OS DOIS SABERES NO BUDISMO
- kongojisuzano

- há 22 horas
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Neste texto, explicaremos os dois tipos de saber que constituem a base de todo estudo e de toda prática no Budismo.
Primeiro capítulo
“Sabedoria discriminativa” e “sabedoria não discriminativa”
Ao nos relacionarmos com o Budismo e com o Budismo Esotérico, há sempre dois tipos de saber que se tornam fundamentais.
São eles: a sabedoria discriminativa e a sabedoria não discriminativa.
A sabedoria discriminativa é o saber que todos nós usamos normalmente quando pensamos, compreendemos, calculamos e distinguimos as coisas.
Por outro lado, a sabedoria não discriminativa é um saber experiencial.
Na filosofia, esses dois saberes podem ser chamados de intelecto e intuição.
O filósofo que propôs de modo decisivo essa filosofia foi o grande pensador francês Henri Bergson¹.
A filosofia bergsoniana do intelecto e da intuição corresponde de maneira admirável à distinção budista entre sabedoria discriminativa e sabedoria não discriminativa.
Originalmente, a compreensão da sabedoria discriminativa e da sabedoria não discriminativa é aprofundada pelo praticante por meio do mestre, do mosteiro e da prática concreta. Contudo, neste texto, para aqueles que não podem ingressar nesse tipo de ambiente, tentarei guiar todos para que possam adquirir por si mesmos os dois saberes do Budismo através da lógica da filosofia ocidental.
A filosofia de Bergson
Antes de tudo, explicarei de modo direto a filosofia de Bergson.
Se tivéssemos de resumir a filosofia bergsoniana em uma única frase, poderíamos dizer:
A verdadeira realidade não pode ser vista se a pensarmos como um “acontecimento parado”; ela só se revela quando a sentimos como um “fluxo que dura”.
Isso foi profundamente revolucionário.
Na época em que Bergson viveu, entre o século XIX e o início do século XX, a ciência se desenvolvia rapidamente, e tornou-se muito forte a tendência de compreender o mundo por meio da análise, da decomposição e da quantificação. Essa tendência ainda permanece até hoje. No entanto, esse modo de pensar acaba apagando a emoção real da existência humana.
Por exemplo, ao lermos uma receita culinária, podemos compreender os ingredientes, os procedimentos e até imaginar o prato final. Mas ali não há o sabor nem a alegria de comer.
Da mesma forma, por mais que expliquemos o conceito de amor, jamais conseguiremos reproduzir plenamente a felicidade e a tristeza reais ligadas ao amor.
No cotidiano, usamos a inteligência para viver, trabalhar e pensar. Isso, em si mesmo, é extremamente importante. Contudo, no mundo moderno, essa faculdade foi tão valorizada que acabou tornando o mundo algo muito frio.
Na essência dos fenômenos e na fonte da emoção viva existe um fluxo que continua mudando neste exato instante. E esse fluxo jamais pode ser apreendido apenas pela inteligência.
Bergson valorizou precisamente essa experiência vivida.
“Duração” — durée
O conceito que expressa isso é a duração — durée.
Pense, por exemplo, em uma música de que você gosta.
A melodia de uma canção não é uma simples soma de notas musicais. Se fosse apenas uma soma, bastaria alinhar uma nota após a outra para que a mesma experiência musical surgisse. Mas, na realidade, não é isso que acontece. Uma nota anterior continua viva como ressonância dentro da nota seguinte.
Por exemplo, mesmo no fluxo dó → mi → sol, quando ouvimos o “mi”, não perdemos completamente o “dó”. O “dó” permanece como impressão na consciência.
E quando ouvimos o “sol”, dó, mi e sol não são experimentados como três pontos separados, mas como um único fluxo. Portanto, a melodia não é uma coleção de sons, mas um fluxo melódico no qual os sons se interpenetram.
O que Bergson considera essencial aqui é o fato de que o momento anterior penetra no momento seguinte. Isso é extremamente importante. A inteligência comum só consegue analisar o tempo em fluxo quando o interrompe e o divide em momentos determinados. Ela trata os fenômenos como se fossem imagens fixas.
Mas, na experiência real, o tempo não para. Ele é vivido como um fluxo, como um movimento contínuo. Mais ainda: nós entramos nesse movimento e vivemos dentro da realidade em transformação, como protagonistas.
