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COMENTÁRIO SOBRE A PRÁTICA DO BUDISMO SHINGON

Atualizado: 26 de jun.


① Mantra de Reverência – Saudação de Abertura e Encerramento

Os monges da tradição Shingon recitam este mantra no início e no fim de toda prática,

oração e missa.


Explicação do significado em sânscrito

Oṃ sarva-tathāgata-pāda-vandanaṃ karomi

“Óṃ. Presto reverência aos pés de todos os Tathāgatas.”


Oṃ é o som sagrado colocado no início dos mantras.

sarva significa “todos”.

tathāgata significa “Tathāgata”, isto é, “Assim-Vindo”, um dos títulos do Buda.

pāda significa “pé”.

vandanaṃ significa “reverência”, “saudação” ou “homenagem”.

karomi significa “eu faço”.


Portanto, o centro deste mantra não está em pedir ao Buda a realização de algum

desejo concreto, mas em, antes de tudo, prestar reverência humilde a todos os

Tathāgatas.


Aqui, o ponto importante é a expressão “prestar reverência aos pés”. Isso não significa simplesmente venerar uma parte física do corpo do Buda (seus pés). Desde o Budismo indiano, curvar-se aos pés de um mestre ou de um Buda significa abaixar o orgulho do ego e abrir corpo e mente diante da sabedoria e da compaixão do Buda.


Em outras palavras, este mantra conduz o praticante a suspender por um momento o apego às próprias ideias, interesses e desejos, levando-o a uma atitude adequada

diante do Buda.


Este é um mantra de saudação que pode ser recitado diante de todos os Budas,

Bodhisattvas, divindades e seres sagrados. Seja qual for o ser diante do qual se reza, o fundamento dessa oração está no respeito à sabedoria e à compaixão de

Mahāvairocana (Dainichi Nyorai), que se manifestam através da individualidade própria de cada ser.


Essa teoria se assemelha à oração de intercessão¹ no Catolicismo. No Catolicismo,

também se dirigem orações à Virgem Maria e aos santos. Contudo, na

teologia católica, a adoração é oferecida somente a Deus; Maria e os santos não são

adorados como se fossem Deus.


Quando se reza a Maria ou aos santos, o conteúdo essencial dessa oração é: “Rogai a Deus por nós.” Portanto, o destino final da oração é sempre Deus, e Jesus Cristo.


No Budismo Esotérico, esse destino final é justamente a sabedoria e a compaixão de

Mahāvairocana.


Essa forma de pensar não significa, de modo algum, desprezar os seres que não são

Mahāvairocana. Cada um deles é precioso. Porém, o fundamento dessa preciosidade está no fato de carregarem em si a sabedoria e a compaixão de Mahāvairocana.


Por isso mesmo, o Budismo Esotérico Shingon está completamente aberto a todas as

religiões, pensamentos e filosofias. É possível reconhecer e respeitar profundamente santos, sacerdotes e ensinamentos presentes em diferentes religiões.


No entanto, se uma fé ou pensamento é realmente bom ou não, isso deve ser julgado

pelo fato de haver ou não sabedoria e compaixão em seu nível mais profundo.

Não importa em que forma ou cultura isso esteja expresso.


Na verdade, na dimensão última da fé do Budismo Esotérico, é preciso ultrapassar até mesmo as palavras e formas chamadas “Mahāvairocana” e “Budismo”.



Notas expicativas

  1. intercessão — Forma de oração em que se pede que alguém reze ou interceda em favor de outra pessoa. No Catolicismo, quando se dirige uma oração à Virgem Maria ou aos santos, entende-se que eles apresentam esse pedido a Deus; a adoração, porém, é reservada somente a Deus.

Explicação para iniciantes

Este é um texto de confissão e arrependimento no Budismo.


Todo o mau karma que criei desde tempos sem começo,

nasceu da ganância, da raiva e da ignorância.

Tudo foi produzido pelo corpo, pela fala e pela mente.

Agora, reconheço tudo isso

e me arrependo profundamente.


Esta confissão não é apenas um texto comum de reflexão. Ela é uma forma de olhar

diretamente para a raiz do sofrimento: o sofrimento que sentimos, o sofrimento que

causamos aos outros e as ilusões que continuam se repetindo dentro da nossa própria mente.


No Budismo, o sofrimento não surge por acaso. Nossas ações e nossas palavras

nascem do estado da nossa mente. Quando somos movidos pela ganância, buscamos mais do que precisamos e nos apegamos às coisas, às pessoas, às ideias e aos nossos próprios desejos. Quando somos movidos pela raiva, ferimos os outros, afastamos as pessoas e perturbamos a nossa própria mente. Quando somos cobertos pela ignorância, deixamos de enxergar com clareza aquilo que realmente produz

sofrimento e aquilo que conduz à verdadeira paz.


A ganância, a raiva e a ignorância são chamadas, no Budismo, de os três venenos. Elas são chamadas de venenos porque intoxicam a mente. Quando a mente está envenenada por essas três raízes, nossas ações se tornam confusas, nossas palavras se tornam impuras e nossos pensamentos perdem a clareza. Assim, criamos karma que afeta não apenas a nossa própria vida, mas também a vida das pessoas ao nosso redor.


Aqui, a palavra karma precisa ser bem compreendida. Karma não significa destino fixo,castigo ou condenação. Karma significa ação. Mais precisamente, significa uma ação feita com intenção. Aquilo que fazemos com o corpo, aquilo que dizemos com a fala e aquilo que cultivamos na mente criam causas e consequências. Essas causas podem produzir sofrimento, confusão e apego, ou podem produzir paz, sabedoria e

compaixão.


Por isso, a confissão é tão importante no caminho budista.


No Budismo, confessar e arrepender-se não significa continuar se culpando para

sempre. Também não significa ficar preso ao passado. Confessar significa reconhecer

com sinceridade as causas de sofrimento que nós mesmos criamos. Arrepender-se

significa mudar a direção do coração, para não continuar repetindo o mesmo caminho

de ilusão, sofrimento e apego.


A expressão “todo o mau karma” significa todas as ações negativas criadas pelo corpo, pela fala e pela mente. “Mau” aqui não quer dizer apenas algo moralmente errado. Significa aquilo que nasce da confusão interior, obscurece a mente e produz

sofrimento para nós e para os outros.


A expressão “desde tempos sem começo” tem um sentido profundamente budista. Ela

indica que nossas tendências de ganância, raiva e ignorância não começaram apenas

hoje, nem apenas em um momento específico da nossa vida. Elas fazem parte de uma corrente muito antiga de hábitos, condicionamentos e ilusões. Por isso, no Budismo se fala em “tempos sem começo”: não para explicar uma data do passado, mas para mostrar a profundidade das raízes do sofrimento.


A expressão “corpo, fala e mente” corresponde a uma ideia muito importante no

Budismo. O corpo representa aquilo que fazemos. A fala representa aquilo que

dizemos. A mente representa aquilo que pensamos, desejamos, alimentamos e

intencionamos.


No caminho budista, não basta purificar apenas o comportamento

exterior. É preciso purificar também a palavra e a intenção interior.


Quando recitamos “reconheço tudo isso”, deixamos de fugir. Não escondemos nossas

ações. Não disfarçamos os erros cometidos pela fala. Não desviamos o olhar da

ganância, da raiva e da ignorância que existem dentro da nossa mente. Esse

reconhecimento sincero é o começo da verdadeira purificação.


Quando recitamos “me arrependo profundamente”, não estamos dizendo que

odiamos a nós mesmos. Estamos dizendo que não queremos mais continuar

alimentando uma forma de vida que produz sofrimento.


Arrepender-se profundamente é desejar purificar o corpo, purificar a fala, purificar a mente e retornar ao caminho da sabedoria e da compaixão.


Esta confissão não é uma tentativa de apagar o passado. O passado não é

transformado quando fugimos dele. Enquanto desviamos o olhar do nosso próprio

karma, ele continua agindo dentro de nós. Somente quando olhamos com honestidade para aquilo que criamos é que podemos começar a transformar o rumo da nossa vida.


Todos nós, muitas vezes sem perceber, ferimos outras pessoas, prejudicamos outros

seres e vivemos sustentados por muitas vidas e muitos sacrifícios. Perceber isso ou

fingir que não percebemos muda profundamente o caminho que seguimos. A

confissão nos ensina a abrir os olhos para essa realidade.


Por meio da confissão, a pessoa se torna humilde. E a humildade é uma das bases mais importantes da prática budista. Uma pessoa humilde consegue aprender, corrigir-se, ouvir o Dharma e caminhar com mais sinceridade. Por isso, esta confissão não é apenas uma frase recitada. Ela é uma prática de purificação, transformação e retorno ao caminho do despertar.



Explicação esotérica

A confissão, ou arrependimento budista, não é uma simples reflexão moral. Confessar

e arrepender-se significa reajustar novamente, dentro da ordem da sabedoria e da

compaixão de Mahāvairocana, o eu que se afastou dessa ordem.


A ordem aqui mencionada é Mahāvairocana. Mahāvairocana é uma ordem universal

na qual sabedoria e compaixão estão unificadas, e essa ordem permeia profundamente a base do mundo inteiro.


Quando a consciência e a ação humanas se desviam dessa ordem, nasce o pecado, e nasce o sofrimento.


O sofrimento humano não surge simplesmente porque alguém praticou uma má ação.

De modo mais profundo, ele surge quando a pessoa passa a enxergar a si mesma e o

mundo como realidades separadas, e perde de vista que suas ações, palavras e

pensamentos estão profundamente ligados aos outros, à vida, ao ambiente, ao

passado e ao futuro.


No Budismo, nenhum ser existe por si só. Inúmeras causas e condições se sobrepõem, sustentam-se mutuamente e ressoam umas com as outras, dando origem a cada acontecimento. Isso se chama “originação dependente”.


Para que uma única pessoa viva, existem os pais, os antepassados, o alimento, a

natureza, a sociedade, a linguagem, a cultura e a ação de incontáveis outros seres.

Todos os seres possuem essa infinita rede de relações chamada “originação

dependente”.


Contudo, essa originação dependente não é uma simples lei mecânica. Vista pelos

olhos do Budismo Esotérico Shingon, a atividade da originação dependente que

atravessa o mundo continua fluindo com base na ordem da sabedoria e da compaixão

de Mahāvairocana.


No entanto, para perceber isso, a fé precisa ser cultivada. Nem todos conseguem

enxergar isso imediatamente. Por isso, recomendamos que vocês experimentem, pouco a pouco, as práticas de “Śamatha e Vipaśyanā” e as “Onze Orações” apresentadas anteriormente.


Naturalmente, mesmo que sejam práticas de outras religiões, se estiverem baseadas na sabedoria e na compaixão, um dia certamente produzirão frutos maravilhosos. Quando esses frutos maravilhosos forem percebidos, é possível realmente compreender que este mundo é sustentado por um milagre supremo.


Mesmo um ateu que detesta coisas consideradas anticientíficas pode, dentro de uma

experiência própria que ultrapassa o pensamento, chegar a reconhecer Deus.


E, ainda que no mundo existam guerras e tragédias, é preciso descobrir que a cada

vida individual é concedida, sem falta, uma possibilidade de salvação.


