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OHIGAN

16 de set.
10 min de leitura

No budismo japonês, o Ohigan é celebrado duas vezes por ano, nas épocas em que o dia e a noite têm durações quase iguais.


São sete dias: o equinócio de primavera ou de outono como dia central, os três dias anteriores e os três posteriores. É um período para recordar os antepassados e aqueles que já partiram, ouvir os ensinamentos do Buda e voltar a nos perguntar como viver a nossa vida.


Mas o Ohigan não é apenas um tempo para recordar o passado com saudade e acalmar um pouco o coração. É também uma ocasião para retornar a perguntas fundamentais: o que nos sustentou e tornou possível a nossa vida até aqui? E em que direção queremos conduzir esta vida que recebemos?


“Higan” significa “a outra margem”.


No budismo, a condição em que estamos presos às aflições da mente e às ilusões é comparada a “esta margem”, enquanto o despertar, no qual nos libertamos dessas amarras, é comparado à “outra margem”. Portanto, Higan não significa simplesmente “o lugar para onde vão aqueles que morreram”. É uma palavra que diz respeito ao que buscamos e à maneira como vivemos.


Muitas vezes, acabamos julgando tudo na vida por critérios como “Eu ganho ou perco com isso?” ou “Isso é agradável ou desagradável para mim?”.


No entanto, há maneiras de viver que não podem ser explicadas apenas por esses critérios. Podemos amar alguém sem nenhuma garantia de recompensa, preservar a integridade mesmo quando isso não nos traz vantagens e continuar caminhando em direção ao que é nobre, mesmo sabendo que, tal como somos agora, ainda não conseguimos alcançá-lo.


Se aproximarmos da nossa própria vida a ideia de caminhar rumo à outra margem, poderemos compreendê-la como uma mudança na orientação da nossa existência: passar de uma vida centrada apenas nas próprias conveniências para uma vida guiada por uma aspiração que nos ultrapassa.


Bodhicitta — A que dedicar esta vida? Na base desse caminho está aquilo que o budismo chama de “bodhicitta”. No budismo Mahayana, bodhicitta é a aspiração a alcançar o despertar de um Buda e, por meio desse despertar, libertar do sofrimento todas as pessoas e todos os seres vivos. Não é o desejo de encontrar paz apenas para si, mas uma determinação profunda de viver sem separar o próprio despertar da libertação dos outros.


O Sutra de Mahāvairocana, de grande importância para o budismo Shingon, ensina: “A bodhicitta é a causa, a grande compaixão é a raiz e os meios hábeis são a realização última”.


Despertar a aspiração à iluminação, enraizar-se na grande compaixão e fazer com que essa aspiração frutifique em ações concretas em benefício das pessoas: nesse ensinamento, o anseio pelo sublime e as ações que ajudam os outros no mundo real estão unidos.


A bodhicitta não se reduz a um impulso de aperfeiçoamento pessoal, como “Quero ser uma pessoa melhor do que sou hoje”. É uma disposição interior que pergunta, mais do que “O que vou conquistar?”, “A que vou dedicar a minha vida?”. É a aspiração a algo maior, que não cabe nos limites dos nossos desejos e da preocupação em nos proteger. É um anseio que nasce das profundezas da vida, como se a alma fosse despertada.


O acesso a esse ensinamento não se limita aos budistas. No cristianismo, por exemplo, há a esperança de quem deposita sua confiança em Deus e vive no amor, aguardando o “Reino dos Céus”. Sob a perspectiva de orientar a vida para algo que ultrapassa os próprios interesses e os pequenos desejos pessoais, budistas e cristãos percorrem o mesmo caminho. Esse ponto de partida também não precisa ser um trabalho ou uma missão que pareça grandiosa aos olhos do mundo.


Para um pai ou uma mãe, pode ser dedicar amor e assumir a responsabilidade de ajudar cada pessoa da família a viver com felicidade, sendo quem é. Para quem encontra sentido no trabalho, pode ser não o reduzir a um meio de obter renda ou reconhecimento, mas colocar suas habilidades e sua integridade a serviço da vida das pessoas. O cuidado com os doentes, a educação, o trabalho de criar e produzir, os estudos, as artes: cada pessoa vive em determinadas circunstâncias, encontra pessoas ao longo do caminho e tem responsabilidades que lhe cabe assumir.