Nesse fluxo, acontecimentos passados, impressões e lembranças se dissolvem no presente, misturam-se a ele e continuam sendo lançados em direção ao futuro. Além disso, outras pessoas e diversos acontecimentos se interpenetram de maneira extremamente complexa, formando aquilo que experimentamos como vida.
Esse fluxo temporal indivisível, qualitativo e criativo, semelhante à própria vida, é aquilo que Bergson chama de duração.
Por outro lado, a sociedade moderna é dominada por grandes empresas e capitalistas que, por meio da inteligência, quantificam, analisam, eliminam o desperdício e aumentam o lucro. Em um mundo assim, a duração é menosprezada.
Contudo, Bergson mostrou que o amor, a arte, a religião e a vida perdem sua essência quando não são compreendidos como duração.
E, como método para compreender essa duração, ele deu grande importância à intuição.
Aqui, intuição não significa “entender vagamente por sensação”.
“Intuição” — intuition
A intuição é uma forma de conhecimento que entra no interior do objeto e tenta apreender, por dentro, o seu modo de gerar-se.
Suponhamos, por exemplo, que encontremos um cão de rua. Podemos perceber a cor de seus pelos, seu tamanho, seu modo de andar, sua expressão, seu estado de alerta.
Contudo, nesse caso, ainda estamos vendo o cão como uma coleção de características exteriores.
Mas quando olhamos para o cão com o qual convivemos por muitos anos, a qualidade do conhecimento é completamente diferente. Pelo som de seus passos, pelo movimento de sua boca, pela direção de sua cauda ou pela mínima alteração de sua respiração, percebemos imediatamente se ele está tranquilo, ansioso, alegre ou doente.
Isso não é uma simples percepção. A consciência da minha própria vida entra, por simpatia, no ritmo vital daquele cão, no modo como o mundo aparece para ele — isto é, na duração própria daquele cão.
A intuição, em Bergson, não é a inteligência que analisa o objeto de fora. É um conhecimento que se sintoniza com o movimento interno do objeto e procura apreender, a partir de dentro, o fluxo de sua existência.
O célebre Bruce Lee, ao transmitir a essência das artes marciais, disse:
“Não pense. Sinta.”
Isso não significa uma sensação vulgar. Talvez Bruce Lee quisesse dizer que a verdadeira prática marcial não nasce da simples análise nem da visão externa, mas da entrada no interior da vida do adversário e da sintonia com ela.
“Impulso vital” — élan vital
Além disso, Bergson percebeu que a vida possui uma criatividade que não pode ser explicada apenas pela análise. Esse é o famoso impulso vital — élan vital.
Para Bergson, a vida não é algo que possa ser plenamente apreendido pela anatomia ou pela psicologia. Ela é um impulso criativo que conserva o passado em si, gera o presente e inventa novas formas em direção a um futuro desconhecido.
A vida se choca com resistências diversas e falha muitas vezes, mas, a cada vez, abre novas possibilidades.
Do mesmo modo, a vida humana, a arte e a religião também são compreendidas como impulsos em contínua geração.
A vida não possui roteiro nem manual de instruções. Ela é uma sequência criativa tecida pelas lembranças do passado, pelas escolhas do presente e pelas esperanças do futuro.
A arte não é uma simples imitação de coisas belas. É um ato criativo pelo qual a emoção e a espiritualidade do artista conferem vida à matéria inorgânica.
E a religião também não é apenas doutrina ou consolo. Ela é a própria atividade de uma espiritualidade aberta e de um amor criativo que brotam das profundezas da vida.
Também no interior da cultura atua esse impulso vital.
Síntese
Em suma, ao intuir o impulso vital presente na duração, nasce a verdadeira compreensão e a emoção do saber. E essa emoção mistura-se à própria vida daquele que compreende, fazendo surgir nela um novo movimento criativo.
Essa estrutura circular constitui o núcleo da filosofia bergsoniana.
Uma visão sacerdotal
A intuição — isto é, a sabedoria não discriminativa — que faz operar essa estrutura circular é precisamente o ponto essencial do estudo e da prática budistas.
Contudo, é extremamente importante escolher corretamente o objeto dessa intuição. Se o objeto for o Buda, sua influência tocará maravilhosamente a sua vida. Mas, se alguém se deixa fascinar por algo que degrada o ser humano e toma isso como objeto, ele próprio também se degradará.
E isso é perigoso justamente porque aí também pode haver uma sensação de unidade e elevação proveniente da intuição.
