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INTRODUÇÃO AO BUDISMO

Atualizado: há 3 dias

Este texto é uma introdução destinada a estudar gradualmente os ensinamentos fundamentais do Budismo e a compreendê-los em sua totalidade.


Pode-se dizer que todos os ensinamentos budistas se desenvolvem a partir do conteúdo apresentado aqui. Neste texto, procuramos condensar a essência do Budismo em uma linguagem simples. Acreditamos que ele poderá oferecer profundas percepções àqueles que continuarem refletindo seriamente sobre seu significado.


Ao estudar este texto, a compreensão inicial do Budismo por parte dos iniciantes poderá se aprofundar de maneira significativa.


Em termos diretos, o Budismo é a própria jornada pela qual, ao discernir o princípio de existência do ser humano e do mundo, a pessoa se liberta do sofrimento individual e, com essa liberdade, participa deste mundo junto com todos, caminhando em direção a um grande ideal.


Desejamos, portanto, um bom estudo!


Sumário


1. Impermanência

A impermanência é a lei segundo a qual tudo no mundo continua sempre a mudar.


A vida um dia morre, novas vidas nascem, e as relações humanas e a sociedade continuam a se transformar. Nem a felicidade nem a tristeza permanecem para sempre.


No Budismo, impermanência não significa simplesmente que “o mundo muda”. Trata-se de uma compreensão radical de que, neste mundo, nada existe como algo eterno e imutável.


Talvez alguém se pergunte se um ensinamento tão simples pode realmente ter valor.


Contudo, esta é uma verdade extremamente profunda e fundamental sobre o mundo, que serviu de base para filosofias e religiões de todas as épocas e lugares.


2. Originação dependente: vacuidade

Quando se observa a impermanência de modo ainda mais profundo, chega-se à compreensão da originação dependente.


A originação dependente é a lei de causa e efeito.


Ela ensina que nada existe isoladamente; todos os fenômenos se constituem por meio de condições e relações.


Tomemos a raiva como exemplo. Ela não surge subitamente do nada. Cansaço, memória, ambiente, palavras de outra pessoa, orgulho, a situação daquele momento: inúmeras condições se sobrepõem até que a raiva apareça.


O mesmo ocorre com o sentimento de “eu”. O corpo herdado dos ancestrais, as memórias, o nome, os papéis sociais, as relações com os outros, os hábitos: quando esses elementos se combinam, aquilo que chamamos provisoriamente de “eu” se estabelece.


Em outras palavras, tudo no mundo é fluxo, relação e manifestação dentro de uma rede de interdependência.


Essa compreensão da originação dependente também é chamada de vacuidade.


Embora seja uma noção simples, ela é essencial para adquirir toda forma de sabedoria profunda e é também o campo do qual nasce todo Dharma.


3. Não-eu

Quando a originação dependente é examinada até o fim, chega-se em seguida à compreensão do não-eu.


Não-eu significa que, na verdade, não existe uma entidade fixa e imutável chamada “eu”.


Isso não é uma negação direta do tipo “eu não existo”. Pelo contrário, significa que aquilo que chamamos de “eu” é uma função temporária formada pelo entrelaçamento de fluxos como corpo, sentimentos, pensamentos e ações.


O ser humano, ainda que inconscientemente, tem uma forte consciência da existência de um “eu”. Um exemplo negativo típico disso é o egoísta¹.


No entanto, o Budismo percebe que esse eu não é uma vida independente e isolada, mas uma existência sem subjetividade² própria, composta por inúmeras causas e elementos.


Quanto mais essa visão se aprofunda, mais a pessoa se liberta, pouco a pouco, do apego ao eu. Além disso, ela passa a compreender que, em sentido profundo, não se pode lançar toda culpa ou responsabilidade sobre ninguém de modo absoluto.


Por exemplo, de acordo com dados estatísticos sobre o ambiente familiar de criminosos no Japão, muitos deles foram pessoas que, na infância, não receberam amor de seus pais.


