DAINICHI NYORAI
- kongojisuzano

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Dainichi Nyorai, Mahāvairocana, diferentemente do Buda Śākyamuni¹, que apareceu historicamente nesta terra com um corpo físico, é o Buddha primordial enquanto próprio substrato² fundamental do universo.
Em outras palavras, Dainichi Nyorai é a Verdade³ que sustenta a existência do próprio mundo, a Sabedoria que ilumina todas as coisas e a fonte da compaixão dirigida a todos os seres. Ele é a própria Verdade que se encontra no fundamento da existência e, ao mesmo tempo, é o Buddha supremo que se manifesta no mundo e atua por meio de todos os seres vivos.
Esse Dainichi Nyorai possui dois aspectos fundamentais, que são venerados como duas manifestações: Kongōkai Dainichi Nyorai e Taizōkai Dainichi Nyorai.
Kongōkai
Um desses aspectos é o aspecto da Sabedoria, Prajñā⁴, que representa a inteligência suprema capaz de compreender plenamente a verdade da vacuidade do mundo de “impermanência, originação dependente e não-eu”, bem como a verdade do Taizōkai.

Taizōkai
O outro aspecto é o da compaixão perfeita que governa este mundo: o Taizōkai.

Os mundos representados por esses dois aspectos também são expressos por meio de dois tipos de mandalas⁵.
Esses dois Dainichi Nyorai, ou essas duas mandalas, não são coisas separadas. A verdade de que são dois e, ao mesmo tempo, um, é chamada de “unidade não dual⁶”.
Isso se aproxima da relação entre corpo e mente no ser humano.
Tanto o corpo quanto a mente podem ser chamados de “você”. Porém, sem um ou sem o outro, não se poderia dizer que esse é o seu verdadeiro ser.
No entanto, na prática, nos templos onde Dainichi Nyorai é consagrado, geralmente se consagra apenas uma das duas manifestações de Dainichi Nyorai, de acordo com a característica própria daquele templo. Neste templo Kongoji, trata-se de Kongōkai Dainichi Nyorai.
Contudo, isso não é uma deficiência. Ao rezar para uma das duas esferas, essa oração também se comunica simultaneamente com a outra. É justamente por isso que se fala em unidade não dual. Por outro lado, no caso das mandalas, as duas esferas são consagradas em conjunto.
Mandala do Mundo Vajra (Kongōkai Mandara)
O Kongōkai representa a “Sabedoria” de Dainichi Nyorai.
A sabedoria aqui mencionada não é uma inteligência comum. É a sabedoria búdica que desperta diretamente para a verdade da compaixão do mundo indicada pelo Taizōkai.
Essa sabedoria possui a natureza do “vajra”.
Vajra, em japonês kongō, significa raio, thunderbolt, e diamante. Além disso, é também o nome da arma empunhada por Indra⁷, o rei dos deuses. Assim, a sabedoria vajra significa a força espiritual e mental suprema, a mais poderosa, que jamais pode ser destruída pela ilusão ou pelo desejo.
Kongōkai Dainichi Nyorai governa essa sabedoria vajra.
A Mandala do Kongōkai (Mandala do Mundo Vajra) possui uma estrutura que mostra os nove estágios pelos quais essa sabedoria vajra rompe as ilusões e os apegos das pessoas e as conduz ao estado de Buddha.
O significado profundo do Kongōkai não está em simplesmente negar os desejos ou as emoções negativas, mas em transformar sua energia fundamental em uma grande energia positiva. O desejo, a ira, a tristeza desesperada e os sofrimentos produzem sofrimento porque foram distorcidos pela ignorância. Porém, quando a ignorância é destruída pela sabedoria e o aspecto negativo é iluminado, eles podem ser transformados em uma grande força positiva.
Essa ideia de “transformar” é uma das características importantes do Budismo Esotérico. A Mandala do Kongōkai é uma mandala que mostra a possibilidade de o ser humano iludido caminhar em direção ao estado de Buddha.
Mandala do Mundo Matriz (Taizōkai Mandara)
A Mandala do Taizōkai é a mandala que revela a “grande compaixão” de Dainichi Nyorai.
A verdade aqui mencionada não é uma simples teoria ou conceito. É a própria Verdade que se encontra no fundamento da existência.
Se o Kongōkai mostra o aspecto da sabedoria que ilumina a verdade, o Taizōkai mostra que todos os seres estão envolvidos por essa verdade e guardam dentro de si a possibilidade de se tornarem Buddhas.