A lei da originação dependente também se aplica ao próprio destino. Não há acaso no

destino que lhe é concedido. Há uma razão firme para que ele lhe seja dado.

E é preciso perceber que esse destino, em sua totalidade, se baseia na benevolência e o conduz à purificação e à elevação da alma para a verdadeira felicidade.


A benevolência de Mahāvairocana não está colocada no mundo como algo sem

relação com você. Ela é concedida para você, somente para você. Você é amado.


Além disso, o amor que Mahāvairocana concede a cada um de nós pode ser

comparado ao “amor supremo de uma mãe por seu filho único”.


É precisamente porque essa graça preenche o seu coração que você não consegue

deixar de amar em resposta. No entanto, Mahāvairocana não possui corpo físico;

Mahāvairocana apenas se manifesta através de todos os seres. Por isso, você acabará não conseguindo deixar de amar o destino que lhe foi concedido, as pessoas que encontra dentro desse destino e todos os seres.


Amar não é uma obrigação imposta aos budistas.

É um impulso puro que surge naturalmente da gratidão pura que você mesmo sente; é um desejo sem impureza. No Budismo Esotérico, isso é chamado de grande desejo. E esse amor completamente puro é chamado de benevolência.


Apesar de o cuidado perfeito e a assistência perfeita de Mahāvairocana serem

concedidos a todos os seres, sem que ninguém seja deixado para trás, todos os acontecimentos possuem significado, estão interligados e, enquanto produzem

incontáveis dramas e emoções profundas, sustentam este único mundo. Isto é o

milagre da originação dependente, a ordem de Mahāvairocana, algo que jamais

poderemos louvar o suficiente.


Seguindo essa ordem, viver nesta terra como seres vivos que se sustentam

mutuamente como irmãos e irmãs, venerando a grande Mãe e respondendo ao seu

pensamento.


Esta é a orientação essencial da prática budista e esotérica.

E viver dessa maneira é o que, no Budismo, se chama “Bodhisattva”; no Budismo

Esotérico, chama-se:

“realizar o estado de Buda neste próprio corpo” — sokushin jōbutsu.

Afastar-se da ordem de Mahāvairocana produz sofrimento.


Naturalmente, enquanto vivermos como seres humanos, não conseguiremos viver de

modo tão perfeito.


Mas será que uma mãe ama seu filho porque ele é perfeito?


De modo algum. Ver seu filho simplesmente vivendo, crescendo em segurança, e,

mesmo errando ou se equivocando, continuando a se esforçar para viver. Viver junto com esse filho. Não é justamente essa a alegria de uma mãe?


Por isso, a confissão não é um dever frio. É uma reflexão pura, na qual se recorda as próprias ações e se pergunta: será que aquilo que fiz entristeceu a Mãe?

Busco refúgio no Buda.

Busco refúgio no Dharma.

Busco refúgio na Sangha.


A Tríplice Refúgio significa tomar refúgio nas Três Joias: o Buda, o Dharma e a Sangha.


I. O Buda é o ser plenamente desperto. Ele é a realização completa da sabedoria e da compaixão que nos conduz da ilusão ao despertar; é o mestre supremo para aquele que caminha na via budista; é o objeto da nossa fé e o símbolo das duas grandes verdades do mundo: sabedoria e compaixão.


II. O Dharma são os diversos ensinamentos pregados pelo Buda. Ele esclarece a causa do sofrimento e mostra o caminho para libertar-se dele. O Dharma não é uma simples forma de pensar, mas também um conjunto de caminhos concretos que realmente transformam a vida, purificam o coração e conduzem ao despertar. E seu núcleo é, afinal, a sabedoria e a compaixão.


III. A Sangha, originalmente, designa a comunidade dos renunciantes que recebem,

preservam e praticam os ensinamentos do Buda. Contudo, em sentido amplo, ela não significa apenas a comunidade institucional budista. Ela significa todos os vínculos que transmitem, sustentam e conduzem à prática dos ensinamentos do Buda. Nela estão incluídos monges, mestres, predecessores, companheiros de estudo, praticantes históricos que transmitiram os sutras e todos os vínculos que trouxeram o Budismo até os dias de hoje.


Portanto, tomar refúgio na Sangha não significa acreditar cegamente que um grupo humano específico é perfeito. Significa unir-se ao fluxo que protege, estuda, pratica e transmite para o futuro os ensinamentos do Buda.


Não caminhamos na via budista sozinhos. Caminhamos dentro de uma ligação com os praticantes do passado, com aqueles que hoje aprendem conosco e com aqueles que, no futuro, receberão o ensinamento. Essa grande ligação que sustenta o caminho budista é a Sangha em sentido amplo. E nela há também uma expansão ilimitada de oração, nascida da profunda gratidão pelos pais e por todas as pessoas ao nosso redor que nos criaram e nos sustentaram até aqui.


A prática budista começa, antes de tudo, voltando o coração para essas Três Joias.

Abrimos o coração, que estava fechado dentro de si mesmo, para a compaixão e a

sabedoria do Buda, para a verdade do Dharma e para a orientação e a gratidão da

Sangha.


“Tomar refúgio” não significa apenas acreditar. É aceitar o Buda, o Dharma e a Sangha como o fundamento da vida e da prática, expressando a decisão de viver seguindo o caminho do Buda¹.


Esta é a mais básica declaração de fé de um budista. E, ao mesmo tempo, é uma

decisão silenciosa de caminhar pela via do Buda.


Nota: A fórmula do Tríplice Refúgio em pāli — Buddhaṃ saraṇaṃ gacchāmi,

Dhammaṃ saraṇaṃ gacchāmi, Saṅghaṃ saraṇaṃ gacchāmi — é uma das orações mais antigas do Budismo. Considera-se que sua origem remonta ao tempo de Śākyamuni, tendo sido transmitida por aproximadamente dois mil e quinhentos anos.


Ainda hoje é amplamente recitada nas regiões de Budismo Theravāda², como Sri Lanka, Tailândia, Myanmar, Laos e Camboja, sendo utilizada em cerimônias de ordenação, recepção dos preceitos, práticas diárias e ritos diversos. A fórmula do Tríplice Refúgio expressa a tomada de refúgio nas Três Joias — Buda, Dharma e Sangha — e é uma das confissões de fé mais fundamentais dos budistas, compartilhada para além das escolas e dos países.


Essa oração possui melodias próprias, que variam um pouco conforme a linhagem. No texto de prática, apresentamos dois tipos de melodia. Recite aquela que preferir. Naturalmente, também não há problema em fazer uma leitura sincera em português, e

não em pāli.



Notas explicativas

  1. Caminho do Buda — Expressão que indica o caminho de prática e transformação ensinado pelo Buda para superar o sofrimento e realizar o despertar. Não se refere apenas a crenças ou conhecimentos, mas ao cultivo concreto da sabedoria, da compaixão e da conduta por meio da prática ao longo da vida. No Budismo, seguir o Caminho do Buda significa aproximar-se gradualmente da compreensão da verdade e viver em harmonia com ela.


  2. Budismo Theravāda — Uma das mais antigas tradições budistas ainda praticadas, preservada principalmente no Sri Lanka e no Sudeste Asiático (Tailândia, Myanmar, Laos e Camboja). O nome significa “Ensinamento dos Anciãos” e refere-se à tradição que busca manter os ensinamentos atribuídos ao Buda histórico, Śākyamuni, com base no cânone em língua pāli (Tipiṭaka).

No Budismo, os preceitos¹ são uma prática fundamental indispensável para caminhar

pela via do Buda. A prática budista se apoia em três bases: preceito, concentração e

sabedoria.


Preceito é a disciplina que purifica o corpo, a fala e a mente.

Concentração é a atitude de serenar a mente dispersa e obter uma profunda estabilidade e concentração.

Sabedoria é a compreensão que penetra verdades como a impermanência, a originação dependente e o não eu.


Essas três não são práticas separadas. Por meio dos preceitos, a vida se organiza e as ações que perturbam a mente diminuem, tornando mais fácil aprofundar a

concentração.


Por meio da concentração, a mente se aquieta, e torna-se possível observar as coisas com calma; então nasce a sabedoria. E, quando a sabedoria se aprofunda, torna-se claro o que produz sofrimento e o que conduz à libertação, e os preceitos se tornam ainda mais naturais e firmes.


Não é preciso pensar nos preceitos como uma prisão rígida. O significado dos preceitos está em o praticante continuar apontando o caminho correto para seu corpo, sua fala e sua mente, fazendo com que os três venenos — ganância, raiva e ignorância — enfraqueçam pouco a pouco, de modo natural.


Se não houver nenhuma orientação, a mente vagueia constantemente. Justamente por isso, os preceitos cultivam hábitos de felicidade como uma orientação e, ao mesmo tempo, são indicadores concretos que nos fazem recordar a ordem da sabedoria e da compaixão de Mahāvairocana.


Também no mundo comum existem morais e éticas semelhantes aos preceitos.

Porém, a característica dos preceitos no Budismo está no fato de que eles têm significado profundo porque se fundamentam na tomada de refúgio nas Três Joias — Buda, Dharma e Sangha — e na decisão de viver purificando o próprio corpo, a fala e a mente.


Por meio desse voto, os preceitos deixam de ser apenas regras externas. Eles se

tornam uma força que, a partir do interior, impede o mal e direciona para o bem. Na

tradição dos estudos sobre os preceitos, essa força interior do cumprimento dos

preceitos é chamada de corpo do preceito.


O corpo do preceito é a ação, presente no coração daquele que caminha pela via budista, de prevenir o erro e deter o mal.


Prevenir o erro e deter o mal significa impedir o que é errado e cessar o mal. Em outras palavras, o corpo do preceito não é uma força que reprime de fora as más ações, mas uma força muito confiável que, de dentro do próprio coração, conduz naturalmente a uma direção melhor.


Uma forma representativa desses preceitos são os Dez Preceitos Bons.


Os Dez Preceitos Bons são dez práticas destinadas a purificar as três áreas do corpo, da fala e da mente. No Budismo, nossas ações são divididas em três grandes categorias:

  • Aquilo que fazemos com o corpo

  • Aquilo que dizemos com a fala

  • Aquilo que pensamos com a mente.

Isso é chamado de três karmas.


Os Dez Preceitos Bons são o caminho concreto para purificar esses três karmas.

Portanto, observar os Dez Preceitos Bons é, em si, praticar os preceitos no Budismo.


Naturalmente, existem também vários preceitos próprios para monges e para cada

escola. Contudo, a raiz dos preceitos budistas que todas as pessoas podem praticar

está nesses Dez Preceitos Bons.


Primeiro, os preceitos relacionados ao corpo são: não matar, não roubar e não praticar conduta sexual incorreta.


1. Não matar significa não tirar a vida. Para iniciantes, é bom compreender, antes de tudo, como “não ferir intencionalmente pessoas ou animais”. Contudo, em sentido budista, isso não se limita a isso. Não matar é uma prática que cultiva o coração que valoriza a vida e procura protegê-la. Ajudar os doentes, proteger os vulneráveis, não tratar os seres vivos com violência e cuidar da natureza e do ambiente também estão ligados ao espírito de não matar.


