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INTRODUÇÃO À PRÁTICA FUNDAMENTAL DO BUDISMO ESOTÉRICO: SUTRAS E MANTRAS

Prática básica da tradição Shingon

— Sutras e mantras —

A prática budista é o caminho realizado por meio do estudo dos ensinamentos do Buda e da aspiração ao próprio estado de Buda. Nesse sentido, a prática e o fruto espiritual¹ parecem estar separados.


Por outro lado, o ponto essencial do sanmitsu-kaji², que está na raiz da prática esotérica, é que a própria prática está diretamente ligada ao objetivo final, isto é, ao fruto supremo do Buda. Essas duas abordagens são ambas importantes. No entanto, a abordagem esotérica é uma prática mais direta e intuitiva.


A recitação dos sutras pode ser realizada tanto como uma abordagem budista geral quanto como uma abordagem esotérica. Se você deseja compreender o significado dos sutras, estudá-los e elevar a sabedoria, isso será uma abordagem budista geral.


O que é, então, a abordagem esotérica? Isso será explicado na segunda parte deste texto. Se você recitar com a intenção de realizar essa abordagem esotérica, a recitação também se tornará uma abordagem esotérica.


A escolha de qual abordagem seguir pertence a você.


A recitação dos mantras é uma abordagem esotérica. Ela é uma das práticas representativas do sanmitsu-kaji, a bênção e união dos Três Mistérios no Budismo Esotérico³.


No mantra, o mais importante não é conhecer seu significado. Isso porque o mantra em si não é algo destinado a explicar um significado, mas sim um meio para entrar em ressonância com o Buda por meio do som e da palavra.


Além disso, trata-se de uma linguagem que, em sentido rigoroso, é impossível traduzir para uma língua moderna. Por isso, o significado deve ser compreendido apenas como referência. Durante a prática, o essencial é simplesmente concentrar-se naquele Buda.


Também não é necessário compreender detalhadamente cada Buda desde o início.


— A essência do Buda —

O Buda é “sabedoria” e “compaixão absoluta em si mesma”.


Sabedoria é a sabedoria que compreende de modo verdadeiramente profundo os princípios deste mundo: a impermanência, a originação dependente, a vacuidade e o não eu.

Estes conceitos já foram abordados no texto INTRODUÇÃO AO BUDISMO. Por favor, releia se achar necessário.


Dito de modo simples, trata-se da verdade de que todos os seres humanos e todas as formas de vida, em sua essência, não carregam originalmente o karma⁴, o pecado, a responsabilidade, a honra nem as sementes da felicidade; já são seres completamente livres do sofrimento, do apego e da raiva; o sofrimento surge quando se deseja aquilo que não foi concedido, e o sofrimento se extingue quando se ama completamente todo o próprio destino.


Atenção: esta é uma verdade profunda do Budismo Esotérico. Por causa disso, jamais pensem de maneira simplista que o Buda perdoa qualquer coisa que se faça. O que é mau continua sendo mau, e o pecado será julgado. No entanto, quando visto pelos olhos da sabedoria última, neste mundo não resta nada além da compaixão.


E essa “compaixão” é uma compaixão absoluta. Todos os acontecimentos e todos os seres que aparecem em seu destino foram concedidos por uma compaixão dirigida somente a você. Tudo foi preparado pelo Buda, com compaixão sublime, para a purificação, a elevação e a verdadeira alegria da sua alma; para você, como filho único do Buda.


E, ao mesmo tempo, essa compaixão se dirige a toda a vida, enquanto todos os destinos se harmonizam e criam este único mundo por meio da originação dependente.


Isso só pode ser expresso como um milagre transcendente⁵. É justamente por isso que, quanto mais a prática se aprofunda e quanto mais a sabedoria se aprofunda, maior e mais profunda se torna a fé.


Durante a recitação dos mantras, diversos pensamentos, preocupações e ilusões podem surgir na mente. Dissolva todos eles por meio da sabedoria e da compaixão, e mergulhe na compaixão pura. Esse é o ponto essencial do mantra.