Para discernir isso, o Budismo ensina que devemos estudar os sutras e os bons ensinamentos, continuando sempre a refletir sobre o que é correto.
Porém, quando essa intuição — sabedoria não discriminativa — atinge seu ponto extremo, ela se torna a Sabedoria da Natureza Essencial do Dharmadhātu.
Nesse estado, a dualidade entre bem e mal, sagrado e impuro, entra em colapso, e compreende-se verdadeiramente que tudo no mundo é manifestação de Mahāvairocana Tathāgata², o Buda fundamental.
Esse é o estado do Budismo Esotérico.
O amor nasce da intuição, isto é, da sabedoria não discriminativa.
E o perdão religioso e a compaixão nascem dessa Sabedoria da Natureza Essencial do Dharmadhātu.
Dito de modo inverso: amor, perdão e compaixão sem intuição não passam de belas palavras. São falsidades.
Segundo capítulo
A intuição — sabedoria não discriminativa — no estudo e na prática budistas
A intuição na recitação e leitura dos sutras³
Quando lemos os sutras por meio da intuição, as palavras budistas deixam de ser simples conhecimento e começam a atuar dentro da duração interior do próprio leitor.
Elas se ligam à confusão, ao sofrimento, às lembranças, ao arrependimento e à prática, provocando uma nova criação nas profundezas da vida.
Por meio de um intercâmbio vital com as palavras dos sutras, surgem percepções, sabedoria e um impulso de vida que antes não existiam.
Nesse sentido, estudar o Budismo — o Dharma⁴ — não é acumular conhecimentos fixos. É um impulso criativo no qual a vida se abre a uma nova forma por meio do encontro com o Dharma.
Ao ler os textos budistas, por exemplo o Dhammapada⁵ publicado neste site, são necessárias tanto a leitura pela inteligência — sabedoria discriminativa — quanto a leitura pela intuição — sabedoria não discriminativa.
Ler pela inteligência significa compreender corretamente as palavras do texto sagrado.
Confirmamos o significado dos termos, inferimos, refletimos e nos convencemos. Esse processo é, naturalmente, necessário.
Mas, se ficarmos apenas nisso, mesmo que o conhecimento aumente, o impulso vital não nasce. É aqui que se torna necessária a intuição.
Como explicamosi anteriormente, a intuição é aquilo que ultrapassa a função da inteligência, que observa e analisa o objeto de fora, e entra no interior do objeto, compreendendo-o como se vivesse junto com o seu movimento.
No caso do Dhammapada, isso significa entrar no movimento da mente indicado pelas palavras do texto.
Por exemplo, ao ler um verso sobre a ira, é preciso observar dentro de si mesmo de que modo a ira domina o coração e distorce as palavras e ações.
Nesse momento, o texto sagrado deixa de ser um objeto compreendido externamente. Ele se torna uma palavra que começa a atuar dentro da duração da própria vida.
Contudo, ler por meio da intuição não significa apenas comparar o texto com a própria interioridade. É necessário também tocar a vida do Buda Śākyamuni⁶ presente no interior do sutra.
Śākyamuni não enumerou simplesmente pensamentos abstratos. Ele falou a pessoas que sofriam, iravam-se, perdiam-se, temiam, eram arrastadas pelo desejo e buscavam a verdade.
Por trás de suas palavras há uma profunda compaixão voltada para o ser humano, uma força capaz de suportar o sofrimento em nome de um objetivo elevado, e uma coragem que não se compromete com o senso comum do mundo nem com a autoridade religiosa de sua época.
Ler o Dhammapada por meio da intuição é também sentir essa vida e essa espiritualidade de Śākyamuni.
Além disso, no fundo do Dhammapada estende-se a sociedade indiana daquele tempo. Ali havia pessoas que, como nós hoje, sofriam, angustiavam-se, iravam-se, amavam e se alegravam. Devemos tentar escutar a respiração dessas pessoas.
Desse modo, é importante encontrar, no interior da própria vida, a vida de Śākyamuni e a vida das pessoas que viveram na antiga sociedade indiana, entrar em intercâmbio com elas e ser transformado por sua influência.
Outro ponto importante é o seguinte: aprender o significado e a definição de vários conceitos presentes nos sutras — como bem, mal, correção e pureza da mente — é naturalmente importante como estudo intelectual. Mas não devemos fixá-los como absolutos.
O estudo exige compreensão pela inteligência. Contudo, ao mesmo tempo, também aqui a intuição é essencial.