O nome Taizōkai significa “aquilo que está envolvido e contido no interior”. Ele indica o mundo no qual todos os seres estão envolvidos e nutridos dentro da compaixão absoluta de Dainichi Nyorai.
Na base do Taizōkai está a ideia de que “a vida está sempre envolvida pela grande compaixão do Buddha”.
O Taizōkai não é um ensinamento de mero consolo para tranquilizar as pessoas. Ele mostra uma esperança absoluta: por mais que alguém esteja em meio a dificuldades e ilusões, o Buddha não se perde no fundamento da existência. E essa verdade é comprovada justamente no meio do sofrimento e das dificuldades.
Taizōkai Dainichi Nyorai governa a grande compaixão de Dainichi Nyorai e forma o mudrā⁸ da meditação do Dharmadhātu, o Hokkai-jōin. Esse mudrā simboliza a serenidade do universo, a meditação de Dainichi Nyorai e a compaixão que envolve todas as coisas.


Entretanto, essa quietude não é um simples nada. Assim como o universo, ela está plena da força da grande compaixão que envolve, nutre e guia todos os seres vivos.
A estrutura da Mandala do Taizōkai mostra como essa grande compaixão de Dainichi Nyorai se desenvolve a partir do centro e se abre, por meio das diversas divindades sagradas, como múltiplas bênçãos. As divindades que aparecem na mandala são a compaixão de Dainichi Nyorai desdobrada em múltiplas formas.
Essa expansão é como uma galáxia, na qual incontáveis estrelas brilham a partir de uma única luz central. É como se cada divindade expressasse, em sua própria forma, a luz da grande compaixão de Dainichi Nyorai.
Portanto, a Mandala do Taizōkai é uma mandala que representa a relação entre o universo e a vida: a grande compaixão de Dainichi Nyorai envolve todos os seres e abre a possibilidade búdica presente em cada vida.
A sílaba A
Aquilo que condensa em uma única sílaba a essência desses dois Dainichi Nyorai é a sílaba A.
A sílaba A é a letra Siddham que representa o som “A”.
O “A” é um dos sons mais fundamentais emitidos pelo ser humano e é usado como vogal básica em muitas línguas, incluindo o sânscrito, o japonês, o inglês e o português. No Budismo Esotérico, essa letra A é considerada uma letra que simboliza a raiz de todos os dharmas, a fonte e o substrato do mundo.
O núcleo da sílaba A é o ensinamento chamado “Aji honpushō”, isto é, “a sílaba A é originalmente não nascida”.
Explicaremos de maneira simples o significado indicado por Aji honpushō.
Tudo o que existe neste mundo não é uma realidade verdadeira, eterna e imutável. É algo semelhante a uma ilusão e não pode se tornar o fundamento da verdadeira felicidade. O único ser real, eterno e imutável, Dainichi Nyorai, não é uma existência que surge dentro deste mundo.
Esse significado é extremamente profundo. Pensa-se que sua verdadeira compreensão só se torna possível depois de um entendimento profundo do Budismo e do Budismo Esotérico. Ainda assim, o simples fato de vocês conhecerem isso agora certamente lhes trará boas percepções no futuro.
Em sentido último, a sílaba A é a sílaba suprema que mostra que a sabedoria do Kongōkai e a grande compaixão do Taizōkai são originalmente não duais em Dainichi Nyorai.
Ao mesmo tempo, ela mostra que o Buddha e nós também somos originalmente não duais.
Desse modo, o A sânscrito é o símbolo mais profundo do Budismo Esotérico Shingon.
A relação entre essa sílaba A, Taizōkai Dainichi Nyorai e Kongōkai Dainichi Nyorai é muito semelhante, em sua estrutura e em suas respectivas funções, à estrutura da Santíssima Trindade no Cristianismo.
No Cristianismo, a relação segundo a qual o Ser Supremo possui três pessoas pode ser expressa da seguinte maneira:
Deus Pai: a fonte de tudo; a função da “origem”, que realiza a criação dos céus e da terra... A sílaba A
Deus Filho, Jesus Cristo: a função de “revelação e salvação”, que manifesta a verdade de Deus no mundo humano.… Taizōkai Dainichi Nyorai
Espírito Santo: a função de “orientação e vivificação”, que realiza a ação de Deus no interior humano e no mundo.… Kongōkai Dainichi Nyorai
Naturalmente, essas relações não são completamente idênticas. Essa comparação deve ser entendida apenas como uma referência simbólica para auxiliar o aprofundamento da compreensão.