Também indicamos a forma de leitura em sânscrito. Caso essa forma seja mais fácil para você recitar, pode recitá-la assim.


Originalmente, os mantras do Budismo Esotérico surgiram na Índia como antigo sânscrito e foram recebidos como revelação, ou como a voz de Mahāvairocana, o Buda Dainichi⁶. O seu significado está no fato de essa linhagem ter sido transmitida de mestre a discípulo.


No entanto, à medida que foram transmitidos ao Tibete, à China e ao Japão, esses mantras se adaptaram às línguas de cada país, modificando sua pronúncia e transformando-se em formas próprias e singulares de mantra.


Contudo, o fato de a pronúncia mudar de acordo com as circunstâncias não é um problema. O importante é que exista ali um mito sagrado legítimo⁷ e uma linhagem legítima.


Por isso, para brasileiros iniciantes, não há problema em recitar em uma forma mais próxima do sânscrito original, em vez de recitar o sânscrito com pronúncia japonesa. No início, pode ser que essa forma seja mais natural e possa ser recitada com mais fluidez.


Naturalmente, a pronúncia japonesa também possui méritos maravilhosos.


Na recitação dos mantras adaptados ao japonês, quase não existem sons que terminem apenas em consoante; muitas sílabas terminam em vogal.


As vogais são fáceis de prolongar, tendem a gerar ressonância e permitem que a respiração continue fluindo sem interrupções. Por isso, elas tendem naturalmente a tornar a respiração mais lenta e estável, a sustentar a vibração das cordas vocais e a intensificar a sensação de ressonância em todo o corpo.


De fato, os mantras em pronúncia japonesa contêm muitas vogais abertas, como “a”, “o” e “u”. Ao recitar mantras como “On abokya beiroshanō”⁸ ou “Naumaku samanda bodanan”⁹, surge uma ressonância rica na cavidade oral, na faringe e até mesmo na caixa torácica.


Por outro lado, na recitação em sânscrito reconstruído, aparecem com relativa frequência grupos consonantais, sons oclusivos¹⁰ e sons fricativos¹¹. Por isso, o contorno sonoro se torna mais nítido, e há uma tendência a se enfatizar mais o ritmo e a precisão.


Assim, embora isso seja apenas uma tendência percebida corporalmente, pode-se sentir, nos mantras em pronúncia japonesa, uma sensação de ressonância envolvente e tranquilidade; enquanto, nos mantras em sânscrito, talvez se perceba uma concentração mais forte e rítmica, além de uma sensação maior de vigor.


Além disso, caso no futuro alguém avance para uma prática especializada dentro da tradição Shingon, será necessário acostumar-se ao método japonês de recitação.


No entanto, para muitas pessoas que não seguirão um caminho especializado, uma forma mais familiar e acessível pode ser melhor.


Se houver fé sincera, qualquer pronúncia, mesmo com sotaque, pode tornar-se uma prática maravilhosa.


E esta atitude:

“Diversos pensamentos, ansiedades e ilusões podem surgir na mente. Dissolva todos eles por meio da sabedoria e da compaixão, e entregue-se à compaixão pura.”

Essa atitude pode ser aplicada a todas as práticas.


O trabalho cotidiano, as tarefas domésticas e até mesmo uma viagem — se continuarmos recordando essa atitude, isso por si só pode tornar-se uma prática do Budismo Esotérico.


Descubra por si mesmo a prática que é somente sua.


Notas explicativas

  1. Fruto espiritual — expressão usada no contexto budista para indicar o resultado último da prática espiritual, isto é, a realização do estado de Buda, do despertar ou da libertação do sofrimento. Refere-se ao “efeito” ou “meta” alcançada ao longo do caminho da prática, como a sabedoria e a compaixão plenamente desenvolvidas.


