A COSMOLOGIA¹ DO BUDISMO ESOTÉRICO
- kongojisuzano

- há 3 dias
- 8 min de leitura
Atualizado: há 2 dias
Desde a Antiguidade, a humanidade sempre carregou a pergunta:
“Como este mundo veio a existir?”
Muitas religiões responderam a essa questão postulando² um Deus criador.
O Budismo, porém, fundamentalmente não considera que o mundo tenha sido criado do nada por alguém. Isso não significa que ele simplesmente “nega” essa possibilidade de maneira simplista. Também não considera que o mundo permaneça como uma substância material fixa, continuando eternamente da mesma forma. Aquilo que o Budismo descobriu foi uma perspectiva que supera esses dois extremos — o extremo da criação absoluta e o extremo da permanência eterna. Essa perspectiva é a originação dependente.
Originação dependente significa o fato de que todos os seres e fenômenos surgem a partir de inúmeras causas e condições. Uma flor não desabrocha apenas por causa da semente.
É preciso haver terra, água, luz, vento, tempo e uma infinidade de condições que se entrelaçam para que a flor apareça como flor. O ser humano também é assim. O corpo, a mente, as relações com os outros, a história e a cultura — tudo se constitui dentro de uma rede de interdependência.
Nesse sentido, o mundo não é uma coleção de “coisas” fixas. O mundo é um fluxo de relações que surgem, transformam-se e desaparecem incessantemente.
O Budismo expressou o cosmos por meio do ciclo de formação, permanência, destruição e vazio. Ou seja, o universo se forma, permanece por certo tempo, entra em colapso e então caminha novamente para uma nova formação.
Mas o ponto importante é que isso não é apenas uma história do universo. Nós mesmos vivemos dentro desse ciclo de nascimento e desaparecimento.
O ser humano nasce. Porém, desde o instante em que nasce, começa a mudar. O eu de ontem e o eu de hoje não são exatamente o mesmo. O corpo e a mente estão em fluxo contínuo. Ao mesmo tempo, desde o instante do nascimento, caminhamos para o envelhecimento e para a morte. Assim como uma flor, no momento em que desabrocha, já começa a avançar na direção de sua queda, todo ser existe dentro do fluxo da geração e da dissolução³.
Por isso, o Budismo não compreende o mundo apenas como “algo que nasceu”, mas como “algo que está nascendo” e, ao mesmo tempo, “algo que está desaparecendo”. Existir não é permanecer em um estado acabado. Existir é estar em processo de geração.
Além disso, essa originação dependente conduz a uma conclusão extraordinária. Se tudo se constitui em relação com outras coisas, então não se pode encontrar, em lugar algum, uma essência fixa que exista de maneira independente por si mesma. Essa é a doutrina⁴ da vacuidade.
Mas vacuidade não significa nada absoluto. Também não significa que o mundo não exista. Pelo contrário, o mundo existe. No entanto, ele não existe como uma substância fixa. Ele existe como relação. Justamente por isso a mudança é possível, o crescimento é possível e a libertação do sofrimento também é possível.
Se houvesse no ser humano uma essência imutável e incapaz de transformação, nem a prática nem a iluminação seriam possíveis. Se o mundo fosse uma máquina fixa, a compaixão e a sabedoria perderiam seu sentido. Mas no mundo da originação dependente e da vacuidade, tudo está aberto. Nada está completamente fixado.
Aqui se encontra o significado filosófico do Budismo. A filosofia ocidental só chegou na modernidade a uma estrutura de pensamento próxima daquela que o Budismo já havia indicado há cerca de 2.500 anos.
Trata-se de uma mudança de perspectiva: do mundo como “coisa” para o mundo como “acontecimento”; da realidade como “substância” para a realidade como “relação”.
Essa visão torna-se uma ocasião para compreender a essência da vida e para dissolver o apego e o sofrimento.
Mas então surge outra pergunta:
“Entendi que tudo é vazio. Mas de que modo esse mundo vazio aparece agora, diante dos nossos olhos?”
A resposta é a doutrina dos Seis Grandes Elementos.
Os Seis Grandes Elementos são uma doutrina que compreende os elementos fundamentais do mundo como terra, água, fogo, vento, espaço e consciência.
No entanto, eles não são elementos físicos no sentido materialista. Eles indicam princípios do próprio modo de existir.