Podemos dizer que essas pessoas carregam cem por cento da culpa por seus atos? As ações humanas sempre possuem, para a própria pessoa, alguma motivação que lhe parece racional. Se tivéssemos o mesmo ambiente e estivéssemos na mesma posição dessa pessoa, talvez fizéssemos a mesma coisa. Quando ampliamos radicalmente essa perspectiva, percebemos que não se pode fazer ninguém carregar sozinho toda culpa ou responsabilidade.


A partir daqui nasce o verdadeiro perdão e a verdadeira empatia em relação aos outros. Esta é a semente da compaixão. Assim, o não-eu produz uma visão profunda.


Na verdade, esse “não-eu” tem ainda um outro significado.

Ele aponta para uma questão extremamente profunda e importante: o que é o Buda? E onde o Buda existe? Mas isso será abordado futuramente, em outro texto.


4. Sofrimento

No Budismo, “sofrimento” não significa apenas dor ou tristeza. Em pāli³, usa-se a palavra dukkha, que possui um sentido amplo: “não estar plenamente satisfeito”, “não ocorrer como se deseja”, “ser instável”, “não oferecer segurança completa”.


A impermanência, a originação dependente e o não-eu, apresentados até aqui, são verdades sobre a existência do mundo. O sofrimento nasce porque não conseguimos compreendê-las plenamente.


Esse estado é chamado de ignorância.


Aqui, ignorância significa não apenas desconhecimento da impermanência, da originação dependente e do não-eu, mas também um egocentrismo fundamental⁴.


Dessa ignorância nasce o apego.


E esse apego jamais pode ser plenamente satisfeito, justamente por causa dessas três leis.


Por isso, mesmo que algo seja satisfeito temporariamente, o sofrimento da insatisfação volta a surgir repetidas vezes. É por isso que se diz que o desejo não tem fim.


Portanto, sofrimento não significa que a vida seja apenas miserável. Antes, significa que, mesmo quando o presente parece feliz, tudo é impermanente. Em algum momento, teremos de nos separar disso. Enquanto houver o menor apego, a ansiedade e a melancolia estarão à espera.


Assim nasce o ciclo do sofrimento no saṃsāra.


Esta é a estrutura fundamental do sofrimento que precisamos resolver.


Também há dois tipos de sofrimento:

  • O primeiro é a dor física: chamado de primeira flecha.

  • O segundo é o sofrimento mental: chamado de segunda flecha.


A primeira dor, a dor física, é inevitável enquanto se está vivo. Diz-se que até mesmo Śākyamuni⁵, em sua velhice, experimentou dores decorrentes da doença e do envelhecimento.


O segundo tipo é o sofrimento mental.


O Budismo procura superar completamente esse segundo sofrimento. No entanto, na prática, até mesmo a dor física pode ser compreendida à luz da impermanência, da originação dependente e do não-eu.


Por isso, quanto mais profundamente se compreendem essas três leis, mais a mente deixa de receber a dor física como sofrimento mental.


Há uma famosa anedota⁶ sobre Kaisen Jōki, monge do período dos Estados Guerreiros no Japão⁷. Conta-se que um exército inimigo incendiou seu templo, deixando-o preso no interior.


Naquele momento, ele teria dito:

“A meditação serena não se realiza apenas em lugares tranquilos. Quando se extingue a cabeça, até o fogo se torna fresco.” 

E assim, segundo a tradição, morreu nas chamas. A expressão “extinguir a cabeça” não deve ser entendida como destruição física literal, ela indica um estado em que não há apego aos pensamentos nem ao corpo físico. A anedota procura ilustrar o ideal de uma mente que, livre desses apegos, permanece serena mesmo diante das circunstâncias mais extremas.


Quanto mais se compreendem essas três leis, mais o egocentrismo fundamental desaparece.


Então, sem ser dominado pela dor física, a pessoa vai se libertando do sofrimento mental.


O estado supremo em que isso se realiza completamente é chamado de nirvāṇa.


Este é justamente o estado que Śākyamuni realizou ao despertar.