2. Não roubar significa não tomar aquilo que não foi dado. Isso não significa apenas não tomar os bens de outras pessoas. Também significa não roubar o tempo, a confiança, os direitos, o esforço e a tranquilidade dos outros. Por exemplo, usar alguém, enganar alguém ou tratar o resultado do esforço de outra pessoa como se fosse seu também contraria o preceito de não roubar. O sentido positivo de não roubar é passar de uma mente que não toma para uma mente que compartilha. Ou seja, abrir-se ao espírito da generosidade.


3. Não praticar conduta sexual incorreta significa não ferir as pessoas por meio do desejo. Este é um preceito que recomenda evitar condutas inadequadas relacionadas à sexualidade, mas seu sentido mais profundo é mais amplo. Significa não tratar o outro como instrumento para satisfazer o próprio desejo. Significa valorizar a dignidade do outro, a confiança e as relações. Budistamente, o importante não é odiar o desejo em si, mas ordenar o desejo para que ele não fira os outros nem perturbe a própria mente.


Em seguida, os preceitos relacionados à fala são: não mentir, não usar palavras frívolas, não usar palavras agressivas e não usar palavras que dividem.


4. Não mentir significa não dizer falsidades. A mentira não apenas destrói a confiança das pessoas, mas também obscurece o próprio coração. Além disso, manter uma mentira dificulta a prática budista. Uma mentira precisa ser mantida conscientemente. Se for uma mentira entre amigos, enquanto se está com esse amigo será preciso ajustar continuamente as palavras e os pensamentos para que a mentira não seja descoberta. Isso não apenas esgota a mente, como também pode se tornar um obstáculo da consciência durante a meditação budista.


Naturalmente, ao viver, às vezes escondemos a verdade ou nos justificamos de repente. Porém, é importante reconhecer que isso, em verdade, não é algo bom. Não

se está exigindo que ninguém jamais minta de forma absolutamente perfeita. Contudo, se esse estado for simplesmente aceito, ele nunca será melhorado. Mesmo uma pequena sensação de culpa pode, pouco a pouco, nos fazer caminhar naturalmente por um caminho melhor.


A ordem de Mahāvairocana é perfeitamente pura e límpida. Justamente porque no amor materno não existe nenhuma mentira, ele é maravilhoso. Quanto menos uma pessoa mente, mais ela consegue se harmonizar com a ordem de Mahāvairocana. E a autoconfiança começa a transbordar. A coragem e a força brotam daí.


5. Não usar palavras frívolas significa evitar palavras bonitas sem verdade, palavras irresponsáveis e palavras que dispersam a mente. Isso não nega piadas ou conversas alegres. O problema surge quando as palavras perturbam o coração das pessoas, espalham-se irresponsavelmente e se afastam da verdade e da consideração. A prática de não usar palavras frívolas é não tratar a linguagem levianamente, mas escolher palavras necessárias, sinceras e capazes de sustentar o outro.

Por exemplo, elogiar alguém em excesso e fazê-lo se sentir vaidoso também é algo a

ser evitado.


6. Não usar palavras agressivas significa não empregar palavras que ferem as pessoas. Palavras ditas sob domínio da raiva, palavras insultuosas e palavras que destroem a dignidade de alguém ferem profundamente, assim como a violência física. No Budismo, considera-se que as palavras também produzem karma.


Karma é uma ação acompanhada de intenção; essa ação deixa marcas impuras no próprio coração e se torna causa de sofrimento futuro. Por isso, este preceito nos encoraja, mesmo quando ocorre algum problema, a escolher palavras que não culpem o outro, mas que aprofundem a compreensão com calma, baseadas em empatia e consideração. Isso porque, ao compreender a originação dependente, percebemos que, em sentido último, ninguém possui realmente o direito de condenar

e acusar outro ser humano.


Naturalmente, dentro da sociedade, sanções e prisões são necessárias. Mas, em sentido último, não há neste mundo sequer uma pessoa que seja um verdadeiro pecador absoluto.


7. Não usar palavras que dividem significa não empregar palavras que separam uma pessoa da outra. Fofocas, intrigas, duplicidade e palavras que destroem relações humanas produzem desconfiança e conflito na comunidade. O preceito de não usar palavras que dividem não significa que basta permanecer calado. Pelo contrário, pede que usemos palavras capazes de suavizar conflitos, desfazer mal-entendidos e religar as pessoas. A palavra pode ser instrumento de divisão, mas também pode ser instrumento de harmonia.


Em seguida, os preceitos relacionados à mente são: não cobiçar, não cultivar raiva e não cair em visões erradas.


8. Não cobiçar significa não ser dominado pela ganância. Cobiça é o coração que retém, deseja em excesso e quer mais do que o necessário. O coração que pensa “quero mais”, “não quero perder”, “quero que seja só meu” torna a pessoa ansiosa e produz comparação e inveja em relação aos outros. A prática de não cobiçar é saber o

suficiente. É perceber aquilo que já nos foi dado, afrouxar gradualmente o apego e cultivar a capacidade de compartilhar com os outros.


9. Não cultivar raiva significa não ser dominado pela ira. A raiva surge quando o coração reage violentamente a uma realidade que não se ajusta ao que desejamos. Naturalmente, para nós, seres comuns, é difícil evitar que a emoção da raiva surja por

um instante. “Ser comum” significa uma pessoa comum que ainda não cortou completamente as aflições mentais. Contudo, se somos engolidos por essa raiva e ferimos os outros por palavras ou ações, o sofrimento se espalha ainda mais. Não cultivar raiva significa não justificar e alimentar continuamente a raiva, mas percebê-la, serená-la e transformá-la em compaixão.


10. Não cair em visões erradas significa não se prender a modos equivocados de ver. No Budismo, visão errada não significa uma simples diferença de opinião. Significa negar a causalidade, não enxergar a originação dependente, acreditar que apenas nós estamos certos e ver as coisas de modo parcial. Causalidade é a relação entre causa e efeito.


Originação dependente é a doutrina fundamental budista segundo a qual todos os fenômenos não existem isoladamente, mas surgem por inúmeras causas e condições. Quando caímos em visões erradas, já não conseguimos perceber que nossas próprias ações produzem sofrimento. A prática de não cair em visões erradas é tentar ver as coisas, tanto quanto possível, como elas realmente são. É contemplar a causalidade, compreender a originação dependente, aceitar a impermanência e ver o mundo por meio da sabedoria.


Desse modo, os Dez Preceitos Bons não são apenas uma lista de “coisas proibidas”.

Eles são uma prática concreta para purificar o corpo, a fala e a mente. Não ferir com o

corpo, não ferir com a fala e não cultivar no coração a ganância, a raiva e os modos

errados de ver. O acúmulo dessas práticas transforma a própria vida.


No Sutra do Caminho dos Dez Bons Karmas, ensina-se que os karmas do corpo, da fala e da mente moldam as condições da existência. Ou seja, conforme a maneira como agimos, falamos e cultivamos a mente, vão se formando o sofrimento ou a

tranquilidade do futuro.


Os Dez Preceitos Bons não são simples regras da sociedade humana. São a base para afastar-se do sofrimento dentro do ciclo do renascimento, avançar para destinos felizes e, além disso, caminhar pela via do Buda.


No Budismo Mahāyāna², esses Dez Preceitos Bons são aprofundados ainda mais dentro do caminho do Bodhisattva. Bodhisattva é aquele que não busca apenas seu próprio despertar, mas caminha desejando a salvação de todos os seres.


O Bodhisattva não pensa que basta ele mesmo ser puro. Ele próprio pratica os Dez Preceitos Bons, transmite aos outros a importância desses preceitos e trabalha para interromper a cadeia dos karmas negativos.


Os preceitos não são apenas uma prática pessoal; são também uma prática para afastar os outros e a sociedade do sofrimento.


Também no Budismo Esotérico Shingon, os Dez Preceitos Bons são uma base

importante. No Budismo Esotérico, dá-se importância a harmonizar o corpo, a fala e a

mente com os três mistérios do Tathāgata: o corpo, a fala e a mente do Buda. Purifica-

se o corpo e fazem-se mudrās³; purifica-se a fala e recitam-se mantras; purifica-se a

mente e contempla-se a divindade principal.


Contudo, se o corpo, a fala e a mente da vida cotidiana permanecerem desordenados, a prática dos três mistérios não se aprofundará. Por isso, purificar os três karmas por meio dos Dez Preceitos Bons é também a base da prática esotérica.


Do ponto de vista do Zen⁴, observar os preceitos não significa tornar-se um ser humano perfeito que jamais erra. O importante é perceber o desvio e retornar imediatamente ao caminho original. Enquanto formos seres comuns, ganância e raiva surgirão na mente, e poderemos errar nas palavras e nas ações. Contudo, se conseguirmos perceber esse momento, podemos retornar a partir daí. Ao repetir essa “percepção e retorno”, os preceitos se enraízam na vida cotidiana.


Do ponto de vista da escola Yogācāra⁵, os Dez Preceitos Bons também são uma prática que transforma a maneira como a mente reconhece o mundo. Yogācāra é o

pensamento Mahāyāna que vê que o mundo que experimentamos está profundamente relacionado com a atividade da mente. Uma mente manchada por ganância, raiva e ignorância vê o mundo como cheio de conflito, ansiedade e insatisfação. Porém, quando a mente é purificada pelos preceitos, no mesmo mundo começam a aparecer a originação dependente, a graça recebida, a interdependência e a possibilidade da compaixão.


Os preceitos não apenas ordenam as ações externas; eles transformam a própria maneira de ver o mundo.


Além disso, os Dez Preceitos Bons se aprofundam quando se unem aos Quatro

Imensuráveis: benevolência, compaixão, alegria e equanimidade.


A benevolência é o coração que deseja a felicidade dos outros.

A compaixão é o coração que deseja remover o sofrimento dos outros.

A alegria é o coração que se alegra com a felicidade dos outros.

A equanimidade é o coração imparcial, livre de apego e inclinação.


Se uma pessoa que observa os preceitos despreza os outros ou pensa que apenas ela está correta, essa observância dos preceitos se torna um novo apego. A verdadeira observância dos preceitos está ligada a uma serena equanimidade. A maturidade dos preceitos está em fazer o bem sem se tornar arrogante, sem culpar os outros, apenas diminuindo o sofrimento e expandindo a sabedoria e a compaixão.


Em conclusão, os Dez Preceitos Bons são um método budista de purificação integral do corpo, da fala e da mente. Eles não são regras que aprisionam rigidamente o ser

humano, mas um caminho para ordenar, na direção da sabedoria e da compaixão, a

vida desordenada pela ganância, pela raiva e pela ignorância.


Observar os preceitos não é apenas evitar o mal. É proteger a vida, compartilhar, falar com sinceridade, não ferir as pessoas, gerar harmonia, purificar a mente e ver corretamente o mundo.


Para iniciantes, não é necessário compreender os Dez Preceitos Bons como uma teoria difícil. O primeiro passo é simplesmente observar um pouco, todos os dias, o próprio corpo, a própria fala e a própria mente. Hoje eu feri alguém? Deixei alguém inseguro com minhas palavras? Cultivei demais a raiva ou a ganância dentro da mente?


Se perceber um erro, isso não é o fim. O instante em que se percebe o erro é a porta de retorno aos preceitos.