Tanto o amor pela família quanto a dedicação ao trabalho podem abrir um caminho para a bodhicitta quando deixam de servir apenas ao nosso desejo de possuir ou ao nosso sucesso pessoal e se aprofundam na direção de favorecer a vida dos outros. Começamos por cuidar de alguém próximo e, a partir daí, abrimos esse mesmo coração também àqueles que não pertencem ao nosso círculo familiar.


“Dedicar a vida”, aqui, não significa nos tratar com descuido nem trabalhar até destruir a saúde. O corpo e a mente são partes preciosas desta vida, por meio da qual podemos realizar essa aspiração. Trata-se de cuidar da própria vida sem encerrá-la exclusivamente em nós mesmos.


Em meio ao sofrimento e às frustrações, haverá dias em que perderemos de vista essa aspiração. Mas esse caminho não está reservado apenas àqueles que conseguem manter uma vontade sempre firme. Mesmo carregando nossas fragilidades, podemos voltar a reconhecer: “Apesar de tudo, há algo que continuo querendo preservar e amar”. O Ohigan é um tempo para acolher novamente essa aspiração dentro de nós.


Gratidão aos antepassados

De onde, então, essa aspiração recebe sua força? No Ohigan, um de seus apoios mais profundos é a gratidão aos antepassados e às pessoas que tornaram possível a nossa vida.


Não viemos ao mundo por nós mesmos, nem chegamos até aqui apenas pela nossa própria força. Antes de nós vieram nossos pais, os pais deles e muitas outras pessoas cujos nomes e rostos nem sequer conhecemos. Ao longo dessa caminhada, alguém trabalhou, preparou alimentos, criou filhos, enfrentou dificuldades e transmitiu a vida à geração seguinte.


Na nossa vida de hoje também estão presentes esforços e afetos que nunca chegamos a testemunhar. Isso não significa, é claro, que toda a história dos nossos antepassados ou da nossa família tenha sido bela. Nela também houve erros e tristezas, e algumas pessoas talvez não consigam expressar gratidão com facilidade. Não é necessário embelezar o passado à força.


Ainda assim, podemos reconhecer que a nossa vida não se encerra em nós mesmos. Essa ligação não se restringe aos laços de sangue: dela também fazem parte aqueles que nos criaram, nos apoiaram e nos ajudaram a encontrar um caminho.


Quando juntamos as mãos diante dos nossos antepassados, rezamos pela paz daqueles que partiram e contemplamos aquilo que recebemos deles.


Aos poucos, a gratidão se transforma em uma pergunta voltada para o futuro: “Tendo recebido tanto, o que vou transmitir adiante? Como vou fazer frutificar esta vida?”.


Nas profundezas dessa gratidão, haverá quem reverencie a compaixão do Buda. Quem crê em Deus talvez reconheça nela a graça divina. Respeitando as diferenças entre as nossas crenças, podemos inclinar a cabeça diante da profundidade da vida, da qual não somos senhores absolutos.


Recordar os antepassados não é apenas olhar para o passado. É não deixar que a vida recebida termine em nós, mas abri-la para algo melhor. Nesse momento, a gratidão deixa de ser algo que nos prende ao que passou e se torna uma força que nos faz seguir adiante.



As seis pāramitās

Para aprofundar essa aspiração como uma maneira de viver no dia a dia, o budismo ensina as “seis pāramitās”, ou seis perfeições: generosidade, disciplina ética, paciência, perseverança, concentração meditativa e sabedoria.


São as seis práticas do bodhisattva que busca o despertar. Elas se relacionam umas com as outras e são orientadas pela sabedoria de prajñā. Não constituem uma simples lista de verificação, como se bastasse cumprir separadamente seis itens para completar o caminho.


O importante não é apenas nos avaliar, perguntando “Até que ponto consegui praticar bem essas seis coisas?”, mas retornar à aspiração que está na raiz de todas elas: “Para que estou praticando?”.