Não é necessário compreender agora, de imediato, toda essa estrutura do sofrimento.

À medida que a prática e o estudo se aprofundarem, a verdade certamente começará a se revelar.


5. Saṃsāra

No Budismo, a existência humana não é considerada algo que ocorre apenas uma vez. A vida, movida pelo apego que permanece após a morte, repete sem fim o fluxo de nascimento e morte. Esse fluxo de nascer e morrer, morrer e novamente nascer, é chamado de saṃsāra.


Saṃsāra não significa apenas “renascer em algum lugar depois da morte”. Naturalmente, na tradição budista, o saṃsāra foi ensinado como uma doutrina que inclui o renascimento após a morte. Contudo, se o entendermos apenas dessa maneira, será difícil perceber seu significado mais profundo.


Em sentido mais fundamental, saṃsāra é o próprio estado em que a estrutura do sofrimento continua se repetindo por causa da ignorância e do apego.


No Budismo, o mundo do saṃsāra é explicado por meio dos seis destinos ou seis reinos: o reino dos infernos, o reino dos espíritos famintos, o reino animal, o reino dos asuras⁸, o reino humano e o reino dos deuses.


O reino dos infernos é um mundo dominado pela raiva e pelo ódio mais intensos, baseados no egocentrismo.


O reino dos espíritos famintos é um mundo dominado pelos desejos mais fortes e impuros. Ao mesmo tempo, é um mundo de fome em que, por mais que se busque, nunca se fica satisfeito.


O reino animal é um mundo em que se vive sob o domínio do instinto, tendo perdido a sabedoria profunda.


O reino dos asuras é um mundo dominado pela inveja, pelo conflito e pelo espírito de competição.


O reino humano é um mundo cheio de sofrimento, mas também dotado da possibilidade de adquirir sabedoria e caminhar pelo caminho budista. Por isso, o reino humano é considerado o mundo mais propício para a prática.


O reino dos deuses é um mundo cheio de grande prazer e felicidade, mas isso também não dura para sempre. Quando o mérito se esgota, ocorre novamente a queda.


Depois da morte, vamos para o destino adequado segundo as tendências de nossa mente.


Ao mesmo tempo, esses reinos também expressam estados de nossa própria mente.


Quando estamos queimando de raiva intensa, vivemos a mente do inferno. Quando estamos sedentos, querendo sempre mais, desejando reconhecimento sem nunca nos satisfazer, vivemos a mente dos espíritos famintos. Quando deixamos de pensar e apenas seguimos desejos e hábitos, vivemos a mente animal. Quando nos comparamos aos outros, sentimos inveja, insistimos em vencer ou perder e continuamos brigando, vivemos a mente dos asuras. Quando, mesmo sofrendo, refletimos, aprendemos, escolhemos o bem e buscamos o caminho budista, vivemos a mente humana. Quando estamos cheios de felicidade e prazer, mas nos embriagamos com isso e esquecemos a impermanência, vivemos a mente dos deuses.


Assim, os seis reinos não falam apenas de mundos após a morte. Eles também são indicadores para compreender os estados de nossa mente.


E, ao longo de um único dia, nós percorremos esses seis reinos muitas vezes: raiva, desejo, ignorância, inveja, sabedoria, embriaguez pela felicidade. Esse ciclo mental é, em si mesmo, um pequeno saṃsāra.


A prática budista consiste em perceber, dentro desse saṃsāra, em que mundo a mente se encontra agora, e em redirecionar o coração e a conduta para uma direção correta. Por fim, ela conduz à dissolução da ignorância que produz o saṃsāra e ao estado em que o sofrimento cessa: o nirvāṇa.


6. Compaixão — o espírito fundamental do Budismo

O Budismo é um ensinamento que contempla o sofrimento. Mas isso não significa que seja uma doutrina fria e pessimista.


Quando olhamos para o nosso próprio sofrimento, percebemos ao mesmo tempo que todos os seres vivem na impermanência, são atormentados pelo apego e sofrem diante de uma realidade que não se ajusta aos seus desejos. Justamente por isso, surge uma profunda empatia e uma compaixão⁹.