No cotidiano, perceber os próprios erros e fazer o corpo, a fala e a mente retornarem aos preceitos. Essa repetição é a prática da observância dos preceitos no Budismo.


Os preceitos não são algo que aprisiona a pessoa de fora; são algo que a liberta por

dentro. São uma bússola espiritual silenciosa e poderosa para cortar as causas do

sofrimento, proteger a si mesmo e aos outros, e caminhar pela via do Buda.



Notas explicativas

  1. Preceitos — No Budismo, os preceitos (śīla) são princípios de conduta que orientam a prática ética do caminho espiritual. Mais do que regras externas, eles são compreendidos como um treinamento interior que visa harmonizar o corpo, a fala e a mente, reduzindo ações que geram sofrimento para si e para os outros.


  2. Budismo Mahāyāna — Uma das grandes tradições do Budismo. O termo Mahāyāna significa “Grande Veículo” e expressa o ideal de buscar o despertar não apenas para si mesmo, mas em benefício de todos os seres sencientes. Nessa tradição, ganha destaque o caminho do bodhisattva, que cultiva sabedoria e compaixão e faz o voto de conduzir todos os seres ao despertar. O Budismo Esotérico Shingon desenvolveu-se dentro da tradição Mahāyāna.


  3. Mudrās  São gestos e posições simbólicas das mãos e do corpo utilizados nas práticas budistas esotéricas. Representam estados espirituais, ensinamentos e atividades do Buda, sendo empregados como forma de concentração, meditação e união com a sabedoria búdica.


  4. ZenÉ uma tradição do Budismo Mahāyāna que enfatiza a prática direta da experiência da realidade, além do estudo conceitual das escrituras. Sua ênfase está na vivência imediata do “aqui e agora”, por meio da meditação sentada (zazen) e da atenção plena em cada ação cotidiana.


  5. Escola Yogācāra — Também conhecida como “Somente Consciência” (vijñaptimātra), é uma importante tradição do Budismo Mahāyāna desenvolvida na Índia entre os séculos IV e V. Seu principal foco é a análise profunda da mente e da experiência, investigando como os fenômenos são percebidos e como surgem as ilusões que dão origem ao sofrimento.

“On bōji-shitta boda-hadayami.”

“Oṃ bodhicittam utpādayāmi.”

Eu desperto dentro de mim o coração que busca o despertar.


Explicação

O Mantra do Despertar da Bodhicitta é um mantra muito importante na prática diária da tradição Shingon.


Em poucas palavras, significa: “Eu desperto a bodhicitta.”


Bodhi significa despertar, e bodhicitta é o coração que se volta para o despertar do

Buda. Ao mesmo tempo, é o coração fundamental do Budismo Mahāyāna: não buscar

a salvação apenas para si mesmo, mas caminhar pela via do Buda junto com todos os seres.


Em outras palavras, despertar a bodhicitta significa despertar no coração esta decisão:

“Eu caminharei pela via do Buda.”

No entanto, no Budismo Esotérico Shingon, o despertar da bodhicitta possui um

sentido ainda mais profundo.


No Budismo Esotérico, o Buda não é apenas um ideal situado em um lugar distante.

Por meio da prática dos três mistérios, o corpo, a fala e a mente do praticante podem se harmonizar com o corpo, a fala e a mente do Buda. Ou seja, a sabedoria e a compaixão do Buda não são compreendidas apenas como uma salvação que vem de fora, mas como algo que pode manifestar-se através do corpo, da fala e da mente do próprio praticante.


Portanto, trata-se de voltar novamente o próprio corpo, fala e mente para a direção do Buda e despertar, aqui e agora, o coração capaz de se harmonizar com a sabedoria e a compaixão do Buda.


Nossa mente, normalmente, é arrastada pelos próprios desejos, ansiedades, raivas,

apegos e interesses. No centro disso há, muitas vezes, um egoísmo latente que pensa: “Quero que apenas eu seja satisfeito”, “Quero que apenas eu seja protegido.”


O Mantra do Despertar da Bodhicitta é o mantra que vai destruindo essa negatividade

e esse karma ocultos.


Eu não caminho apenas para a minha própria felicidade, mas sigo pela via do Buda junto com todos os seres vivos.


Eu abro este corpo, esta palavra e esta mente para a sabedoria e a compaixão do Buda.

Esta decisão é a bodhicitta.


Por isso, o Mantra do Despertar da Bodhicitta não é uma simples palavra de pedido. É

uma mudança de direção para caminhar pela via do Buda. É o instante em que o coração do ser comum se levanta em direção ao coração do Bodhisattva.


O significado de recitar este mantra dentro da prática diária é muito grande. Antes de

recitar sutras e mantras, ele esclarece primeiro o propósito da prática.


Não é apenas para realizar desejos.

Não é apenas para evitar infortúnios.

Não é apenas para aumentar conhecimentos.

É para tornar-se Buda.

É para beneficiar todos os seres.

É para harmonizar o próprio corpo, fala e mente com o corpo, fala e mente do Buda.


O Mantra do Despertar da Bodhicitta é o mantra que nos coloca nesse ponto de partida.

“On sanmaya satoban.”

“Oṃ samaya sattvaṃ.”

Você é um ser do samaya, isto é, alguém que permanece no voto sagrado.


Explicação

O Mantra do Preceito Samaya possui um significado muito profundo no Budismo

Esotérico Shingon.


Aqui, o ponto essencial é a palavra “samaya”.

Samaya significa, de modo simples, “voto”, “pacto”, “promessa”, “voto original” ou “vínculo”. No Budismo Esotérico, ela expressa a profunda relação de compromisso

estabelecida entre o Buda e o praticante.


Portanto, o Preceito Samaya não significa apenas uma regra moral comum.

Naturalmente, como é um “preceito”, ele também possui o sentido de corrigir a conduta e afastar-se do mal.


Contudo, o Preceito Samaya não é simplesmente um preceito geral do tipo “não faça

coisas ruins”. É o compromisso fundamental que aquele que entra no Budismo

Esotérico Shingon estabelece com o Buda.


Então, o que se promete?

No sentido mais profundo, promete-se não perder a bodhicitta.

Não se afastar da sabedoria e da compaixão do Buda, esforçando-se também para se

harmonizar com elas.

Não esquecer o coração que beneficia todos os seres.

Isto é o Preceito Samaya.


No Mantra do Despertar da Bodhicitta, desperta-se a bodhicitta.

No Mantra do Preceito Samaya, essa bodhicitta é preservada como compromisso com o Buda.


Esses dois mantras não se repetem inutilmente.

O despertar da bodhicitta é o surgimento do coração voltado ao Buda.

O Preceito Samaya é preservar esse coração como compromisso com o Buda.


Em outras palavras, se o Mantra do Despertar da Bodhicitta é o mantra que desperta o coração dizendo “eu caminharei pela via do Buda”, o Mantra do Preceito Samaya é o mantra que promete: “Não me afastarei desse caminho e colocarei a mim mesmo dentro do voto estabelecido com o Buda.”


Ao recitar o Mantra do Preceito Samaya, o praticante compreende: “Eu estou sempre

ligado ao Buda.”


Visto dentro do fluxo da prática diária, a posição deste mantra é extremamente

importante.


Por meio da confissão, purifica-se a mente.

Por meio do Tríplice Refúgio, toma-se refúgio no Buda, no Dharma e na Sangha.

Por meio dos Dez Preceitos Bons, corrige-se o corpo, a fala e a mente.

Por meio do Despertar da Bodhicitta, desperta-se o coração voltado ao despertar.

E, por meio do Preceito Samaya, esse coração é preservado como compromisso esotérico.


Ao recitar os mantras depois dessa preparação, a prática se torna um palco do Budismo Esotérico.


Ela deixa de ser uma prática baseada nos desejos pessoais e se torna uma prática de realização do estado de Buda neste próprio corpo e de salvação de todos os seres.

Prajñāpāramitā-hṛdaya-sūtra


Tradução moderna para iniciantes

O Bodhisattva Avalokiteśvara¹, que praticava a profunda sabedoria, contemplou

profundamente a si mesmo e o mundo. Então, viu claramente que o corpo, as sensações, as imagens mentais, as vontades e hábitos, e as atividades da consciência que compõem o ser humano não são, em si, o “eu”.


Naquele momento, Avalokiteśvara superou todo o sofrimento.


Ó Śāriputra.


Nosso corpo e o mundo material não possuem uma substância fixa.

Mas isso não significa que eles não existam.


Tudo o que possui forma surge por causas e condições. Por isso, não possui substância própria. E justamente por não possuir substância própria, pode manifestar-se como algo que possui forma.


Em outras palavras, aquilo que tem forma é vazio, e o vazio não existe separado

daquilo que tem forma.


Assim como ocorre com o corpo, também as sensações, as imagens que surgem na

mente, as vontades e hábitos, e as atividades da consciência não possuem substância própria.


Ó Śāriputra.


Todas as coisas existem desse modo, como vazio.

Todas as coisas não nascem nem morrem. Não são impuras nem puras. Não

aumentam nem diminuem.


Portanto, quando vistas pela sabedoria do vazio, corpo, sensações, imagens mentais,

vontades e hábitos, e atividades da consciência não existem como substâncias fixas.


Olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente também não existem como substâncias

fixas.


Aquilo que se vê, aquilo que se ouve, aromas, sabores, objetos tocados e aquilo que

surge na mente também não existem como substâncias fixas.


Desde a atividade de ver com os olhos até a atividade de pensar com a mente, toda a

nossa cognição também não se estabelece como substância fixa.


A ignorância fundamental também não existe como substância fixa. Por isso, o desaparecimento dessa ignorância também não existe como substância fixa.


Da mesma forma, velhice e morte também não existem como substâncias fixas. Por

isso, o desaparecimento da velhice e da morte também não existe como substância fixa.


Os ensinamentos do Buda, a sabedoria e o despertar também não possuem substância fixa.


Isso porque nem o “eu” que obtém algo, nem algum objeto obtido como algo

separado, existem por si mesmos.


O Bodhisattva, sustentado por essa profunda sabedoria, não possui obstáculos no

coração.


Como não há obstáculos no coração, não há medo.


Como não há medo, ele se afasta das visões invertidas e das ilusões, chegando ao

Nirvāṇa, a profunda paz.


Todos os Budas do passado, do presente e do futuro também realizam o despertar

completo e insuperável por meio dessa profunda sabedoria.


Portanto, deve-se saber:

Esta profunda sabedoria é o grande mantra misterioso. É o grande mantra da

sabedoria. É o mantra supremo. É o mantra incomparável.

Esta sabedoria possui a força de remover todos os sofrimentos.

Isto é verdadeiro e não é falso.


Por isso, proclama-se o mantra desta profunda sabedoria:

Gate gate pāragate pārasaṃgate bodhi svāhā.


Este é o Sutra do Coração.


Explicação do Sutra do Coração

O Sutra do Coração é um dos sutras mais amplamente recitados no Budismo.

É um sutra curto, mas nele se revela o que é a sabedoria budista.


Esse ensinamento diz:

“Sofremos porque nos agarramos às coisas como se fossem fixas.”