Ao mesmo tempo, não podemos nos contentar em guardar essa aspiração no coração; precisamos colocá-la à prova nas nossas ações. A aspiração dá origem à prática, e a prática aprofunda a aspiração. Nesse movimento de uma à outra, as seis pāramitās se tornam um caminho vivo.


Generosidade — De “O que posso obter?” a “O que posso oferecer?”. A generosidade consiste em não reter nosso tempo, nossas forças, nossos conhecimentos e nossos bens apenas para nós mesmos, mas colocá-los à disposição dos outros.


Ouvir alguém com atenção ou tornar úteis as habilidades que adquirimos também são oportunidades para praticá-la. Porém, se agimos apenas para receber agradecimentos ou ser considerados pessoas admiráveis, continuamos sendo o centro da nossa ação. Não se trata de colocar o outro em dívida conosco, mas de oferecer de maneira que ele possa viver com liberdade. Na generosidade, o que está em questão não é apenas a quantidade do que damos, mas a maneira como nos colocamos ao dar.


Disciplina ética — Não trair, com as próprias ações, a aspiração que nos é preciosa. Ter um ideal elevado não nos autoriza a negligenciar a maneira como vivemos no dia a dia.


Podemos compreender a disciplina ética como a prática de cuidar das ações do corpo, da fala e da mente, para que nossa aspiração não se afaste da nossa conduta cotidiana. Ser íntegros mesmo quando ninguém está olhando. Não nos aproveitar das pessoas, mesmo quando corremos o risco de sair perdendo.


Dizemos que amamos nossa família, mas não estaremos tentando controlá-la segundo nossas conveniências? Dizemos que trabalhamos pelos outros, mas não estaremos ferindo pessoas em nome do nosso prestígio? A disciplina ética exige o rigor de dirigir essas perguntas também a nós mesmos, que falamos de ideais.


Paciência — Não abandonar a aspiração, mesmo quando a realidade não corresponde à nossa vontade. Quando amamos algo de verdade e nos dispomos a servir, também encontramos incompreensão e esforços que não dão frutos.


A paciência é a prática de não entregar à raiva e ao ódio o comando da nossa maneira de viver. É olhar de frente para o pensamento “Dediquei tanto que deveria ser recompensado” e permanecer fiel ao que nos é precioso, mesmo quando os resultados não aparecem imediatamente.


Isso, porém, não significa aceitar em silêncio a violência injusta ou os abusos. Podemos oferecer a resistência necessária e manter a distância de que precisamos, sem fazer do ódio a única razão para viver. É essa força que procuramos cultivar.


Perseverança — Não deixar que a aspiração se reduza a uma emoção passageira. Mesmo que haja momentos em que algo grandioso nos toque profundamente, esse sentimento, por si só, não é suficiente para sustentar uma vida inteira. Nos dias monótonos, nos dias de fracasso e nos períodos em que ninguém reconhece nossos esforços, ainda assim precisamos retornar àquilo que nos cabe fazer.


Não devemos confundir perseverança com estar sempre ocupados ou produzir mais resultados do que os outros. Cultivar diariamente o hábito de nos recolhermos a sós para recordar e contemplar o Buda ou Deus, os santos e os grandes monges, as pessoas que respeitamos, as grandes figuras da humanidade e, acima de tudo, nossos antepassados e as pessoas que nos são preciosas: nisso está a essência da oração.


Trata-se de verificar em que direção estamos empregando nossas forças e continuar caminhando em uma direção benéfica. Quando necessário, descansar, aprender de novo e corrigir os próprios erros. Assim, tornamos essa aspiração algo que podemos continuar vivendo ao longo do tempo.


Concentração meditativa — Firmar profundamente a mente para não perder de vista a aspiração. Nossa mente é constantemente atraída pelos acontecimentos imediatos e pelas avaliações dos outros. A concentração meditativa é a prática de acalmar essa mente dispersa e contemplá-la em profundidade.


No cotidiano, reservar tempo para a oração ou a meditação, observar como somos movidos pelos desejos e pelos medos e trazer a mente de volta ao aqui e agora podem sustentar essa prática.