Terra: forma, solidez, estabilidade.
Água: umidade, coesão, união.
Fogo: calor, transformação, amadurecimento.
Vento: movimento, ação, fluxo.
Espaço: espacialidade, abertura.
Consciência: o ato de conhecer, a atividade da mente.
Esses Seis Grandes Elementos se combinam de maneira complexa por meio da originação dependente e constituem este mundo.
E, no Budismo Esotérico, revela-se o segredo desse mundo dos Seis Grandes Elementos.
Esse segredo é o seguinte: os Seis Grandes Elementos são o próprio corpo de Mahāvairocana Tathāgata, o Grande Buda Dainichi.
No Budismo Esotérico Shingon, Mahāvairocana é considerado o Buda fundamental de todos os Budas. Por outro lado, no Budismo Esotérico Tibetano, Samantabhadra primordial⁵ ocupa uma posição próxima a essa. As expressões são diferentes, mas ambos simbolizam a verdade última do universo e da iluminação.
Isso significa que o universo não é uma criação feita por Mahāvairocana como se fosse uma obra separada de seu criador. Pelo contrário: o próprio universo já é o corpo do Buda.
Mahāvairocana é a atividade da sabedoria e da compaixão que permeia todo o universo.
O soprar do vento, o fluir dos rios, o amor humano, as lágrimas humanas — tudo isso é uma face da atividade do Dharmakāya Mahāvairocana, o Corpo do Dharma do Grande Buda Dainichi.
Quando retornamos novamente à originação dependente, esse sentido se aprofunda ainda mais.
À primeira vista, a originação dependente pode parecer um princípio impessoal e frio. Pode parecer apenas uma lei de causas e condições. Mas, quando olhamos para a nossa própria vida, percebemos que a originação dependente não é de modo algum um conceito abstrato⁶.
O encontro com uma pessoa, o encontro com uma palavra, uma experiência capaz de transformar a vida — tudo isso aparece como resultado da sobreposição de incontáveis causas e condições.
E nenhum de nós vive de modo isolado.
Uma única vida é sustentada por inúmeras vidas, começando pelos antepassados. Um único acontecimento está ligado a inúmeros outros acontecimentos.
Contemplar profundamente a originação dependente é contemplar essa rede de interconexões. E isso é extremamente importante na prática budista.
O Budismo Esotérico Shingon chama de Mahāvairocana a vontade, a sabedoria e a compaixão que unificam esse universo constituído por relações infinitas.
Por isso, a prática budista não consiste em procurar um Buda distante em algum outro lugar.
Ela consiste em conhecer a profundidade da originação dependente que sustenta o eu e o mundo, e em abrir os olhos para a atividade deste universo.
Nesse momento, o mundo deixa de ser uma mera coleção de matéria.
Em todos os seres e fenômenos flui a intenção de Mahāvairocana.
Acolher isso profundamente é chamado de Impregnação pela Talidade⁷. Essa impregnação pelo ouvir o Dharma é um dos fundamentos da prática budista.
No Budismo Esotérico Shingon, ensina-se que todos os acontecimentos contêm a pregação de Mahāvairocana. Ou seja, não são apenas as letras dos sutras ou as palavras dos monges que constituem o Dharma, o ensinamento do Buda. O Dharma é revelado através de todos os acontecimentos da vida.
Isso mostra que todos os acontecimentos possuem sentido e valor, e que todo destino, sob o nome do Buda, deve ser acolhido como algo digno de amor.
Isso não é uma frase bonita sem fundamento. É, de fato, uma verdade.
Como já sugerido anteriormente, visto a partir da originação dependente, o mundo pode parecer, à primeira vista, extremamente impessoal e frio.
No entanto, no Rishukyō⁸, uma das escrituras fundamentais do Budismo Esotérico, ensina-se que, quando a meditação sobre a originação dependente é levada ao extremo, manifesta-se a luz originária do universo.
No Tratado sobre a Mente de Bodhi⁹, ensina-se que, quando, na meditação, tudo é negado até o fim e a mente se torna vazia, percebe-se que este mundo está pleno de todos os bens e que a nobre atividade do Buda continua ilimitadamente.
Se contemplarmos este mundo profundamente, com uma mente pura e sem apego, poderemos perceber a luz que flui no interior do mundo da originação dependente.