Nós reunimos corpo, emoções, memórias, pensamentos e consciência e pensamos:

“Isto sou eu.” Meu corpo, minha mente, meu passado, minhas ansiedades, meus

desejos. Agarramo-nos fortemente a essas coisas e pensamos: “Isto eu não quero

perder”, “Isto eu não quero que mude jamais.”


Contudo, ao observarmos cuidadosamente, percebemos que corpo e mente, emoções

e pensamentos estão sempre mudando. E eles não existem isoladamente por si

mesmos; surgem por várias condições.


Tomemos como exemplo uma nuvem.

A nuvem aparece no céu e parece possuir forma. Contudo, essa nuvem não existe

isoladamente apenas como nuvem. Vapor de água, vento, temperatura, umidade,

pressão atmosférica, calor do sol e várias outras condições se reúnem, e por isso ela

aparece temporariamente como nuvem.


Aqui, vamos revisar as doutrinas fundamentais do Budismo apresentadas anteriormente: impermanência, originação dependente e não-eu.


Quando as condições mudam, a forma da nuvem também muda. Em seguida, ela se

torna chuva, neblina ou desaparece da visão. Ou seja, a nuvem continua mudando. Isto é impermanência.


Além disso, a nuvem é formada por muitas condições. Ela não existe independentemente, sozinha. Isto é originação dependente.


Além disso, dentro da nuvem não há algo que se possa chamar de “o corpo essencial e imutável da nuvem”. A nuvem certamente aparece, mas não existe como uma

substância fixa e independente. Isto é não-eu.


O mesmo ocorre com a nossa mente.

Às vezes, a ansiedade aparece. A tristeza também pode aparecer. A raiva também

pode aparecer. Contudo, elas não aparecem subitamente sem nenhuma razão. Elas

surgem por várias condições: cansaço físico, memórias do passado, relações humanas, ambiente, palavras, expectativas, medo, apego e assim por diante.


E a ansiedade, a tristeza e a raiva não continuam sempre da mesma forma. Ficam mais fortes, mais fracas, transformam-se em outras emoções ou, com o tempo,

desaparecem.


Além disso, essas emoções não são “a minha essência”. O fato de haver esses

sofrimentos não significa que eu mesmo seja sofrimento.


Elas são atividades da mente que surgem por condições, mudam por condições e

desaparecem por condições. Justamente por isso, quando reconhecemos corretamente, podemos nos libertar do sofrimento.


O “vazio” ensinado pelo Sutra do Coração é a sabedoria que compreende

profundamente essa impermanência, originação dependente e não-eu. Todas as coisas mudam, são formadas por relações e não possuem substância fixa.


A sabedoria budista é realmente compreender isso.

Nesse momento, abre-se um mundo verdadeiramente livre: um mundo livre do

sofrimento, do mal, do prazer ilusório e do apego. Só então podem aparecer a verdadeira alegria e a verdadeira benevolência.


No início do sutra, ensina-se que o Bodhisattva Avalokiteśvara, ao praticar profundamente a Prajñāpāramitā², viu que os cinco agregados são todos vazios.


Os cinco agregados são os cinco elementos que compõem aquilo que chamamos de

nós mesmos: corpo, sensações, imagens mentais, formações da mente e consciência.


Nós pensamos que eles são “o eu em si”. Contudo, Avalokiteśvara viu que eles não são substâncias fixas, mas realidades temporariamente formadas por várias condições.


Isto é “os cinco agregados são todos vazios”.


Aqui, o ponto importante é que Avalokiteśvara não compreendeu o vazio apenas com

a cabeça. Avalokiteśvara praticou profundamente a Prajñāpāramitā.


Prajñāpāramitā significa a profunda sabedoria levada à perfeição.


Portanto, essa sabedoria não é algo que se aprende apenas como conhecimento. É

uma prática: acalmar a mente, observar a si mesmo, contemplar os movimentos do

corpo, das emoções e dos pensamentos, e soltar o apego à substância que está por

trás deles.


O Sutra do Coração não é apenas uma explicação de doutrina; é também um sutra que transforma o coração por meio da prática da Prajñāpāramitā, isto é, da sabedoria. Ou seja, este sutra não apenas explica “o que é o vazio/sabedoria”, mas nos conduz

diretamente ao vazio/sabedoria.


O Sutra do Coração não é um sutra que nega a realidade. É um sutra que desfaz

silenciosamente o coração que se agarra à realidade como se ela fosse fixa.


Se nos colocamos sobre a verdade chamada “vazio”, tudo é “não”.

Por isso, este sutra é, em sentido muito profundo, um sutra da liberdade.


Neste mundo não há valor algum ao qual devamos nos apegar ou temer.

Somente nesse mundo livre podemos encontrar aquilo que possui verdadeiro valor.

Por isso, o Sutra do Coração repete tantas vezes a palavra “não”.


Na segunda metade do sutra, ensina-se “coração sem obstáculos”. Isso significa que

não há impedimentos no coração. Como não há impedimentos no coração, não há

medo. Como não há medo, a pessoa se afasta dos pensamentos ilusórios e caminha para a paz suprema.


E o Sutra do Coração chega, ao final, ao mantra:

Gate gate pāragate pārasaṃgate bodhi svāhā.


Este mantra, tradicionalmente, não é traduzido.


A principal razão é que um mantra não é uma frase cujo valor esteja apenas em “compreender o significado”. Ele é uma fórmula sagrada cujo valor está no próprio som e na tradição venerável que acompanha esse som.


Além disso, em gate gate pāragate pārasaṃgate bodhi svāhā, não é possível determinar academicamente, de forma definitiva, o sentido exato de cada palavra. Ainda assim, é possível oferecer uma explicação aproximada do significado.


gate = vai

pāragate = vai para a outra margem

pārasaṃgate = vai completamente para a outra margem 

bodhi = despertar, iluminação

svāhā = que se realize; que seja auspicioso; salve


Assim, uma tradução aproximada seria:

“Vai, vai, vai para a outra margem, vai completamente para a outra margem. Despertar, svāhā.”


No entanto, essa tradução deve ser entendida apenas como referência explicativa.


Os praticantes devem herdar essa tradição de respeito por esta fórmula sagrada, que não recebeu um significado como uma “ferramenta” para a vida cotidiana, como acontece com as palavras comuns.


E o próprio fato de seu sentido permanecer sempre livremente aberto expressa três ensinamentos fundamentais do Budismo: impermanência, originação dependente e não-eu, isto é, a sabedoria.


Esse próprio estado conduz à sabedoria.


Contudo, se for recebido profundamente do ponto de vista esotérico, esse mantra

final não é apenas uma frase de encerramento. Kōbō Daishi³ Kūkai ensinou que o Sutra do Coração é um sutra que se abre ao grande mantra da Bodhisattva Prajñā⁴.


Em outras palavras, o mantra final é também o centro para o qual todo o sutra se dirigia.


É um louvor à Prajñāpāramitā, isto é, à sabedoria plenamente compreendida, e uma

palavra de profunda fé.


No Budismo, quanto mais profundamente se compreende a palavra “sabedoria”, mais

se percebe seu verdadeiro valor. Por isso, a sabedoria plenamente compreendida é

chamada Prajñāpāramitā e foi venerada como a fonte que dá origem a todos os Budas, isto é, como a Mãe dos Budas.

Essa Mãe dos Budas é a Bodhisattva Prajñā.


Quando se vê tudo como vazio, quando se compreende tudo como “não” e se alcança

a liberdade, é então que pela primeira vez se manifesta a compaixão do Buda, a Bodhisattva Prajñā.


O verdadeiro perdão e a verdadeira empatia pelos outros, nascidos do vazio.

A coragem de não fugir do sofrimento, mas superá-lo por meio da sabedoria.

O milagre deste mundo e sua verdadeira beleza, vistos a partir do mundo livre.

O Sutra do Coração é o som de profunda devoção à Bodhisattva Prajñā.

É um louvor à Mãe da Sabedoria.

É uma oração à grande sabedoria, da qual nasce a verdadeira benevolência, para além dos apegos pessoais.



Notas explicativas

  1. Bodhisattva Avalokiteśvara — Conhecido no Japão como Kannon, é uma das figuras mais veneradas do Budismo Mahāyāna. Seu nome significa “Aquele que contempla os sons do mundo”, indicando sua profunda compaixão ao perceber os sofrimentos dos seres e responder a eles com auxílio.


    Avalokiteśvara representa o ideal do bodhisattva: um ser que, movido pela compaixão, adia sua própria entrada definitiva no nirvana para auxiliar todos os seres na libertação do sofrimento. Por isso, é associado à escuta atenta das vozes do mundo e à resposta compassiva que se manifesta de diferentes formas, conforme a necessidade de cada ser.


    Em muitas tradições, ele é considerado a personificação da compaixão universal (karuṇā). Sua presença simboliza a certeza de que nenhum sofrimento passa despercebido e que sempre há uma resposta compassiva disponível para aqueles que buscam refúgio.


  2. Prajñāpāramitā —  Traduzida como “Perfeição da Sabedoria”, é um dos conceitos centrais do Budismo Mahāyāna. Refere-se à sabedoria profunda que compreende a natureza última da realidade, transcendendo percepções comuns baseadas no apego ao eu e aos fenômenos.


  3. Kōbō Daishi — Título honorífico concedido postumamente a Kūkai (774–835), fundador da Escola Shingon no Japão. O título significa “Grande Mestre que Propagou o Dharma”. Na tradição Shingon, Kōbō Daishi é venerado não apenas como mestre e patriarca, mas também como modelo de prática, sabedoria e compaixão, permanecendo até hoje como guia espiritual dos praticantes.


  4. Bodhisattva Prajñā — Representa o princípio da sabedoria no Budismo Mahāyāna. O termo prajñā significa “sabedoria profunda” ou “discernimento transcendente”, referindo-se à compreensão direta da natureza da realidade, para além das construções conceituais e do apego ao eu.


    Mais do que uma figura histórica ou individual, Prajñā pode ser entendida como a personificação da sabedoria que ilumina o caminho do despertar. Essa sabedoria é caracterizada pela percepção da vacuidade (śūnyatā), isto é, a compreensão de que todos os fenômenos são interdependentes, impermanentes e desprovidos de existência fixa e independente.


    No caminho do bodhisattva, a sabedoria (prajñā) atua em conjunto com a compaixão (karuṇā), orientando ações hábeis que conduzem os seres à libertação do sofrimento. Dessa forma, Prajñā não é apenas conhecimento, mas uma visão liberadora que transforma a maneira de perceber e viver a realidade.

Explicação dos Treze Budas

1. Fudō Myōō

Fudō Myōō

Fudō Myōō, em sentido estrito, não é nem Buda nem Bodhisattva, mas uma divindade chamada Myōō, isto é, Vidyārāja. Um Myōō é a sabedoria e a compaixão do Buda que assumem uma forma poderosa para destruir a ilusão.


No Budismo Esotérico Shingon, Fudō Myōō está profundamente ligado a Mahāvairocana. Mahāvairocana é o Buda fundamental que governa todos os mundos. A sabedoria e a compaixão de Mahāvairocana assumem a forma irada para cortar o apego e a ilusão, e para proteger o praticante: isso é Fudō Myōō.