No coração do espírito de Śākyamuni havia uma imensa e ilimitada compaixão.


No antigo texto budista Sutta Nipāta¹⁰, está registrado o seguinte ensinamento do Buddha:

“Assim como uma mãe protegeria com a própria vida seu único filho, do mesmo modo deve-se despertar uma mente de compaixão ilimitado por todos os seres vivos.”

A compaixão também é a base da bodhicitta e do caminho do bodhisattva, que serão apresentados a seguir.


Compreender a impermanência, a originação dependente e o não-eu é, ao mesmo tempo, tomar consciência da solidão eterna própria da condição humana.


Quando esse eu solitário sente empatia por outros seres igualmente solitários, nasce a verdadeira compaixão, um amor genuíno sem apego.


Quanto mais se aprofunda e se expande o desejo pela felicidade dos outros, maior se torna a compaixão.


Quando ele se aprofunda ainda mais, desenvolve-se como bodhicitta:

“Para salvar todos os seres, caminharei pelo caminho do bodhisattva.”

A compaixão é o verdadeiro valor concedido ao ser humano em meio a este mundo de sofrimento, e é o caminho que conduz ao Buddha, o mais sublime dos ideais.


7. Bodhicitta

Bodhicitta significa a mente que aspira ao despertar — isto é, ao nirvāṇa. Contudo, se essa aspiração for buscada apenas para a própria felicidade individual, isso ainda não é bodhicitta.


A mente de quem estuda e pratica o Budismo com o desejo de purificar o próprio coração para poder beneficiar alguém, ou de ajudar aqueles que estão perdidos e caminhar junto com eles rumo ao nirvāṇa, ou ainda de elevar o próprio espírito para tornar-se capaz de orientar os que sofrem — essa mente é a própria bodhicitta.


Além disso, mesmo pessoas que não têm qualquer ligação direta com o Budismo, se praticam ações de amor-bondade com sentimento puro e sincero, se atuam socialmente em benefício dos outros, se continuam a praticar um amor que existe para oferecer e conseguem colocar essas ações acima de si mesmas, também possuem bodhicitta.


A pessoa que desperta essa bodhicitta é chamada de bodhisattva.


Quando essa bodhicitta surge, começa a ocorrer uma transformação qualitativa¹¹ neste mundo do saṃsāra. A explicação concreta disso será omitida aqui. A seguir, apresentamos conteúdos de escrituras e tratados que ensinam os frutos e méritos de despertar a bodhicitta. Mesmo que o significado não fique completamente claro de imediato, procure sentir ao menos a nuance dessas palavras.


No Avataṃsaka Sūtra¹², ensina-se que o momento em que se desperta pela primeira vez a bodhicitta é o ponto de partida do caminho do bodhisattva e possui grande mérito, pois conduz à realização do estado de Buddha.


No Daśabhūmika Sūtra¹³, ensina-se que o bodhisattva que despertou a bodhicitta avança pelos dez estágios, completando a sabedoria e a compaixão. A bodhicitta é o voto fundamental que faz do bodhisattva um bodhisattva e sustenta sua longa prática.


No Sūtra do Rei Soberano da Luz Dourada¹⁴, ensina-se que a bodhicitta é a causa fundamental que dá origem às pāramitās¹⁵, como a generosidade, a observância dos preceitos, a paciência, o esforço vigoroso, a meditação e a sabedoria. É justamente porque existe bodhicitta que as várias boas ações e práticas deixam de ser mera moralidade e se tornam práticas que beneficiam os seres sencientes¹⁶ e conduzem à realização do estado de Buddha.


No Sūtra da Contemplação do Buddha Amitāyus¹⁷, ensina-se que a bodhicitta é uma importante raiz de mérito para dirigir-se à Terra Pura¹⁸ e uma causa correta para avançar no caminho budista.