Explicando de modo simples: devemos aprender, a partir dos textos sagrados, o que é o bem, o que é o mal e o que é a pureza da mente, mas ao mesmo tempo devemos continuar pensando nisso dentro da própria vida.
Isso não significa apenas repetir a mesma pergunta.
Significa que a própria pergunta se aprofunda à medida que experiências passadas, sofrimentos presentes, encontros com outras pessoas, palavras dos sutras, memórias, arrependimentos e práticas se misturam.
O “bem” pensado ontem e o “bem” pensado hoje, depois de experimentar a ira, não são a mesma coisa.
Assim, o modo como as palavras dos sutras ressoam continua vivo e em transformação dentro da duração da vida do leitor. Por meio dessa duração, a sabedoria é criada e a vida se impulsiona.
É preciso conservar dentro de si as palavras dos sutras por meio da duração, misturá-las com a própria vida e deixá-las fermentar e amadurecer ao longo do tempo.
Um vinho excelente nasce de uvas excelentes, de leveduras ricas e do cuidado atento do ser humano. O mesmo ocorre aqui.
Por isso, no Budismo, não devemos cair no dogmatismo⁷ que absolutiza as palavras escritas nos textos sagrados, nem no fundamentalismo escritural.
No instante em que se fixa e absolutiza o ensinamento, a justiça daquele que crê pode se tornar um instrumento para julgar os outros, e até mesmo uma arma.
Além disso, a oposição conceitual entre bem e mal se intensifica de maneira extrema, e a alegria livre e o impulso vital que pertencem originalmente à religião se perdem.
É justamente por isso que lemos os sutras: para continuar perguntando o que é a retidão⁸.
Através dessa pergunta que dura, a vida dos sutras e a nossa vida podem entrar em harmonia, e uma transformação criativa pode surgir.
A intuição — sabedoria não discriminativa — na prática budista
A intuição, ou sabedoria não discriminativa, também se torna a base da prática budista.
Aqui, gostaria de apresentar de que modo esses dois saberes se relacionam com três práticas fundamentais do Budismo: o Nobre Caminho Óctuplo, śamatha-vipaśyanā e o empoderamento dos Três Mistérios.
O Nobre Caminho Óctuplo
O Nobre Caminho Óctuplo é uma doutrina fundamental do Budismo, composta por oito práticas que conduzem o ser humano à cessação do sofrimento: visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção correta e concentração correta.
Esses oito aspectos são diretrizes para orientar corretamente a maneira humana de ver, pensar, falar, agir, viver, esforçar-se, prestar atenção e concentrar-se.
Se os resumirmos em três elementos, trata-se de corrigir a ação, a palavra e o coração.
Contudo, essa “correção” não possui uma definição rígida. Naturalmente, o bem ético é recomendado. Mas, tomando os sutras e o Dharma como referência, é necessário continuar perguntando o que é correto dentro do tempo e do lugar concretos, na relação com os outros e nos movimentos da própria mente.
Nesse processo, certamente surgirá uma orientação que não pode ser plenamente verbalizada. Por isso, a própria duração da pergunta é extremamente importante.
Aquilo que sustenta essa pergunta é a intuição.
Na prática budista, intuição significa não compreender o Buda apenas como conhecimento externo, mas tocar a vida da sabedoria e da compaixão do Buda, abrindo a própria vida à sua atuação.
Por meio dessa intuição voltada ao Buda, nossa retidão é cultivada e elevada.
A retidão deixa de ser uma simples regra. Ela se torna uma simpatia direta, na qual, tocando a sabedoria e a compaixão do Buda, compreendemos como devemos fazer atuar o nosso corpo, a nossa palavra e a nossa mente.
E não devemos tomar apenas o Buda como ideal. É extremamente importante também contemplar e intuir bons amigos espirituais, bons mestres, praticantes excelentes e pessoas virtuosas como modelos.
O discípulo do Buda, o venerável Ānanda⁹, perguntou:
“Ter bons amigos espirituais é metade da prática?”
Śākyamuni respondeu:
“Não. Ter bons amigos espirituais é a totalidade da prática.”
Aqui se sugere fortemente a importância dos bons amigos espirituais e também a importância da intuição dirigida a eles.
Śamatha-vipaśyanā
O desenvolvimento meditativo dessa intuição é śamatha-vipaśyanā.
Śamatha-vipaśyanā é a base de toda meditação e da atitude mental ideal.
Śamatha significa acalmar a mente dispersa e estabilizá-la em um único ponto.