Aquietar-se não é fugir da realidade. É não reagir apenas a partir da própria ansiedade, seja diante do sofrimento de alguém, seja no momento de tomar uma decisão importante.


Enraizados na nossa aspiração, podemos nos dedicar de todo o coração à pessoa ou à tarefa que está diante de nós.


Sabedoria — Iluminar até mesmo o apego à própria certeza de estar certo. Prajñā não é a quantidade de conhecimentos que acumulamos nem a habilidade de resolver as coisas com facilidade. É a sabedoria que enxerga a verdade das coisas.


No budismo Mahayana, seu núcleo é a compreensão da “vacuidade”: perceber que nem nós, nem os outros, nem qualquer coisa existe de maneira fixa e independente das relações com tudo o mais.


À luz dessa sabedoria, também são colocados em questão pensamentos como “Sou eu quem está salvando os outros” ou “Somente eu tenho o ideal correto”. Será que nossa boa intenção se tornou uma imposição que não escuta a voz do outro? Será que a dedicação a um ideal se transformou, sem percebermos, em apego a nós mesmos? Podemos manter uma aspiração preciosa sem tornar absoluta a nossa própria compreensão dela.


A sabedoria não esfria a aspiração, mas a torna mais profunda, mais ampla e mais compassiva. Não devemos jamais fixar de modo definitivo aquilo que é certo. No instante em que definimos e cristalizamos o que é certo — isto é, a resposta —, surge em nosso mundo algo chamado “mal”: aquilo que não se enquadra nessa definição do certo. É por isso que precisamos continuar a questionar e a caminhar em meio a uma interrogação sem fim.


É justamente nessa atitude que se encontram a verdadeira resposta, a compreensão da vacuidade e a verdadeira alegria de uma alma que pulsa de vida. Assim, as seis pāramitās não são adornos para construir uma personalidade de boa aparência. São práticas que voltamos a interrogar e aprofundar quando aspiramos a algo que nos ultrapassa e procuramos viver essa aspiração na realidade da nossa existência.


Caminhar em direção ao que é elevado não significa subir a um lugar de onde possamos olhar os outros de cima, mas tornar-nos capazes de viver com eles de maneira cada vez mais profunda. Essa é a prática fundamental de quem segue o budismo e o modo de viver com sabedoria indicado por Sócrates e por outros grandes filósofos.


Que o Ohigan seja um tempo de gratidão e compromisso

Desejamos que a celebração do Ohigan no nosso templo seja uma oportunidade não apenas de recordar aqueles que partiram, mas também de nós, que estamos vivos, voltarmos a reconhecer a aspiração que orienta a nossa vida.


Oferecemos flores diante do Buda, acendemos o incenso e juntamos as mãos. Nesse momento, procure perguntar no silêncio do coração: “O que me sustentou e me permitiu viver até aqui? O que realmente quero preservar e cuidar neste momento? E, para isso, o que posso oferecer hoje?”.


A resposta não precisa ser algo de que possamos nos orgulhar diante dos outros. Mas que seja algo a que possamos dedicar a vida com inteira sinceridade. Sem perder de vista uma aspiração ampla e distante, permitimos que ela esteja presente no cuidado com a pessoa à nossa frente e na responsabilidade que nos cabe hoje.


É nessa interrogação solitária que se encontra a fé autêntica. A essência da fé no Buda não está nas missas budistas de que todos participam. Ela está nessa relação face a face com o próprio eu interior, em sua solidão. Essa é a condição para nos ligarmos verdadeiramente ao Buda, e podemos dizer que corresponde àquilo que, no cristianismo, se chama de “porta estreita” para chegar ao Reino dos Céus.


Que este Ohigan, junto com as orações por aqueles que partiram, seja uma oportunidade de despertar a grande aspiração que existe dentro de nós. E que possamos viver esta vida recebida dos que vieram antes sem encerrá-la apenas em nós mesmos, fazendo dela uma força que sustente outras vidas e seja transmitida ao futuro.


Gratidão



 
 
 

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