Portanto, a ira de Fudō Myōō não é ódio. É a ira compassiva destinada a salvar os seres. Diante de ilusões teimosas que não se movem apenas por ensinamentos suaves, Fudō Myōō aparece em forma severa e as corta.


A espada na mão direita simboliza a sabedoria que corta o mal, o apego e o desejo. A corda-laço na mão esquerda simboliza a compaixão que captura e conduz os seres que estão na ilusão. As chamas atrás dele representam a força do Buda que queima e purifica as aflições mentais.


Mantra:

“Nomaku sanmanda bazaradan senda makaroshada sowataya un tarata kanman.”

Fudō Myōō também possui um mantra abreviado:

“Nōmaku sanmanda bazaradan kan.”

Forma em sânscrito:

“Namaḥ samanta-vajrāṇāṃ hāṃ.”


O sentido devocional deste mantra é: “Tomo refúgio em todos os seres vajra.”

As divindades da família vajra são seres sagrados ligados à força, à disciplina e à remoção de obstáculos.


Fudō Myōō é considerado mensageiro de Mahāvairocana. É representado como uma divindade irada de cor azul-escura ou negra, segurando uma espada na mão direita. Com essa espada, corta os maus desejos, a raiva, o orgulho e a descrença dos seres humanos. Na mão esquerda segura uma corda-laço, com a qual controla e subjuga nossa mente errante, conduzindo-a à verdadeira autocompreensão e ao despertar. As chamas ao redor de Fudō Myōō simbolizam seu voto de queimar e purificar as aflições humanas.

2. Śākyamuni Tathāgata

Śākyamuni Buda

A segunda divindade é Śākyamuni Buda, o fundador histórico do Budismo. Aos olhos dos budistas, ele alcançou o estado supremo de Buda a partir da mesma condição humana que nós. Em sua realização espiritual, é um mestre incomparável.


Mantra:

“Nomaku sanmanda bodanan baku.”

Forma em sânscrito:

“Namaḥ samanta-buddhānāṃ bhaḥ.”


Sentido devocional: “Tomo refúgio em todos os Budas. Bhaḥ.”

3. Mañjuśrī Bodhisattva

Monju Bosatsu

A terceira divindade é Mañjuśrī Bodhisattva, isto é, Monju Bosatsu, que aparece em várias formas. Na forma mais comum, ele aparece segurando uma espada na mão direita e uma flor de lótus na mão esquerda.


A espada simboliza a sabedoria que corta a ignorância e distingue a verdade da ilusão. A flor de lótus simboliza a natureza da alma humana, que jamais é maculada, assim como o lótus floresce belamente a partir da lama.


Mañjuśrī simboliza a sabedoria e é considerado protetor dos estudos, da compreensão e das atividades intelectuais. Contudo, a sabedoria que ele irradia ultrapassa a inteligência mundana, e por meio dela o buscador compreenderá a essência deste mundo.


Mantra:

“On arahashano.”

Forma em sânscrito:

“Oṃ a ra pa ca na.”


Como Mañjuśrī simboliza tanto o estudo quanto a sabedoria transcendente, o mantra “A ra pa ca na”, ligado às antigas sequências silábicas indianas, é considerado especialmente adequado.


Em representações que não pertencem diretamente à tradição Shingon, Mañjuśrī frequentemente é retratado sentado sobre um leão, segurando uma espada e um livro.



4. Samantabhadra Bodhisattva

Fugen Bosatsu

A quarta divindade é Samantabhadra Bodhisattva, isto é, Fugen Bosatsu.

Samantabhadra é o protetor da prática religiosa, ou seja, o protetor daqueles que buscam o despertar por meio de votos, meditação, preceitos e ações compassivas.


Para alcançar o despertar, Samantabhadra estabeleceu os Dez Grandes Votos: prestar reverência aos Budas com profunda fé; louvar os Budas; fazer oferendas aos Budas; confessar sinceramente as próprias faltas; alegrar-se com os méritos dos Budas e dos seres; pedir aos Budas que exponham o Dharma; pedir aos Budas que permaneçam neste mundo; aprender os ensinamentos daqueles que já alcançaram o despertar; respeitar e beneficiar todos os seres; e dedicar universalmente os méritos desses votos.


Esses votos continuam sendo, ainda hoje, uma orientação para aqueles que desejam caminhar pela via da Terra do Buda.


Mantra:

“On sanmaya satoban.”

Forma em sânscrito:

“Oṃ samaya sattvaṃ.”


Sentido devocional: “Óṃ. Você é um ser do samaya, isto é, alguém que permanece no voto sagrado.”

5. Kṣitigarbha Bodhisattva

Jizō Bosatsu

A quinta divindade é Kṣitigarbha Bodhisattva, isto é, Jizō Bosatsu. Jizō é considerado mestre e protetor dos seres que sofrem dentro dos seis caminhos do renascimento.


Esses seis caminhos são: infernos, espíritos famintos, animais, seres combativos, humanos e deuses.


A compaixão de Jizō é tão profunda que até mesmo os seres que estão nos infernos, se recitarem seu nome com sinceridade, podem receber sua ajuda compassiva.


Jizō é representado com a cabeça raspada e vestindo robes monásticos. Ele é um dos seres sagrados mais próximos daqueles que estão maculados. Isso porque aparece nos lugares de sofrimento para sustentar aqueles que estão perdidos, enfraquecidos e abandonados.


Ele também é protetor dos mizuko¹ e das crianças.


O nome Kṣitigarbha significa “ventre da terra” ou “tesouro da terra”, indicando a força que acolhe e salva todos os seres vivos.


Mantra:

“On ka ka ka bi sanmaei sowaka.”

Forma em sânscrito:

“Oṃ ha ha ha vismaye svāhā.”


Este mantra é singular. “Ha, ha, ha” pode ser compreendido como expressão de júbilo² espiritual. “Vismaye” aponta para o poder admirável, a majestade e a força compassiva de Jizō. Assim, seu sentido devocional pode ser expresso do seguinte modo:


“Óṃ. Ha, ha, ha — louvo Jizō, dotado de poder compassivo admirável. Svāhā.”


Notas explicativas

  1. Mizuko (水子) — É um termo japonês que significa literalmente “criança da água” e é tradicionalmente usado para se referir a crianças que morreram antes ou logo após o nascimento, incluindo casos de aborto espontâneo, aborto induzido ou morte neonatal.


  2. Júbilo — Refere-se a uma alegria espiritual profunda, que não se limita a uma emoção comum ou momentânea, mas expressa um estado de exultação interior diante do sagrado.

6. Maitreya Bodhisattva

Miroku Bosatsu

A sexta divindade é Maitreya Bodhisattva, isto é, Miroku Bosatsu.


O nome Maitreya significa “aquele que possui benevolência”. Maitreya Bodhisattva ainda não é um Buda, mas um Bodhisattva; contudo, está destinado a aparecer no futuro neste mundo e tornar-se o próximo Buda.


Aqui, é necessário organizar um pouco o que significa “Buda” no Budismo.

O Buda que conhecemos como personagem histórico é Śākyamuni Buda. Śākyamuni Buda nasceu como ser humano na Índia antiga, praticou, alcançou o despertar e pregou os ensinamentos budistas. Nesse sentido, Śākyamuni Buda é o Buda histórico que ensinou neste mundo humano em nossa época.


Contudo, no Budismo Mahāyāna e no Budismo Esotérico, considera-se que o Buda não se limita a Śākyamuni. Isso porque a verdade do despertar não se restringe a este mundo, mas se manifesta através do passado, do presente, do futuro e de incontáveis mundos.


Por isso, no Budismo, são ensinados muitos Budas: Budas que apareceram no passado, Budas que aparecerão no futuro, Budas que habitam outras Terras Búdicas e Budas que expressam a própria verdade cósmica.


Por exemplo, Śākyamuni Buda é o Buda que apareceu neste mundo e ensinou.

Amitābha Tathāgata é o Buda que salva os seres na Terra Pura Ocidental.

Bhaiṣajyaguru Tathāgata é o Buda que possui o voto de curar doenças e sofrimentos.

Mahāvairocana é, no Budismo Esotérico Shingon, o Buda fundamental que expressa todo o universo e todo o Dharmadhātu como corpo, fala e mente do Buda.


Ou seja, os outros Budas não significam necessariamente personagens que

apareceram nesta Terra histórica e pregaram ensinamentos, como Śākyamuni Buda.


Antes, cada Buda é uma forma na qual a sabedoria, a compaixão, o voto e a atividade salvadora do despertar se expressam de modo diferente.


No Budismo, um Buda não é simplesmente um ser semelhante a um deus. Um Buda é aquele que despertou plenamente, afastou-se da ilusão e realizou completamente a sabedoria e a compaixão. E cada Buda possui votos e atividades próprias para salvar os seres.


Portanto, Śākyamuni Buda é o Buda histórico que ensinou em nossa época, enquanto os outros Budas são Budas que expressam diversas atividades de salvação dentro da vasta visão de mundo do Budismo Mahāyāna e do Budismo Esotérico.


Dentro disso, Maitreya Bodhisattva é o Buda que aparecerá neste mundo no futuro.


No Budismo, considera-se que o Buda que ensinou nesta época foi Śākyamuni Buda. Śākyamuni Buda nasceu na Índia, alcançou o despertar e pregou os ensinamentos budistas. Depois de encerrar sua vida, entrou no parinirvāṇa.


Parinirvāṇa significa que o Buda, ao terminar sua vida física neste mundo, entra no estado de paz completa.


Mais de dois mil e quinhentos anos já se passaram desde que Śākyamuni Buda entrou no parinirvāṇa. Contudo, no Budismo, não se considera que os ensinamentos de Śākyamuni permanecerão para sempre com a mesma força. À medida que o tempo avança, considera-se que o coração das pessoas fica coberto por ilusões e desejos, e que a capacidade de compreender e praticar corretamente os ensinamentos do Buda se enfraquece.


Naquele futuro distante, aquele que voltará a aparecer neste mundo, ensinará o

Dharma e salvará os seres do sofrimento é Maitreya Bodhisattva. Em outras palavras, Maitreya é o Buda de salvação que aparecerá no futuro, também chamado de Buda futuro.


Atualmente, Maitreya Bodhisattva ainda não apareceu neste mundo humano. Segundo a tradição, Maitreya está agora em um céu chamado Tuṣita, em japonês Tosotsu-ten.


Tuṣita é um dos céus da cosmologia budista e é considerado uma terra pura onde habitam os Bodhisattvas que se tornarão Budas no futuro.


Ali, Maitreya Bodhisattva ensina o Dharma aos deuses e aos seres celestiais,

aguardando o momento em que descerá a este mundo no futuro. “Descer” significa que o Bodhisattva deixa o céu, nasce no mundo humano e conduz as pessoas.


Portanto, Maitreya Bodhisattva não é apenas uma figura distante do futuro. Ele é também o símbolo da esperança de que o ensinamento do Buda voltará a iluminar o mundo.


Mantra:

“On maitareiya sowaka.”

Forma em sânscrito:

“Oṃ maitreya svāhā.”


Sentido devocional: “Óṃ. Maitreya, seja louvado. Svāhā.”

7. Bhaiṣajyaguru Tathāgata

Yakushi Nyorai

A sétima divindade é Bhaiṣajyaguru Tathāgata, conhecido como Yakushi Nyorai.