No Bodhicaryāvatāra¹⁹, ensina-se que despertar a bodhicitta é algo supremamente precioso, e que mesmo uma pessoa comum, ao despertar a bodhicitta, obtém mérito tão grande que passa a ser chamada de filha ou filho dos Buddhas.


Em suma, a bodhicitta não é simples bondade. Ela é o voto fundamental de buscar o despertar para si mesmo a fim de salvar todos os seres e completar a sabedoria e a compaixão. Nas escrituras e tratados, a bodhicitta é ensinada como a força mais importante: ela gera todas as práticas do caminho budista, sustenta o caminho do bodhisattva e conduz à realização do estado de Buddha, isto é, ao nirvāṇa.


8. O caminho do bodhisattva

Aquele que desperta a bodhicitta começa a caminhar pelo caminho do bodhisattva.

O caminho do bodhisattva é o caminho pelo qual se avança rumo ao nirvāṇa junto com todos os seres.


E caminhar por esse caminho é, em si mesmo, uma prática de valor ainda maior do que simplesmente alcançar o nirvāṇa. É um caminho de coragem no qual o destino e a vida únicos de cada pessoa são plenamente vivificados.


9. Libertação e nirvāṇa

Libertação significa compreender plenamente a impermanência, a originação dependente e o não-eu, tornando-se completamente livre dos vínculos do apego.


Por outro lado, nirvāṇa é o estado de serenidade em que essa liberdade se realiza por completo. Em outras palavras, libertação e nirvāṇa apontam para a mesma realidade, mas a partir de perspectivas diferentes.


O nirvāṇa é transmitido como a paz suprema na qual o sofrimento e o apego se aquietaram desde a raiz.


O nirvāṇa é um estado equivalente ao estado do Buddha.


Por isso ele é o ideal eterno dos budistas.


No entanto, não há nas escrituras budistas uma descrição concreta e objetiva do nirvāṇa.


Ele é apenas expresso como a meta suprema, a serenidade eterna.


E isso é natural. O nirvāṇa não é uma meta comum que todos buscam da mesma maneira.


Ele é o símbolo do ideal eterno próprio de cada pessoa.


Não apenas para os budistas, mas para todos os seres humanos, possuir um anseio eterno que não esteja preso ao corpo deste mundo é uma das coisas mais importantes da vida.


Esse é o romantismo sublime que grandes figuras históricas e religiosas tiveram em comum.


10. Budismo Esotérico

O Budismo Esotérico é a forma final do Budismo, amadurecida através de parte da história da Índia, marcada por confusão trágica, morte e desejo.


No Budismo Esotérico, não há espaço para discursos idealizados. Ele é o Budismo que acolhe os desejos mais fundamentais do ser humano, a raiva infernal e as lágrimas do desespero.


A característica essencial do Budismo Esotérico está em não simplesmente negar e abandonar os apegos humanos, mas em sublimá-los como combustível da bodhicitta.


No Budismo, os apegos que causam sofrimento são divididos em três. São os três venenos.

Os três venenos são:

rāga — desejo;

dveṣa — raiva;

moha — egocentrismo.


E o Budismo Esotérico procura transformá-los. Quando se está dominado por essas emoções, os ensinamentos belos do Budismo deixam de entrar pelos ouvidos.


É extremamente difícil conter os três venenos quando eles se erguem como a correnteza violenta de um grande rio. Por isso, no Budismo Esotérico, não se tenta simplesmente bloqueá-los. Muda-se sua direção. Até uma correnteza impetuosa, quando passa por uma barragem, pode tornar-se uma imensa energia que sustenta a vida humana e a sociedade.


Aquilo que pode mudar o curso dos três venenos é apenas a própria mente.


As ações e as palavras humanas são todas conduzidas pela mente.


No Budismo Esotérico, a estrutura dessa mente é transformada por meio da meditação²⁰, e a energia dos três venenos é convertida em imenso combustível para a bodhicitta.


Algumas dessas meditações são permitidas apenas aos monges, mas, em seu fundamento, há também práticas que qualquer pessoa pode realizar.


