosatsu

On ka ka ka bi sanmaei sowaka

Forma em sânscrito:

“Oṃ ha ha ha vismaye svāhā.”


Este mantra é singular. “Ha, ha, ha” pode ser compreendido como expressão de júbilo² espiritual. “Vismaye” aponta para o poder admirável, a majestade e a força compassiva de Jizō. Assim, seu sentido devocional pode ser expresso do seguinte modo:


“Óṃ. Ha, ha, ha — louvo Jizō, dotado de poder compassivo admirável. Svāhā.”


Jizō Bosatsu é considerado mestre e protetor dos seres que sofrem dentro dos seis caminhos do renascimento.


Esses seis caminhos são: infernos, espíritos famintos, animais, seres combativos, humanos e deuses.


A compaixão de Jizō é tão profunda que até mesmo os seres que estão nos infernos, se recitarem seu nome com sinceridade, podem receber sua ajuda compassiva.


薬師如来 Bhaiṣajyaguru Tathāgata — Yakushi Nyorai

On koro koro sendari matōgi sowaka

Forma em sânscrito:

“Oṃ huru huru caṇḍālī mātaṅgī svāhā.”


Este mantra não pode ser traduzido de forma rigorosa. Como muitos mantras esotéricos, deve ser recebido como um som sagrado transmitido pela tradição.


Yakushi Nyorai realizou os Doze Grandes Votos. Entre eles, destaca-se especialmente o voto de curar as doenças e aliviar os sofrimentos daqueles que recitam seu nome com fé.

Por isso, Bhaiṣajyaguru é chamado de “Mestre da Medicina”.


大日如来 Mahāvairocana Tathāgata — Dainichi Nyorai

On abiraunken bazaradato ban

Forma em sânscrito:

“Oṃ a vi ra hūṃ khaṃ vajra dhātu vaṃ.”


Sentido devocional: “Óṃ. A, vi, ra, hūṃ, khaṃ. Vajra-dhātu. Vaṃ.”


Mahāvairocana, isto é, Dainichi Nyorai, é o Buda fundamental do Budismo Esotérico Shingon.


Em muitas formas do Budismo, o Buda histórico Śākyamuni ocupa o centro. Contudo, no Budismo Esotérico Shingon, a verdade última é expressa por Mahāvairocana.


Mahāvairocana não é simplesmente um Buda entre muitos Budas. Ele é o Buda que expressa todo o universo, todo o Dharmadhātu, como corpo, fala e mente do Buda.


Seu nome, Vairocana, significa “aquele que ilumina amplamente” ou “aquele cuja luz se espalha por toda parte”. Por isso, em japonês, ele é chamado Dainichi Nyorai, o “Grande Sol Tathāgata”. Assim como o sol ilumina todas as coisas sem distinção, a sabedoria e a compaixão de Mahāvairocana iluminam todos os seres.


No entanto, Mahāvairocana não deve ser entendido simplesmente como o sol físico. Ele é o símbolo e a realidade do Dharma que ilumina todos os fenômenos.


No Budismo Esotérico, o universo inteiro é compreendido como a manifestação da atividade de Mahāvairocana.


A terra, a água, o fogo, o vento, o espaço e a consciência; o corpo, a fala e a mente; os sons, as formas, os gestos e os pensamentos — tudo isso pode ser compreendido, no nível mais profundo, como expressão do corpo, da fala e da mente de Mahāvairocana.


Por isso, a prática esotérica não é uma fuga do mundo. É descobrir, dentro deste próprio corpo e deste próprio mundo, a atividade do Buda.


南無八大高祖

Namu Hachidai Kōso


Homenagem aos Oito Grandes Patriarcas da tradição Shingon

Mantras dos oito grandes mestres da escola Shingon

Ryūmyō Bosatsu

Ryūchi Bosatsu

Kongōchi Sanzō

Fukū Sanzō

Zenmui Sanzō

Ichigyō Zenji

Keika Kashō

Kōbō Daishi, Kūkai


南無大師遍照金剛 Mantra do Mestre Fundador Kōbō Daishi, Kūkai

Namu Daishi Henjō Kongō


光明真言Mantra da Luz

On abokya beiroshano makabodara mani handoma jimbara harabaritaya un.


南無過去一切精霊

Namu Kako Issai Shōryō

Mantra para todos os espíritos do passado.


南無当山先師尊霊

Namu Tōzan Senji Sonryō

Mantra dedicado aos mestres e sacerdotes que guiaram este templo.


⑫ 回向Dedicação dos méritos

願以此功徳 普及於一切 我等与衆生 皆共成仏道

Gan i shi ku doku / fu gyū o i ssai / ga tō yo shu jō / kai gu jō butsu dō


Significado

Dedicação dos Méritos

Que os méritos desta prática

se estendam a todos os seres.

Que nós e todos os seres,

juntos, realizemos o Caminho do Buda.


O verso de dedicação de méritos não é uma simples “oração de encerramento”. É uma oração muito importante, que mostra para onde se dirige, em última instância, a

prática da via budista. Quando acumulamos méritos, não os encerramos apenas

dentro de nós mesmos; nós os direcionamos a todos os seres. Aí está o espírito da

dedicação de méritos.


Nela está contido um voto sublime. Primeiro, não guardamos como “algo apenas meu”

as boas ações que praticamos. Em seguida, oferecemos esses méritos à família, aos

antepassados, aos amigos, aos que sofrem e a todos os seres cujo nome nem sequer conhecemos.


E, por fim, desejamos que não apenas nós sejamos salvos, mas que todas as vidas caminhem juntas pela via do Buda e despertem juntas.


Esta oração é a própria compaixão budista. Em vez de monopolizar os frutos da própria prática, ela os abre para o mundo inteiro. Nela há um coração vasto, que deseja não apenas a felicidade do “eu”, mas a felicidade de “eu e todos”.


Além disso, esse desejo não é simples fantasia. Cada vez que recitamos sutras, concentramos a mente, oramos e acumulamos boas ações, esta oração serve para cultivar concretamente esse coração.


Por isso, o verso de dedicação de méritos é a própria forma de viver de um budista. Ele nos ensina, de modo silencioso e ao mesmo tempo poderoso, que a via do Buda não é um caminho no qual apenas eu desperto, mas um caminho no qual seguimos para a realização do estado de Buda junto com todas as vidas. Cada palavra que recitamos é, ao mesmo tempo, uma oração pessoal e um grande voto dirigido ao mundo.


⑬ Realização novamente do empoderamento pelas três atividades secretas por meio de mudrā, mantra e meditação no Buda.


⑭ Reverência final

On saraba-tatagyata-hanna-mannano kyaromi.

Igual ao mantra de reverência inicial.

Depois que o monge desce de seu assento, ele recita este mantra três vezes em voz baixa e faz a reverência.


Fim



 
 
 

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