Bhaiṣajyaguru realizou os Doze Grandes Votos. Entre eles, destaca-se especialmente o voto de curar as doenças e aliviar os sofrimentos daqueles que recitam seu nome com fé.

Por isso, Bhaiṣajyaguru é chamado de “Mestre da Medicina”.


Bhaiṣajyaguru é frequentemente representado segurando um pote de remédio na mão esquerda. Isso simboliza a cura das doenças da alma.


Mantra:

“On koro koro sendari matōgi sowaka.”

Forma em sânscrito:

“Oṃ huru huru caṇḍālī mātaṅgī svāhā.”


Este mantra não pode ser traduzido de forma rigorosa. Como muitos mantras esotéricos, deve ser recebido como um som sagrado transmitido pela tradição.

8. Avalokiteśvara Bodhisattva

Kannon Bosatsu

A oitava divindade é Avalokiteśvara Bodhisattva, isto é, Kannon Bosatsu, também chamado de Kanzeon Bosatsu. É uma das divindades mais amplamente amadas no Budismo.


Na China e no Japão, às vezes assume uma forma feminina ou andrógina, e também é representado como símbolo do amor materno. Um dos sutras mais famosos relacionados a Kannon é o capítulo 25 do Sutra do Lótus, no qual se descreve a atividade compassiva de Kannon em benefício dos seres.


Com profunda compaixão por este mundo cheio de sofrimento, Kannon aparece em incontáveis formas: como Buda, como Bodhisattva, como monge, como rei, como autoridade pública, como mulher, como criança e em muitas outras formas, trabalhando incessantemente pela libertação de todos os seres.


Assim como Jizō, Kannon também aparece dentro dos seis caminhos do renascimento para salvar os seres que ali vivem. Por isso, Kannon é frequentemente representado em formas ligadas aos seis caminhos.


Em uma de suas formas, Kannon segura uma flor de lótus aberta em uma mão e um botão de lótus fechado na outra. A flor aberta simboliza a aceitação compassiva de todos os seres. O botão fechado representa o Buda potencial presente dentro de cada pessoa.


Kannon usa uma coroa que contém a imagem de Amitābha. Isso indica a profunda ligação entre Kannon e Amitābha.


Mantra:

“On arorikya sowaka.”

Forma em sânscrito:

“Oṃ ārolik svāhā.”


Sentido devocional: “Óṃ. Ārolik é uma sílaba sagrada ligada à família do lótus e à compaixão de Avalokiteśvara Bodhisattva. Svāhā.”

9. Mahāsthāmaprāpta Bodhisattva

Seishi Bosatsu

A nona divindade é Mahāsthāmaprāpta Bodhisattva, isto é, Seishi Bosatsu, o

Bodhisattva que acompanha Amitābha juntamente com Kannon.


Tradicionalmente, Seishi permanece à esquerda de Amitābha, enquanto Kannon permanece à direita.


Seishi Bodhisattva representa a força eficaz da sabedoria do Buda. Kannon representa o amor compassivo. Ambos expressam, juntos, a sabedoria e a compaixão que acompanham Amitābha.


Seishi geralmente é representado com as mãos juntas em gasshō¹. Essa postura indica que o coração humano está pronto para se abrir como uma flor de lótus e receber a verdade do despertar.


O voto de Seishi é ajudar os seres humanos a alcançar rapidamente o estado da sabedoria suprema.


Mantra:

“On san zan saku sowaka.”

Forma em sânscrito:

“Oṃ saṃ jaṃ saḥ svāhā.”


As sílabas deste mantra são compreendidas simbolicamente. Elas estão ligadas à força espiritual da sabedoria e à remoção dos obstáculos da mente. Desde obstáculos grosseiros, como raiva, ignorância e ganância, até obstáculos sutis, como visões erradas e equívocos filosóficos, elas se relacionam com sua remoção.


Por isso, Seishi tem como finalidade remover os obstáculos humanos para que as pessoas possam aproximar-se da sabedoria do Nirvāṇa.


Notas explicativas

  1. Gasshō — é o gesto de unir as palmas das mãos diante do peito em sinal de reverência, respeito e recolhimento espiritual. Amplamente utilizado no Budismo japonês, acompanha práticas como orações, recitação de sutras, reverências e momentos de contemplação.


    Além de ser um gesto externo de devoção, o gasshō simboliza a união entre sabedoria e compaixão, entre praticante e ensinamento, e entre corpo e mente em estado de harmonia. Também expressa humildade, gratidão e abertura interior diante do caminho espiritual.

10. Amitābha Tathāgata

Amitābha Tathāgata

A tradição budista relata o seguinte:

Em um passado extremamente remoto, um rei abandonou o trono e tornou-se um monge chamado Dharmākara. Após incontáveis práticas religiosas, realizou o despertar e tornou-se Buda.


Em sua busca pela verdade, estabeleceu quarenta e oito votos e os realizou. Por meio desses votos, agora como Buda, estende a mão da salvação a todos os seres.


Ele estabeleceu, no Ocidente, uma Terra Pura chamada Sukhāvatī. Em japonês, é conhecida como Gokuraku Jōdo, a Terra da Grande Felicidade. Ali renascem aqueles que contemplam e recitam seu nome com fé.


Todos aqueles que são acolhidos por Amitābha são envolvidos por sua luz e participam da vida ilimitada.


O nome Amitābha significa “luz infinita”. Amita significa “imensurável” ou “infinito”, e ābhā significa “luz”.


Esse Buda também é chamado Amitāyus, que significa “vida infinita”, pois āyus significa “vida”. Mais raramente, também é chamado Amṛta-rāja, isto é, “Rei da Imortalidade”.


Há muitos mantras ligados a Amitābha.


Na tradição Shingon, recita-se:

“On amirita teizei kara un.”

Forma em sânscrito:

“Oṃ amṛta teje hara hūṃ.”


Sentido devocional: “Óṃ. Ó poder luminoso do néctar da imortalidade, manifesta-te. Hūṃ.”

11. Akṣobhya Tathāgata

Ashuku Nyorai

A décima primeira divindade é Akṣobhya Tathāgata, em japonês Ashuku Nyorai. O nome Akṣobhya significa “Imperturbável” ou “Aquele que não pode ser abalado”.


Akṣobhya representa a sabedoria que transforma a raiva e o ódio em uma mente clara como um espelho. A raiva surge quando o coração é abalado violentamente por aquilo que não aceita. Contudo, quando a mente se torna imóvel como um espelho, ela reflete as coisas como são, sem ser arrastada por aversão ou apego. Essa é a sabedoria representada por Akṣobhya.


Akṣobhya é associado ao leste e à família vajra. Ele expressa a firmeza indestrutível da sabedoria do Buda.


Mantra:

“On akishubiya un.”

Forma em sânscrito:

“Oṃ akṣobhya hūṃ.”


Sentido devocional: “Óṃ. Akṣobhya, o Imperturbável. Hūṃ.”

12. Mahāvairocana Tathāgata

Dainichi Nyorai

Mahāvairocana, isto é, Dainichi Nyorai, é o Buda fundamental do Budismo Esotérico Shingon.


Em muitas formas do Budismo, o Buda histórico Śākyamuni ocupa o centro. Contudo, no Budismo Esotérico Shingon, a verdade última é expressa por Mahāvairocana.


Mahāvairocana não é simplesmente um Buda entre muitos Budas. Ele é o Buda que expressa todo o universo, todo o Dharmadhātu, como corpo, fala e mente do Buda.


Seu nome, Vairocana, significa “aquele que ilumina amplamente” ou “aquele cuja luz se espalha por toda parte”. Por isso, em japonês, ele é chamado Dainichi Nyorai, o “Grande Sol Tathāgata”. Assim como o sol ilumina todas as coisas sem distinção, a sabedoria e a compaixão de Mahāvairocana iluminam todos os seres.


No entanto, Mahāvairocana não deve ser entendido simplesmente como o sol físico. Ele é o símbolo e a realidade do Dharma que ilumina todos os fenômenos.


No Budismo Esotérico, o universo inteiro é compreendido como a manifestação da atividade de Mahāvairocana.


A terra, a água, o fogo, o vento, o espaço e a consciência; o corpo, a fala e a mente; os sons, as formas, os gestos e os pensamentos — tudo isso pode ser compreendido, no nível mais profundo, como expressão do corpo, da fala e da mente de Mahāvairocana.


Por isso, a prática esotérica não é uma fuga do mundo. É descobrir, dentro deste próprio corpo e deste próprio mundo, a atividade do Buda.


Mantra:

“On abiraunken bazara datoban.”

Forma em sânscrito:

“Oṃ a vi ra hūṃ khaṃ vajra dhātu vaṃ.”


Sentido devocional: “Óṃ. A, vi, ra, hūṃ, khaṃ. Vajra-dhātu. Vaṃ.”

Kokūzō Bosatsu

A décima terceira divindade é Ākāśagarbha Bodhisattva, em japonês Kokūzō Bosatsu. O nome Ākāśagarbha significa “Tesouro do Espaço” ou “Matriz do Espaço”.


O espaço não tem limite. Por isso, Ākāśagarbha simboliza uma sabedoria e um mérito vastos como o espaço. Ele também é conhecido como protetor da memória, do aprendizado, da compreensão e da sabedoria.


No Japão, Ākāśagarbha é profundamente ligado à prática chamada Gumonjihō, uma prática de recitação e contemplação destinada a obter grande memória e sabedoria. Segundo a tradição, Kūkai¹ praticou intensamente o mantra de Ākāśagarbha em sua juventude.


Ākāśagarbha representa o tesouro ilimitado da sabedoria que se abre quando a mente se torna vasta como o céu.


Mantra:

“On bazara aratano on taraku sowaka.”

Forma em sânscrito:

“Oṃ vajra ratna oṃ trāḥ svāhā.”


Sentido devocional: “Óṃ. Joia vajra. Óṃ. Trāḥ. Svāhā.”


Notas explicativas

  1. Kūkai — Foi fundador da Escola Shingon no Japão. Recebeu o título de Kōbō Daishi, significa “Grande Mestre que Propagou o Dharma”. Na tradição Shingon, Kōbō Daishi é venerado não apenas como mestre e patriarca, mas também como modelo de prática, sabedoria e compaixão, permanecendo até hoje como guia espiritual dos praticantes.


Os Treze Budas e os memoriais

Os Treze Budas também são profundamente ligados, no Japão, aos memoriais pelos falecidos.


Cada memorial é associado a uma divindade.

Sétimo dia: Fudō Myōō.

Décimo quarto dia: Śākyamuni Tathāgata.

Vigésimo primeiro dia: Mañjuśrī Bodhisattva.

Vigésimo oitavo dia: Samantabhadra Bodhisattva.

Trigésimo quinto dia: Kṣitigarbha Bodhisattva.

Quadragésimo segundo dia: Maitreya Bodhisattva.

Quadragésimo nono dia: Bhaiṣajyaguru Tathāgata.

Centésimo dia: Avalokiteśvara Bodhisattva.

Primeiro aniversário de morte: Mahāsthāmaprāpta Bodhisattva.

Terceiro ano memorial, isto é, segundo ano após a morte: Amitābha Tathāgata.