A seguir, apresenta-se um texto destinado a aprofundar ainda mais a compreensão da sílaba A. Mesmo que seu significado não seja plenamente compreendido, uma leitura tranquila e aberta à sua nuance pode contribuir para semear uma percepção mais profunda de seu sentido essencial.



Mantra de Taizōkai Dainichi Nyorai
Namaḥ samanta-buddhānāṃ a vi ra hūṃ khaṃ
Namaḥ samanta-buddhānāṃ
Namaḥ significa “prestar reverência”, “entregar-se e tomar refúgio”, e também possui a nuance de “a vida retorna à sua fonte original”. Não se trata de uma simples saudação.
Essa palavra contém uma atitude religiosa: afastar-se de uma mente centrada apenas em si mesma e abrir-se à Verdade do Buddha.
Samanta significa “aquilo que se estende por tudo” ou “aquilo que alcança todas as direções”.
Buddhānāṃ é uma forma plural de Buddha e significa “dos Buddhas”, isto é, “de todos os Buddhas”.
Portanto, Namaḥ samanta-buddhānāṃ, traduzido literalmente, significa:
“Presto reverência a todos os Buddhas, presentes em todas as direções.”
Em inglês, Namaḥ samantabuddhānāṃ costuma ser traduzido como: “Homage to all Buddhas!”.
No entanto, isso não significa simplesmente “cumprimentar muitos Buddhas”. No Taizōkai, as divindades sagradas não são Buddhas ou deuses independentes e separados. Elas são manifestações variadas da grande compaixão de Dainichi Nyorai. Portanto, a nuance dessa expressão é a de abrir-se para toda essa expansão sagrada dos Buddhas e dos seres iluminados, tendo Dainichi Nyorai como centro.
Em seguida, temos a segunda parte: a vi ra hūṃ khaṃ.
Essa parte não deve ser traduzida como uma frase comum. A, vi, ra, hūṃ e khaṃ são tratados como sílabas-semente, isto é, sílabas sagradas nas quais a Verdade do Buddha está condensada em som.
Esses cinco sons representam cinco dos seis grandes elementos fundamentais do mundo no Budismo: terra, água, fogo, vento e espaço. Apenas a consciência não está incluída.
Essa consciência é o princípio espiritual, corresponde à dimensão da mente. Os outros cinco são princípios materiais, que expressam os aspectos que constituem e sustentam o mundo manifestado.
Mas por que os cinco princípios materiais que constituem este mundo se tornam um mantra de Dainichi Nyorai?
Porque Dainichi Nyorai não está em um reino celestial distante. Ele existe juntamente com este mundo.
Esses cinco grandes elementos — terra, água, fogo, vento e espaço — são simbolizados como:
A solidez da terra, a umidade da água, o calor do fogo, o movimento do vento, e a vastidão do espaço.
Tudo isso é o corpo de Dainichi Nyorai. E todas as vidas e todas as coisas materiais que se desdobram a partir desses elementos também estão envolvidas por Dainichi Nyorai.
No entanto, apenas isso ainda seria somente o corpo. Aqui ainda falta a mente. Somente quando corpo e mente estão reunidos é que existe um ser completo. O elemento responsável por essa mente é a “consciência”.
Mas o significado que representa a consciência não está incluído diretamente neste mantra. Por quê?
Porque essa “consciência”, isto é, a mente do Buddha, a Sabedoria, é assumida pelo Kongōkai. É justamente por isso que o Kongōkai e o Taizōkai são chamados de unidade não dual.
Somente quando esses dois estão reunidos é que o corpo e a mente de Dainichi Nyorai se tornam um.
Portanto, Namaḥ samanta-buddhānāṃ a vi ra hūṃ khaṃ possui a seguinte nuance:
“Contemplo, por meio da Sabedoria, este mundo puro no qual Dainichi Nyorai se manifesta como terra, água, fogo, vento e espaço; e faço minha vida retornar ao interior de sua compaixão infinita.”
No entanto, não se apeguem também a essa interpretação. O mantra, em sua essência, é uma fórmula sagrada de oração cujo significado não pode ser limitado pelas interpretações humanas.
Mantra de Kongōkai Dainichi Nyorai
O significado de Oṃ vajra-dhātu vaṃ
Primeiramente, Oṃ é um som sagrado extremamente importante em todas as religiões indianas. É o som que indica a entrada no mundo sagrado. É uma vibração que abre o ser humano para o Buddha.