  2. Sanmitsu-kaji (三密加持) — expressão central do Budismo Esotérico. Sanmitsu significa “Três Mistérios” — corpo, fala e mente — que correspondem aos Três Mistérios do Buda. Kaji significa a união e a bênção mútua entre o praticante e o Buda. Por meio da prática, o corpo, a fala e a mente do praticante entram em harmonia com o corpo, a fala e a mente do Buda, tornando possível manifestar a natureza búdica presente em todos os seres.


  3. Três Mistérios no Budismo Esotérico — refere-se aos três aspectos fundamentais da prática esotérica: corpo, fala e mente. No Budismo Shingon, esses três elementos correspondem aos “Três Mistérios do Buda” (o corpo, a palavra e a mente do Buda), e a prática consiste em harmonizar o praticante com eles por meio de gestos (mudras), mantras e meditação. Essa união é a base do sanmitsu-kaji, a prática de integração e bênção entre o Buda e o praticante. Releia o texto OS DOIS SABERES NO BUDISMO, para relembrar este conceito.


  4. Karma — termo sânscrito que significa “ação”. No Budismo, refere-se às ações realizadas por meio do corpo, da fala e da mente, bem como às suas consequências. Essas ações geram causas que produzem efeitos ao longo do tempo, moldando as experiências de vida do ser. O karma não é um destino fixo, mas um processo dinâmico que pode ser transformado pela prática, pela sabedoria e pela compreensão correta da realidade.


  5. Transcendente — aquilo que está além dos limites da experiência comum e das categorias do pensamento ordinário. No contexto espiritual, refere-se ao que ultrapassa o mundo condicionado, as percepções habituais e a lógica convencional, apontando para uma realidade mais profunda e absoluta, como a verdade última do Buda ou a natureza iluminada da existência.


  6. Dainichi Nyorai (Mahāvairocana) — Buda central do Budismo Esotérico e do Shingon-shū. Representa a verdade cósmica, a sabedoria universal e a realidade fundamental que permeia todas as coisas. No Shingon, todos os Budas e todos os fenômenos são compreendidos como manifestações de Dainichi Nyorai.


  7. Mito sagrado legítimo — expressão usada para indicar uma narrativa ou forma tradicional de origem espiritual que possui caráter sagrado e é transmitida de maneira autêntica dentro de uma linhagem religiosa. Aqui, “mito” não significa algo falso, mas sim uma verdade simbólica e ritual que preserva o sentido e a eficácia espiritual da prática, independentemente de uma interpretação literal ou histórica.


  8. On abokya beiroshanō — trecho de uma fórmula mantraica preservada na tradição do Budismo Esotérico japonês. Trata-se de uma adaptação fonética de uma expressão originalmente derivada do sânscrito, transmitida ao longo das gerações por meio da linhagem ritual. Na prática, seu valor está menos na tradução literal de seu significado e mais na recitação devocional, na ressonância sonora e na conexão espiritual estabelecida com o Buda por meio do mantra.


  9. Naumaku samanda bodanan — fórmula de saudação e reverência presente em diversos mantras do Budismo Esotérico. Trata-se de uma adaptação japonesa de uma expressão originalmente derivada do sânscrito, geralmente interpretada como “homenagem a todos os Budas” ou “reverência a todos os seres iluminados”. Na prática ritual, seu significado principal está no gesto de devoção e abertura ao Buda, mais do que em sua tradução literal.


  10. Sons oclusivos — sons da fala produzidos quando o fluxo de ar é interrompido momentaneamente em algum ponto da boca (como pelos lábios, língua ou garganta) e depois liberado de forma súbita. Exemplos incluem sons como “p”, “t” e “k”. No contexto da recitação de mantras, esses sons tendem a criar uma articulação mais marcada e rítmica, contribuindo para uma sensação de precisão e definição na pronúncia.


  11. Sons fricativos — sons da fala produzidos quando o ar passa por uma passagem estreita na boca ou na garganta, gerando uma fricção audível. Exemplos incluem os sons representados pelas letras “f”, “v”, “s”, “z” e “x” (como em “chá”). Na recitação, esses sons tendem a tornar a articulação mais definida e a destacar o ritmo e os contornos da pronúncia.


 
 
 

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