Sétimo ano memorial, isto é, sexto ano após a morte: Akṣobhya Tathāgata.

Décimo terceiro ano memorial, isto é, décimo segundo ano após a morte: Mahāvairocana Tathāgata do Reino Vajra.

Trigésimo terceiro ano memorial, isto é, trigésimo segundo ano após a morte: Ākāśagarbha Bodhisattva.


Dependendo da escola, podem existir ainda mais datas memoriais, e também podem ser incluídos Budas que não fazem parte dos Treze Budas.

“On abokya beiroshano makabodara mani handoma jimbara harabaritaya un.”

O Mantra da Luz é um dos mantras mais valorizados na tradição Shingon. Ele é uma

prática esotérica que manifesta como voz a luz da sabedoria e da compaixão de

Mahāvairocana. Tradicionalmente, também tem sido praticado para a dedicação aos

falecidos e como guia para o paraíso.


O Mantra da Luz é a luz de Mahāvairocana.


O mantra recitado na tradição Shingon possui a seguinte forma:

“On abokya beiroshanō makabodara mani handoma jinbara harabaritaya un.”

Como forma sânscrita padronizada, geralmente se apresenta:

“Oṃ amogha vairocana mahāmudrā maṇipadma jvāla pravartaya hūṃ.”


Nota: A forma sânscrita dos mantras apresentada neste texto é uma forma organizada

com base nas transliterações transmitidas nos sutras esotéricos chineses e nas

pronúncias japonesas de recitação. Por isso, não deve ser tomada como o

“sânscrito original” único e absoluto, mas como uma forma sânscrita padronizada ou

reconstrutiva.


Ao observar de modo geral cada palavra deste mantra, sua estrutura doutrinal se torna visível.


“Oṃ” é o som sagrado primordial que abre o mantra. É o som que coloca o mantra

inteiro em movimento como uma vibração sagrada.


“amogha” significa “não vazio”, “infalível”, “que se realiza com certeza”. Ou seja,

expressa que a ação do empoderamento do Buda e do mantra não termina em vão.


“vairocana” indica Vairocana, isto é, Mahāvairocana. No Budismo Esotérico Shingon,

Mahāvairocana é o Buda fundamental que manifesta todo o universo e todo o

Dharmadhātu como corpo, fala e mente do Buda. Portanto, o Mantra da Luz não é

simplesmente um mantra que invoca o nome de uma divindade, mas um mantra que

toca a luz da sabedoria e da compaixão de Mahāvairocana, luz que permeia todo o

Dharmadhātu.


“mahāmudrā” significa “grande selo”, “grande mudrā” ou “grande sinal”. No Budismo

Esotérico, mudrā não é apenas uma forma das mãos; pode ser compreendido como o

sinal no qual o despertar do Buda se manifesta concretamente, ou como a confirmação da atividade do Buda.


“maṇipadma” significa “joia e lótus”. A joia simboliza sabedoria, mérito e realização. O

lótus simboliza pureza, despertar e a natureza búdica que não é manchada pelas

impurezas.


“jvāla” ou “jvala” significa “queimar”, “brilhar”, “emitir chamas”. Daí surge o símbolo

central do Mantra da Luz: luz, chama, iluminação e purificação.


“pravartaya” significa “pôr em movimento”, “desenvolver”, “fazer atuar”. Pode ser

compreendido como uma palavra que ativa a luz de Mahāvairocana no mundo real e

desenvolve amplamente a ação de sua sabedoria e compaixão.


“hūṃ” é uma sílaba-semente extremamente importante no Budismo Esotérico. É

compreendida como som que expressa força vajra, condensação, realização,

destruição de obstáculos e concentração do poder do Buda.


Portanto, se traduzirmos devocionalmente o Mantra da Luz, ele pode ser expresso

assim:

“Óṃ. Ó Vairocana infalível. Grande selo. Luz da joia e do lótus. Brilha e põe em

movimento esse poder. Hūṃ.”


Ou, como uma oração mais natural:

“Óṃ. Ó grande selo de Mahāvairocana, que jamais termina em vão. Faze brilhar a luz

da joia e do lótus e manifesta a força de tua sabedoria e compaixão. Hūṃ.”


Contudo, isso não é uma tradução literal rigorosa. Um mantra não é algo que se

compreende traduzindo palavra por palavra como uma frase comum. Ele é uma

prática esotérica na qual som, símbolo, divindade, ritual e empoderamento se

integram.


No centro do Mantra da Luz está a ideia de “luz”. No Budismo, luz não é apenas

claridade física. Luz é a sabedoria que rompe a ignorância, a força que purifica os

obstáculos kármicos, a atividade do Buda que ilumina a ilusão e o símbolo da

compaixão que salva os seres.


No Budismo Esotérico, essa luz não é apenas uma metáfora, mas é considerada algo

que se manifesta concretamente por meio de mantra, mudrā, contemplação e

empoderamento. Em outras palavras, recitar o Mantra da Luz é uma ação na qual

corpo, fala e mente do praticante ressoam com a luz da sabedoria e da compaixão de

Mahāvairocana.


Na tradição Shingon, Mahāvairocana é o Dharmakāya Buda, o Buda fundamental que

manifesta o próprio Dharmadhātu como corpo do Buda. Por isso, a luz de

Mahāvairocana não é uma luz física que vem de algum lugar distante. Ela é a atividade da sabedoria e da compaixão do Buda que permeia o mundo inteiro.


Recitar o Mantra da Luz é alinhar a própria voz e a própria mente com a luz de Mahāvairocana que preenche esse Dharmadhātu.


O Mantra da Luz está fortemente ligado à expiação de pecados, remoção de

obstáculos, salvação dos falecidos e renascimento na Terra Pura. Tradicionalmente,

ensina-se que, por meio da recitação deste mantra, os obstáculos kármicos são

removidos, os falecidos são conduzidos à luz e os seres são orientados a uma direção

melhor.


Entretanto, isso não deve ser compreendido como magia simples. O Mantra da Luz é

uma prática na qual o praticante abre corpo, fala e mente para a sabedoria e a

compaixão de Mahāvairocana e dedica essa luz também aos outros seres.


Quando recitado para os falecidos, não se trata apenas de desejar “que esta pessoa vá para um lugar melhor”. Trata-se de envolver o falecido na luz de Mahāvairocana e

dedicar a ele a força da purificação e do despertar.


Quando recitado para si mesmo, trata-se de iluminar a própria ignorância, purificar os

obstáculos e retornar à direção da sabedoria e da compaixão.


Portanto, o Mantra da Luz é um mantra que manifesta a luz de Mahāvairocana na voz

humana.


É a prática de deixar que a sabedoria ilumine a ignorância.

É a prática de deixar que a compaixão abrace o sofrimento.

É a prática de transformar a voz do praticante em veículo da luz do Buda.

“Namu Daishi Henjō Kongō.”

“Namu Daishi Henjō Kongō” é a expressão mais importante recitada na tradição

Shingon ao tomar refúgio e prestar reverência a Kōbō Daishi Kūkai.


Como é um mantra formado no Japão, não possui forma sânscrita; contudo, é o mantra mais recitado e mais amado pelos fiéis da tradição Shingon.


Em qualquer momento de dificuldade, se recitamos este mantra, Kōbō Daishi caminha

conosco.

É esse tipo de mantra, profundamente caloroso e acolhedor.


Em tradução mais próxima do sentido literal, significa:

“Tomo refúgio no Grande Mestre, Henjō Kongō.”


Em uma tradução mais devocional, significa:

“Tomo refúgio profundamente no Grande Mestre Kōbō Daishi, dotado da sabedoria

vajra que ilumina todas as coisas.”


“Namu” deriva do sânscrito namaḥ e, de modo direto, significa “tomo refúgio”. Porém,

possui também um sentido profundo, a ponto de significar entregar a própria vida e

uni-la ao objeto de devoção.


“Daishi” significa “Grande Mestre”. Aqui, refere-se a Kōbō Daishi Kūkai. Kūkai é o

fundador da tradição Shingon e o grande monge que transmitiu sistematicamente o

Budismo Esotérico ao Japão. Portanto, quando se diz “Daishi”, na tradição Shingon isso designa especialmente Kōbō Daishi.


“Henjō Kongō” é o título honorífico concedido a Kūkai por seu mestre Huiguo Ajari

quando ele recebeu a transmissão do Budismo Esotérico na China. “Henjō” significa

“iluminar amplamente”. Representa a luz da sabedoria e da compaixão do Buda

iluminando todos os mundos. “Kongō” corresponde ao sânscrito vajra e representa a

sabedoria indestrutível e firme, a força que destrói a ilusão e a verdade imóvel do Buda.


E “Henjō Kongō” é, em si, uma expressão que representa Mahāvairocana (Dainichi Nyorai).

Portanto, quando recitamos “Namu Daishi Henjō Kongō”, não estamos apenas

expressando respeito a Kūkai como personagem histórico. Estamos tomando refúgio

na própria sabedoria e compaixão de Mahāvairocana transmitidas por meio de Kōbō

Daishi.


Acredita-se que Kōbō Daishi ainda hoje, no santuário mais profundo do Monte Kōya,

permanece em profunda meditação, respondendo às orações e continuando a guiar

todos os seres.


Assim, “Namu Daishi Henjō Kongō” é uma oração que significa: “Kōbō Daishi, tomo

refúgio em você e na sabedoria e compaixão de Mahāvairocana, que são sua

verdadeira natureza.” É também o mantra que nos conecta a Kōbō Daishi, que ainda

permanece neste mundo.

O verso de dedicação de méritos não é uma simples “oração de encerramento”. É uma oração muito importante, que mostra para onde se dirige, em última instância, a

prática da via budista. Quando acumulamos méritos, não os encerramos apenas

dentro de nós mesmos; nós os direcionamos a todos os seres. Aí está o espírito da

dedicação de méritos.


Nela está contido um voto sublime. Primeiro, não guardamos como “algo apenas meu”

as boas ações que praticamos. Em seguida, oferecemos esses méritos à família, aos

antepassados, aos amigos, aos que sofrem e a todos os seres cujo nome nem sequer conhecemos.


E, por fim, desejamos que não apenas nós sejamos salvos, mas que todas as vidas caminhem juntas pela via do Buda e despertem juntas.


Esta oração é a própria compaixão budista. Em vez de monopolizar os frutos da própria prática, ela os abre para o mundo inteiro. Nela há um coração vasto, que deseja não apenas a felicidade do “eu”, mas a felicidade de “eu e todos”.


Além disso, esse desejo não é simples fantasia. Cada vez que recitamos sutras, concentramos a mente, oramos e acumulamos boas ações, esta oração serve para cultivar concretamente esse coração.


Por isso, o verso de dedicação de méritos é a própria forma de viver de um budista. Ele nos ensina, de modo silencioso e ao mesmo tempo poderoso, que a via do Buda não é um caminho no qual apenas eu desperto, mas um caminho no qual seguimos para a realização do estado de Buda junto com todas as vidas. Cada palavra que recitamos é, ao mesmo tempo, uma oração pessoal e um grande voto dirigido ao mundo.


Que todos os seres vivos sejam felizes.

NAMU DAISHI HENJŌ KONGŌ










 
 
 

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