Vajra representa a Sabedoria, isto é, a mais poderosa força de discernimento espiritual, capaz de destruir toda energia negativa e todo apego.
Em seguida, temos dhātu.
Dhātu significa “esfera”, “mundo” ou “domínio”. Portanto, vajra-dhātu significa Kongōkai, o Reino Vajra. Em outras palavras, significa o domínio pleno da Sabedoria vajra do Buddha.
Por fim, vaṃ não é algo que se traduza como uma palavra comum. É uma sílaba-semente. É o som que simboliza Kongōkai Dainichi Nyorai em uma única sílaba.
Portanto, Oṃ vajra-dhātu vaṃ não é um mantra que possa ser traduzido como uma frase comum. Pelo contrário, pode-se dizer que ele é uma invocação sagrada: “Oṃ, Reino Vajra, Vaṃ.”
Ou ainda, é um mantra por meio do qual se contempla a Sabedoria de Kongōkai Dainichi Nyorai para além da razão e do pensamento discursivo.
Notas explicativas
Buda Sakyamuni — nome dado ao príncipe Siddhartha Gautama após alcançar a iluminação. “Sakyamuni” significa “o sábio do clã Sakya”. É considerado o fundador do Budismo e aquele que revelou os ensinamentos sobre o sofrimento, a realidade e o caminho para o despertar espiritual. (voltar para leitura)
Substrato — termo utilizado aqui no sentido filosófico de fundamento ou base última sobre a qual os fenômenos se manifestam e existem. Não se refere a uma substância material ou a um “objeto” oculto por trás do universo, mas à realidade que sustenta e torna possível a existência. (voltar para leitura)
Verdade — termo utilizado aqui para indicar a realidade última (talidade), isto é, a natureza dos fenômenos tal como são. (voltar para leitura)
Prajñā (般若)
É a “sabedoria que vê a verdade da existência” no budismo. Não se trata simplesmente de acumular conhecimento, mas de transcender a percepção distorcida pela ignorância e pelo apego, e ver o mundo tal como ele realmente é.
No budismo, considera-se que os seres humanos normalmente percebem as coisas como fixas, independentes e permanentes. No entanto, a prajñā compreende que tudo surge por meio da originação dependente (pratītyasamutpāda) e não possui uma essência fixa. Essa é a compreensão da “vacuidade” (śūnyatā). Portanto, prajñā não é niilismo nem a ideia de que “nada existe”, mas sim a sabedoria que vê a verdade de que tudo é interdependente.
A prajñā corresponde ao “conhecimento” (慧) dentro dos três treinamentos budistas — disciplina (śīla), concentração (samādhi) e sabedoria (prajñā) — e é altamente valorizada como a visão que conduz à libertação. Trata-se de uma percepção que penetra a própria estrutura de distinção entre sujeito e objeto, transcendendo a cognição ilusória.
No budismo esotérico (密教), a prajñā não é vista apenas como pensamento, mas como algo que integra corpo, fala e mente, manifestando a sabedoria do Buda como realidade viva. No Zen e nas práticas meditativas, ela é enfatizada como um despertar direto que vai além das palavras.
Em suma, prajñā é a “sabedoria fundamental do despertar” que permeia todo o budismo. Não é mera inteligência, mas a sabedoria que reconhece a causa do sofrimento, supera o apego e desperta para a realidade tal como ela é.
Mandalas — representação sagrada utilizada no Budismo Esotérico para expressar visualmente o mundo búdico e a verdade espiritual do universo. Mais do que um simples símbolo ou desenho, a Mandala é compreendida como a própria manifestação da sabedoria, da compaixão e da realidade iluminada. (voltar para leitura)
Unidade não dual — expressão utilizada para indicar que os fenômenos não existem como realidades totalmente separadas e independentes entre si. Isso não significa que todas as diferenças desaparecem, mas que, em sua natureza mais profunda, elas participam de uma mesma realidade. (voltar para leitura)
Indra — divindade importante das antigas tradições indianas, frequentemente apresentada como rei dos deuses (devas) e associada ao poder, ao trovão e à proteção. No Budismo, aparece como uma divindade que protege o Dharma, sendo conhecido em japonês como Taishakuten. (voltar para leitura)
Mudrās — são gestos e posições simbólicas das mãos e do corpo utilizados nas práticas budistas esotéricas. Representam estados espirituais, ensinamentos e atividades do Buda, sendo empregados como forma de concentração, meditação e união com a sabedoria búdica. (voltar para leitura)





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