Para realizar isso, existem diversas práticas budistas que têm śamatha-vipaśyanā¹⁰ como fundamento.
A rede infinita da originação dependente não é um simples caos.
Nela há um drama incessante.
A sabedoria resplandece.
A compaixão flui.
Mahāvairocana continua pregando neste exato instante.
O que se abre ali é a grande epopeia do Universo, continuamente tecida sob o olhar do Buda.
Notas explicativas
Cosmologia — visão sobre a origem, a estrutura e o modo de funcionamento do universo. No Budismo, está relacionada à compreensão de como todos os fenômenos surgem e desaparecem em dependência de causas e condições.
Postulando — defendendo ou propondo uma ideia como base para explicar determinado assunto.
Dissolução — processo pelo qual algo se desfaz, se transforma ou deixa de existir na forma que possuía anteriormente.
Doutrina — conjunto de ensinamentos, princípios ou ideias que formam a base de uma determinada tradição filosófica ou religiosa.
Samantabhadra primordial (Kuntuzangpo) — é considerado, especialmente na tradição Nyingma do Budismo Tibetano, o Buda primordial (Adi-Buddha), simbolizando a realidade última e a iluminação primordial. Em geral, distingue-se do bodhisattva Samantabhadra (Fugen Bosatsu) do Budismo Mahayana, embora exista entre ambos uma relação histórica e conceitual tanto em termos de nomenclatura quanto de desenvolvimento doutrinário.
Abstrato — algo que existe apenas como ideia ou conceito, e não como experiência concreta e direta.
Impregnação pela Talidade — Termo filosófico budista que descreve a influência contínua da Talidade isto é, da realidade tal como ela é em sua natureza última, sobre a mente dos seres.
A palavra impregnação procura traduzir a ideia budista de vāsanā) que originalmente significa algo que se impregna gradualmente, como o perfume do incenso que penetra em um tecido. Nesse contexto, refere-se ao processo pelo qual a Verdade Última atua silenciosamente sobre a consciência, despertando nela a aspiração pela verdade, pelo bem e pela iluminação.
Na filosofia do Tratado do Despertar da Fé no Mahayana a Impregnação pela Talidade explica por que os seres possuem a capacidade de despertar: a realidade última não permanece passiva, mas exerce continuamente uma influência que orienta a mente em direção ao reconhecimento de sua verdadeira natureza.
No Budismo Esotérico Shingon, essa ideia pode ser compreendida como a atuação incessante da sabedoria e da compaixão do Buda Mahāvairocana (Dainichi Nyorai) em todo o universo, conduzindo os seres gradualmente ao despertar.
Rishukyō — é um dos sutras mais importantes do Budismo Esotérico Shingon. Seu título completo é frequentemente identificado com textos como o Sutra da Samaya da Verdadeira Realização Infalível do Vajra da Grande Bem-Aventurança (Dairaku Kongō Fukū Shinjitsu Sanmaya Kyō).
Esse sutra desenvolve a doutrina da vacuidade (śūnyatā) sob uma perspectiva esotérica. Em vez de simplesmente negar o desejo, o corpo, as emoções ou as paixões humanas (bonnō), ele ensina que a natureza essencial de todas essas experiências é vazia de existência inerente e, portanto, originalmente pura. Além disso, mostra o caminho pelo qual, por meio da bodhicitta (mente de despertar) e da sabedoria, tais aspectos da experiência humana podem ser transformados na própria atividade iluminada dos Budas.
Tratado sobre a Mente de Bodhi (Bodaishin-ron) — é um importante texto do Budismo Mahayana que discute a natureza da bodhicitta (mente de despertar) e o surgimento dessa aspiração espiritual. No Budismo Esotérico Shingon, essa obra recebe especial destaque, sendo interpretada como a exposição do despertar da bodhicitta como ponto de partida para a realização da iluminação nesta própria existência (sokushin jōbutsu). Kūkai leu este tratado como um guia prático para manifestar, no próprio corpo e
na própria mente, a sabedoria de Mahāvairocana Tathāgata (Dainichi Nyorai).
Śamatha-vipaśyanā — por favor, para entender melhor este conceito leia ou releia o texto OS DOIS SABERES NO BUDISMO.




Comentários