Vipaśyanā significa, por meio dessa mente pacificada, penetrar a verdadeira realidade das coisas.
Por śamatha, a mente se torna límpida. Por vipaśyanā, essa mente límpida observa com clareza sentimentos, apegos, ego e fenômenos. Depois disso, ela penetra a verdade budista. Assim, a sabedoria aparece.
Śamatha sozinho pode pacificar a mente, mas não conduz necessariamente à sabedoria.
Vipaśyanā sozinha pode deixar a mente dispersa e arrastá-la para o pensamento conceitual.
Por isso, śamatha e vipaśyanā não podem ser separados. Acalmar a mente e, com essa mente acalmada, contemplar a realidade: quando esses dois aspectos se tornam um, a meditação budista deixa de ser mero repouso e se torna caminho para a iluminação.
Esse śamatha-vipaśyanā é a própria intuição.
O aspecto de śamatha na intuição começa pelo aquietamento temporário dos pensamentos fixos produzidos pela inteligência.
Enquanto a mente estiver dispersa e sendo arrastada por informações, não será possível intuir a duração interna do objeto.
Primeiro é necessário acalmar a atividade ruidosa da inteligência e concentrar profundamente a mente no objeto. Esse é o śamatha da intuição.
Por outro lado, a intuição apreende o objeto não como uma substância fixa, mas como fluxo vivo, movimento interno e duração.
A vipaśyanā budista também contempla os fenômenos não como coisas fixas, mas como processos que surgem, mudam e desaparecem.
Nela, a mente e o eu também são observados não como substâncias fixas, mas como processos fluídos que surgem por condições.
Nesse ponto, vipaśyanā coincide com a intuição; e, ao compreender o conceito de intuição, também se pode compreender vipaśyanā.
Portanto, śamatha-vipaśyanā — isto é, intuição ou sabedoria não discriminativa — constitui também a base da meditação budista.
Na realidade, inteligência e intuição, ou śamatha e vipaśyanā, são usadas de maneira simultânea, sustentando-se mutuamente.
O empoderamento dos Três Mistérios
A correção da ação, da palavra e da mente indicada no Nobre Caminho Óctuplo torna-se, no Budismo Esotérico, uma prática ainda mais direta sob a forma do empoderamento dos Três Mistérios.
O empoderamento dos Três Mistérios é uma prática esotérica que, por meio do corpo, da palavra e da mente, intui diretamente o Buda.
E esse empoderamento dos Três Mistérios é uma aplicação de śamatha-vipaśyanā.
Em outras palavras, é o Nobre Caminho Óctuplo praticado através de śamatha-vipaśyanā.
O corpo que forma os mudrās concentra em um ponto os movimentos dispersos do corpo.
A palavra que recita o mantra concentra a mente agitada na ressonância do Buda.
A mente que medita no Buda concentra os pensamentos dispersos na vida do Buda.
Isso é śamatha.
E, ao mesmo tempo, por meio dos mudrās¹⁰, dos mantras e da meditação, o praticante intui o corpo, a palavra e a mente do Buda. Isso é vipaśyanā.
Em outras palavras, trata-se de uma prática que dirige diretamente ao Buda o objeto de śamatha-vipaśyanā.
O empoderamento dos Três Mistérios é o acontecimento no qual, pela intuição do Buda, a própria vida entra em comunhão com a vida do Buda.
Por meio dessa comunhão, a mente se impulsiona e se transforma. Mas essa transformação não termina apenas no interior da mente. O corpo e a palavra também se abrem em direção a uma espiritualidade pura.
Como vimos, a intuição — sabedoria não discriminativa — sustenta todo o Budismo.
Síntese final
Normalmente, tentamos compreender o mundo por meio da inteligência, isto é, da sabedoria discriminativa.
A inteligência é a faculdade de dividir, classificar, definir e organizar as coisas como conceitos. Essa função é indispensável para a ciência e para a vida social.
No entanto, segundo Bergson, a inteligência tende a objetificar o mundo a partir de fora e a apreendê-lo como algo imóvel. Por isso, ela não consegue captar tal como é a realidade profunda da vida, que flui, gera-se e se transforma incessantemente.
É aqui que se torna importante a intuição, isto é, a sabedoria não discriminativa.
A intuição em Bergson não é mero palpite nem lampejo emocional. Ela é um método que não analisa o objeto de fora, mas entra em seu interior e o apreende como se vivesse o próprio movimento dele.