A meditação permitida aos monges é chamada de empoderamento pelas três atividades secretas, enquanto a prática acessível a todos pode ser chamada de prática dos três mistérios.


Isso será explicado em detalhes futuramente em próximos textos, por favor aguarde.


Portanto, o Budismo Esotérico é o caminho mais secreto e mais poderoso: ele acolhe todos os desejos, impurezas e culpas da existência humana e os transforma em caminho budista.


11. Conclusão — a jornada infinita do caminho budista

Estes ensinamentos fundamentais são, antes de tudo, como um mapa para que vocês possam compreender inicialmente o Budismo em sua totalidade.


Mas apenas olhar para o mapa jamais trará a emoção da viagem. O tesouro do Buddha também jamais será encontrado apenas olhando para o mapa.


Com base neste mapa, ao estudar, praticar e explorar, vocês encontrarão muitas descobertas, surpresas e emoções profundas. Nesse momento, compreenderão o verdadeiro significado do Budismo.


E nós buscamos o nirvāṇa.


Nele está a paz suprema indicada pelo Budismo. Nele estão os verdadeiros desejos²¹ e esperanças que o ser humano muitas vezes abandona ou perde de vista ao longo da vida. Justamente porque existe esse anseio e esse ideal eternos, não somos engolidos pelo sofrimento e podemos viver o caminho do bodhisattva.


Por isso, se houver alguém perdido, ajudemos. Se houver alguém sofrendo, estendamos a mão, seja quem for. Aos olhos do Buddha, não há neste mundo uma única pessoa má em sua essência. Todos os seres são companheiros que buscam, de maneira desesperada, apenas uma coisa: serem felizes.


Esta jornada infinita pelo saṃsāra é a própria solidão e, ao mesmo tempo, está cheia de sofrimento. Contudo, quanto mais dificuldades atravessamos, mais surgem nela grandes dramas e profundas emoções.


Embora cada um caminhe por si mesmo, vamos, todos juntos, desfrutar desta jornada solitária e infinita.


Para concluir, apresento a “declaração de propagação do Dharma” que Śākyamuni transmitiu aos sessenta discípulos depois de alcançar o despertar:

“Ó monges, parti em viagem. Ide para o benefício de muitos, para a felicidade de muitos, por compaixão pelo mundo, para o bem, o benefício e a felicidade de deuses e seres humanos. Não sigais dois pelo mesmo caminho. Ó monges, ensinai o Dhamma, que é bom no início, bom no meio e bom no fim, dotado de sentido e de expressão. Revelai a vida santa, plenamente perfeita e completamente pura.”

— Livro da Disciplina (Vinaya Piṭaka), Mahāvagga 1.11


Notas explicativas


  1. Egoísta — Pessoa excessivamente centrada em si mesma, que tende a priorizar seus próprios interesses e desejos sem considerar adequadamente os outros.


  2. Subjetividade — Sentido de individualidade ou de um “eu” independente que existe por si mesmo e atua como centro autônomo da experiência.


  3. Pāli — Língua indo-ariana antiga na qual foram preservados muitos dos ensinamentos mais antigos do Buda Śākyamuni, reunidos no Cânone Pāli.


  4. Egocentrismo fundamental — Tendência profundamente enraizada de perceber a si mesmo como uma existência independente e central, separada dos outros e do mundo.


  5. Śākyamuni — nome dado ao príncipe Siddhartha Gautama após alcançar a iluminação. “Sakyamuni” significa “o sábio do clã Sakya”. É considerado o fundador do Budismo e aquele que revelou os ensinamentos sobre o sofrimento, a realidade e o caminho para o despertar espiritual.


  6. Anedota — Relato breve transmitido pela tradição, utilizado para ilustrar um ensinamento, uma virtude ou um aspecto da vida de uma pessoa.


  7. Período dos Estados Guerreiros (Sengoku) — Período da história do Japão, aproximadamente entre os séculos XV e XVI, marcado por guerras civis e disputas constantes entre senhores feudais pelo controle do país.