Por meio da intuição, o ser humano pode tocar a duração, o fluxo da vida e o impulso criativo que existem por trás dos conceitos fixos.
O praticante budista ideal é aquele que aprofunda essa intuição, essa sabedoria não discriminativa.
Em Bergson, quando a intuição avança até uma profundidade mística, o ser humano toca, no fundo de sua própria vida, uma força vital primordial que opera para além do indivíduo.
Essa força não fecha a vida, mas a abre. Não a paralisa, mas a cria. Não a possui para si mesma, mas a oferece aos outros.
O Bergson tardio compreendeu essa força primordial como amor.
Na filosofia de Bergson há a ideia de experimentar Deus como amor. Isso significa que o coração fechado em seu egocentrismo é rompido; a pessoa toca um grande fluxo cósmico de vida, que poderia ser chamado de Deus; e esse fluxo começa a atuar dentro dela como amor pelos outros, amor pelo mundo e amor pelo destino.
Esse amor pelo destino significa amar a vida, a época, o corpo, o sofrimento, os encontros, a missão e as circunstâncias que nos foram dados; assumir tudo isso como matéria-prima do movimento criativo da vida; e, a partir daí, abrir-se ao amor pelos outros.
Nesse momento, o Buda deixa de ser uma existência abstrata em algum lugar distante. Ele é experimentado como a fonte criativa que move a vida a partir de dentro e abre o ser humano para um amor mais amplo.
O praticante budista ideal não é simplesmente um meditador nem alguém que se banha em tranquilidade.
Ele é alguém que toca a raiz da vida e, a partir do amor infinito que transborda dessa raiz, devolve algo ao mundo dentro do próprio destino.
Notas explicativas
Henri Bergson (1859–1941) — foi um filósofo francês conhecido por desenvolver a filosofia da duração, da intuição e do impulso vital. Criticou a tendência moderna de reduzir a vida à análise racional e à quantificação, defendendo que a realidade viva só pode ser verdadeiramente compreendida por meio da experiência direta e intuitiva do fluxo da existência. Ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1927 e foi condecorado em 1930 com a Grã-Cruz da Legião de Honra, a mais alta condecoração da França.
Mahāvairocana Tathāgata — no Japão, é conhecido como Dainichi Nyorai. Buda central do Budismo Esotérico e do Shingon-shū. Representa a verdade cósmica, a sabedoria universal e a realidade fundamental que permeia todas as coisas. No Shingon, todos os Budas e todos os fenômenos são compreendidos como manifestações de Dainichi Nyorai.
Sutras — são textos sagrados budistas que registram ensinamentos atribuídos ao Buda e aos grandes mestres da tradição. Neles são expostas doutrinas, práticas, diálogos e orientações espirituais utilizados como base para o estudo, a meditação e a prática do Budismo.
Dharma — termo budista que pode possuir diferentes significados conforme o contexto. De forma geral, refere-se aos ensinamentos do Buda e à verdade sobre a realidade e a existência. Também pode indicar a lei natural que sustenta e harmoniza todas as coisas. Seu significado será compreendido mais profundamente conforme o avanço nos estudos e na prática budista.
Dhammapada — Uma das obras mais conhecidas do budismo primitivo, composta por versos atribuídos ao Buda. Seus ensinamentos abordam temas como mente, conduta, sabedoria e caminho espiritual, servindo como orientação prática para a vida cotidiana.
Buda Sakyamuni — nome dado ao príncipe Siddhartha Gautama após alcançar a iluminação. “Sakyamuni” significa “o sábio do clã Sakya”. É considerado o fundador do Budismo e aquele que revelou os ensinamentos sobre o sofrimento, a realidade e o caminho para o despertar espiritual.
Dogmatismo — é a atitude de considerar uma doutrina, crença ou interpretação como verdade absoluta e indiscutível, recusando reflexão, questionamento ou abertura para novas compreensões.
Retidão — significa a verdadeira correção.
Ānanda — foi um dos principais discípulos do Buda Śākyamuni e seu acompanhante mais próximo durante muitos anos. É conhecido por sua grande memória e por ter preservado numerosos ensinamentos do Buda, que posteriormente foram transmitidos na tradição budista.
Mudrās — são gestos e posições simbólicas das mãos e do corpo utilizados nas práticas budistas esotéricas. Representam estados espirituais, ensinamentos e atividades do Buda, sendo empregados como forma de concentração, meditação e união com a sabedoria búdica.




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