  8. Asuras — Seres da cosmologia budista associados à inveja, à rivalidade e ao desejo de poder. Simbolizam também um estado mental marcado pela competição e pelo conflito constante.


  9. Compaixão — é o espírito fundamental do budismo que responde profundamente ao sofrimento dos outros e busca removê-lo. Não se trata de mera simpatia emocional, mas de uma profunda compreensão da dor alheia acompanhada de uma forte vontade de conduzir esse ser à libertação. Muitas vezes é comparada ao amor de uma mãe por seu único filho. A compaixão é tão valorizada no budismo porque não é apenas uma virtude moral, mas um modo de viver inseparavelmente unido à sabedoria. Quando se percebe que o “eu” e os outros não estão realmente separados, o sofrimento do outro deixa de ser “algo que acontece do outro lado”. A compaixão nasce dessa percepção. E ela não é sentimentalismo, mas uma força que atua sobre a realidade. No budismo, a compaixão é uma profunda participação na vida, algo que não pode ser alcançado apenas observando o mundo friamente. Sem ela, não há progresso verdadeiro na prática espiritual.


  10. Sutta Nipāta — Antiga coletânea de discursos em pāli, considerada uma das partes mais antigas da literatura budista, preservando ensinamentos atribuídos ao Buddha Śākyamuni.


  11. Qualitativa — Referente à qualidade ou à natureza de algo. Diz-se que uma mudança é qualitativa quando altera a maneira como algo é, e não apenas sua quantidade.


  12. Avataṃsaka Sūtra — Uma das mais importantes escrituras do Budismo Mahāyāna, conhecida por expor a interdependência de todos os fenômenos e o ideal do caminho do bodhisattva.


  13. Daśabhūmika Sūtra — Texto do Budismo Mahāyāna que apresenta os dez estágios de desenvolvimento espiritual do bodhisattva, mostrando como a sabedoria e a compaixão são gradualmente aperfeiçoadas até a realização do estado de Buddha.


  14. Sūtra do Rei Soberano da Luz Dourada — Importante escritura do Budismo Mahāyāna que enfatiza a proteção do Dharma, o cultivo das virtudes e os benefícios gerados pela prática budista para os indivíduos e para a sociedade.


  15. Pāramitās — Virtudes ou perfeições cultivadas no caminho do bodhisattva para beneficiar os seres e alcançar a iluminação.


  16. Seres sencientes — Seres dotados de consciência e capacidade de sentir, perceber e experimentar sofrimento e felicidade.


  17. Sūtra da Contemplação do Buddha Amitāyus — Importante escritura da tradição da Terra Pura que descreve métodos de contemplação do Buddha Amitāyus, o Buddha da Vida Infinita, e ensina as causas e condições para o renascimento na Terra Pura. Buddha Amitāyus (O Buddha da Vida Infinita), identificado em muitas tradições como Amitābha, o Buddha da Luz Infinita. É reverenciado como senhor da Terra Pura de Sukhāvatī e símbolo da compaixão que conduz os seres ao despertar.


  18. Terra Pura — Reino puro estabelecido pelo poder e pelos votos de um Buddha, livre de muitos dos obstáculos presentes no saṃsāra e especialmente favorável à prática do Dharma e à realização da iluminação.


  19. Bodhicaryāvatāra — Importante tratado do Budismo Mahāyāna escrito por Śāntideva, dedicado ao cultivo da bodhicitta e à prática do caminho do bodhisattva. Śāntideva foi um monge, filósofo e poeta budista indiano do século VIII, associado à tradição Mahāyāna e ao grande centro monástico de Nālanda.


  20. Meditação — Prática de cultivo e transformação da mente por meio da contemplação, da concentração e de métodos espirituais específicos, utilizada para desenvolver sabedoria, compaixão e realização espiritual.


  21. Verdadeiros desejos — Aspirações mais profundas e duradouras da existência humana, que vão além da busca imediata por prazer, posse ou satisfação pessoal.



 
 
 

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